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Os livros que abalaram o mundo no Renascença

Seminário promovido pela SMC aborda obras de Italo Svevo e Rousseau na manhã deste sábado

Sanseverino: é extraordinário pensar como um livro abalou o mundo
Sanseverino: é extraordinário pensar como um livro abalou o mundo Foto : Luiz Gonzaga Lopes / Especial / CP
O seminário "Livros que Abalaram o Mundo" entra neste sábado na análise dos livros "A Consciência de Zeno”, de Italo Svevo, e “Emilio”, de Jean-Jacques Rousseau, a partir das 9h, no Teatro Renascença, respectivamente pelo Doutor em Letras, Antônio Sanseverino, e pelo professor de História, Voltaire Schilling, com mediação de Pedro Gonzaga. O seminário é dividido em dois módulos, com 16 títulos debatidos por estudiosos e especialistas aos sábados pela manhã. Detalhes pelo fone 3289-8072. Nesta entrevista ao Correio do Povo, Sanseverino e Schilling falam sobre estes dois livros que abalaram o mundo:

Correio do Povo - Como o livro “A Consciência de Zeno” abalou o mundo?
Antônio Sanseverino -
É extraordinário pensar que um livro pode abalar um mundo. No caso de A Consciência de Zeno, Svevo cria um narrador que escreve para seu psiquiatra, como se fosse uma espécie de confissão. É um homem da elite comercial de Trieste, que não trabalha, que vive das rendas geradas por seu administrador. Ocioso, imagina-se sempre doente em busca de cura. Por vingança, por ver que Zeno fala mal de si, por ver que seu paciente mentia, enfim, por vingança!, esse psiquiatra publica essas narrativas. Temos o desvelamento daquilo que era dirigido, em confiança, apenas para um leitor. Zeno aprofunda aí a separação entre o que dizemos aos outros e o que não dizemos. Ele nos revela, no entanto, que mentia para agradar seu psiquiatra. Como a chave do seminário é o abalo do mundo, fiquei pensando muito no modo como o livro de Svevo, dos anos 20, fez isso. Creio que há um pista na parte final, que ganha formato de diário. Ali vem as datas de 1915 e de 1916. Num episódio, ele sai, caminha uma hora para buscar rosas para sua filha. Bloqueado pelas tropas, ele não pode voltar. A guerra, que ele via a partir de seu lugar pessoal, erodiu seu comércio (o administrador italiano teve de ir embora), desfez sua rotina e deixou Trieste entediante. De repente, o narrador fala de um mundo que se desfez, de uma Europa que acabou com a Primeira Guerra, mas que não tem consciência da extensão da desagregação desse mundo. Desse modo, podemos falar que Svevo, aluno particular de inglês de James Joyce, publica uma obra fundamental dessa Europa que se desfaz. Podemos colocá-la junto com Thomas Mann, com o próprio Joyce, com Proust.

CP - Em qual aspecto o livro "Emilio" abalou o mundo?
Voltaire Schilling -
Na proposta pedagógica, Rousseau manifestou-se contra o emprego da coerção e do castigo físico aplicado à educação, em razão de tais práticas aviltavam o caráter das crianças tornando-as mentirosas e cínicas para escaparam das punições. Enfatizou uma educação voltada para as coisas da natureza tornando-se assim um dos precursores do ambientalismo. Igualmente não tinha simpatias pelo ensino religioso aplicado nos primeiros anos, para que o aluno somente decidisse sua crença bem mais tarde se assim desejasse (hoje, a escola pública não tem obrigatoriedade com o ensino religioso).

CP - Como será a explanação sobre "A Consciência de Zeno"?
Sanseverino -
O ponto de partida será localizar Italo Svevo (1861-1928), sua obra tardia "A Consciência de Zeno" (1923), e a Trieste anexada à Itália no fim da Primeira Grande Guerra. Quero apresentar, a seguir, a composição desse livro de memórias, enquanto escrita a um psiquiatra, em busca de cura. Há aí um narrador que declara ter mentido e inventado histórias, mas não que avisa ao leitor a não ser no final. Temos também uma estratégia narrativa aparentemente linear, que se desfaz na medida em que o centro de cada parte provoca um deslocamento de foco e alguns episódios mais de uma vez por prismas diferentes. Quero destacar essa ênfase na doença, na hipocondria, nas dores, no sofrimento, enquanto forma de expressar uma mal estar sem resolução da condição humana. Há a necessidade de contextualizar a produção de Svevo nessa Trieste que era porto autônomo até a Primeira Guerra, que se dividia entre Itália e Áustria e que se torna província italiana... Trata-se da expressão de um mundo que se desfaz com a grande guerra. A questão é que isso penetra no cerne da escrita de Zeno.

CP - Acreditar nos princípios do Emilio, de Rousseau, é acreditar numa sociedade mais bondosa e justa na contramão dos niilismos e fatalismos posteriores?
Schilling -
Na quarta parte do livro: “Profissão de Fé do Vigário Saboiano” é que Rousseau melhor expôs sua doutrina da bondade natural do ser humano, confrontando a idéia religiosa de que o “homem nasce em pecado”. A maldade não se encontra na natureza humana, mas na sociedade que faz perverter esta bondade natural. Ao se aceitar este primado significa que temos é que corrigir a sociedade para evitar que ela prejudique os seres humanos. Posição que serve como embrião e ponto de partida para todos os movimentos sociais de reforma social que surgirão depois (socialismo, reformismo liberal, anarquismo etc). O livro e o seu autor foram violentamente perseguidos. Rousseau teve que exilar-se um tempo na Inglaterra, em 1766, a convite do filósofo Hume. Até na sua cidade natal, Genebra, o livro foi entregue ao carrasco.

CP - É possível um paralelo entre "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis e "A Consciência de Zeno"?
Sanseverino –
Sim. Não se trata de considerar que Svevo seja leitor de Machado. A questão é que os dois trazem a primeiro plano a forma como o narrador ocupa o lugar para contar sua história. Brás não busca lucro, nem filantropia. Vaidoso, quer ver o seu nome estampado nos rótulos de seu emplasto. Quer ser divulgado. Nessa posição, trata-se de observar o modo como se apropria das referências da tradição ocidental (historiadores, bíblia, grandes escritores, etc.), ele vai usá-los de modo arbitrário e superficial. Vale prestar atenção no ritmo da narrativa que, em capítulos curtos, parágrafos concisos e frases curtas, vai saltando de um tema a outro, que troca de estilo e de tom. E o leitor é provocado constantemente. Quando falamos de Svevo, lidamos também com narrador que vem a primeiro plano, que escreve primeiro a um leitor, a um perito, um psiquiatra, que busca indícios de sua doença, daquilo que ele, Zeno, narrador, narra, mas não entende. O cigarro, a morte do pai, o casamento, a amante, a sociedade comercial aparecem com partes da trajetória de um homem que reconstrói sua vida para o psiquiatra ajudá-lo em sua cura. De que modo esses dois narradores são aproximáveis? Além da primeira pessoa, das confissões que fazem, temos a figura do anti-herói (tal como "Memórias do Subsolo") que ganha a palavra para expor suas infâmias, covