Arte & Agenda

Os filmes estão vivos

Pesquisador, programador e crítico de cinema, Marcus Mello, trata em artigo para o Caderno de Sábado, das restaurações de clássicos do cinema gaúcho

O longa gaúcho "Vento Norte", de Salomão Scliar, será destaque do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, de 29/1 a 8/2/2026.  Será a estreia da versão restaurada em 4K do 1º longa de ficção sonoro filmado no RS, em 1951
O longa gaúcho "Vento Norte", de Salomão Scliar, será destaque do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, de 29/1 a 8/2/2026. Será a estreia da versão restaurada em 4K do 1º longa de ficção sonoro filmado no RS, em 1951 Foto : Cinemateca Capitólio / Divulgação / CP

Neste sábado, dia 27 de dezembro, um filme gaúcho produzido em 1970 está sendo exibido na cidade de Seul, capital da Coreia do Sul. Trata-se de “Um é Pouco, Dois é Bom”, de Odilon Lopez, primeiro longa-metragem realizado por um cineasta negro no Rio Grande do Sul. A exibição acontece no Korean Film Archive, o Kofa, a atuante cinemateca coreana, no âmbito de uma retrospectiva dedicada ao cinema brasileiro. A mostra, intitulada Declaration of Fools: Cinema Marginal and Beyond, inclui ainda obras de diretores como Carlos Reichenbach (O Império do Desejo), Ana Carolina (Mar de Rosas), Rogério Sganzerla (A Mulher de Todos), Ícaro Martins e José Antônio Garcia (Onda Nova), Andrea Tonacci (Bang Bang) e Ozualdo Candeias (A Margem), e tem curadoria assinada por Leonardo Bomfim, programador da Cinemateca Capitólio (antes disso, em maio deste ano, Um é Pouco, Dois é Bom já havia sido exibido na Coreia do Sul, no Festival de Jeonju). Coincidentemente, a exibição de “Um é Pouco, Dois é Bom” na Coreia do Sul ocorre alguns dias após o anúncio da seleção de outra produção gaúcha, “Vento Norte”, na disputadíssima programação do Festival de Rotterdam, na Holanda, um dos cinco festivais de cinema mais importantes do mundo. Dirigido por Salomão Scliar em 1951, “Vento Norte” foi filmado em locações na praia de Torres, e é o primeiro longa-metragem de ficção sonoro produzido no estado, podendo ser visto como uma espécie de elo perdido entre o Neorrealismo Italiano e o Cinema Novo brasileiro.

O que possibilitou a inédita circulação internacional desses dois títulos seminais da nossa cinematografia, até hoje praticamente ignorados pela historiografia do cinema brasileiro, é o fato de ambos terem sido recentemente restaurados em 4K pela Cinemateca Capitólio. Instituição pública mantida pela Prefeitura de Porto Alegre, a Cinemateca Capitólio tem entre suas missões a preservação e a difusão do cinema feito no Rio Grande do Sul. Para quem não sabe, a Cinemateca Capitólio funciona no prédio do antigo Cine-Theatro Capitólio, construído em 1928, e adquirido pelo poder público municipal em 1995. O projeto de transformar o tradicional cinema de rua localizado na região central da capital gaúcha – que funcionou ininterruptamente até 1994 – em uma cinemateca nasceu em 2001, a partir de uma mobilização inicial da comunidade cinematográfica local, representada pela Associação dos Profissionais e Técnicos Cinematográficos do Rio Grande do Sul, a APTC-RS. Após uma obra que se estendeu por mais de uma década, a Cinemateca Capitólio abriu suas portas ao público em março de 2015, transformando-se rapidamente em um espaço de referência para a cinefilia porto-alegrense pela qualidade de sua programação. Muito embora a restauração de filmes gaúchos fosse desde o início um dos principais objetivos da instituição, somente em 2024, após quase uma década de existência, a Capitólio conseguiu realizar a restauração digital em 4K do primeiro longa-metragem de seu acervo, justamente “Um é Pouco, Dois é Bom, de Odilon Lopez”. A única cópia em 35mm do filme fora depositada na Capitólio em 2017 pela família do diretor, e sua recuperação era urgente. A restauração foi viabilizada através de uma parceria entre a Cinemateca Capitólio, a Indeterminações, plataforma de crítica e cinema negro brasileiro, e a Mnemosine Serviços Audiovisuais, e contou ainda com o apoio do Itaú Cultural. A digitalização em 4K aconteceu no laboratório da Link Digital, no Rio de Janeiro, a partir dos negativos de imagem e som depositados na Cinemateca Brasileira, que estavam em excelente estado de conservação. O trabalho teve a supervisão técnica de Debora Butruce, conceituada profissional da área da preservação audiovisual, responsável pela restauração de outras obras relevantes do cinema brasileiro como A Rainha Diaba, A Hora da Estrela e Iracema, uma Transa Amazônica. A estreia da versão restaurada do filme aconteceu em junho de 2024 no festival Olhar de Cinema, em Curitiba, e desde então “Um é Pouco, Dois é Bom” tem corrido o mundo, com exibições em vários estados brasileiros e no exterior. Além das exibições na Coreia do Sul, o filme já teve sessões no Uruguai, na Argentina, no Chile e em Portugal, acaba de fechar um contrato com a distribuidora Borboleta Filmes, de Salvador, e em breve deve chegar aos canais por assinatura e ao streaming. Saudada como uma obra pioneira sobre a questão racial no Brasil pelos novos espectadores que a estão descobrindo a partir de sua restauração, “Um é Pouco, Dois é Bom” ganhou uma nova vida, permitindo uma justa reavaliação da contribuição de Odilon Lopez ao cinema brasileiro.

O mesmo deverá acontecer agora com a nova versão de “Vento Norte”, que teve seu processo de restauração digital mais uma vez coordenado por Debora Butruce nos estúdios da Link Digital. Única experiência de Salomão Scliar na direção de longas, “Vento Norte” se caracteriza pela cuidadosa elaboração dos planos, pela exploração das possibilidades expressivas da fotografia em preto e branco (também assinada pelo diretor) e pela utilização de atores não profissionais no elenco. O resultado é uma obra de extraordinária plasticidade, fruto de uma rigorosa pesquisa formal do diretor em torno dos contrastes entre o claro-escuro.

A trama de “Vento Norte” se desenrola em uma pequena vila de pescadores no litoral de Torres, cuja rotina é abalada pela chegada de um misterioso forasteiro. Sua presença irá despertar paixões e desencadear uma série de ações violentas entre os habitantes locais, conduzindo os personagens a um desfecho trágico. Em um cenário de contornos míticos, fotografado em suntuoso preto e branco, o diretor Salomão Scliar apresenta seu protagonista como um autêntico “homem fatal”, explorando a beleza e a sensualidade do ator Roberto Bataglin neste tesouro escondido do cinema brasileiro, agora recuperado em todo o seu esplendor.

A preservação de nosso patrimônio audiovisual, segundo Daniela Mazzilli, diretora da Cinemateca Capitólio desde 2019, precisa ser tratada como uma política de estado e não de governo. A repercussão internacional positiva em relação às restaurações de “Um é Pouco, Dois é Bom” e “Vento Norte”, viabilizadas em sua gestão, com recursos do orçamento do município, demonstra que estamos no caminho certo. De filmes quase secretos, impedidos de circular pela inexistência de cópias disponíveis para exibição, essas duas preciosidades do nosso cinema renascem para as telas do mundo com a força e a beleza de suas imagens devidamente reconstituídas. Seu exemplo deve orientar a futuras ações da Cinemateca Capitólio, que a partir de agora tem a intenção de recuperar pelo menos um longa gaúcho por ano.

Que venham as próximas restaurações.

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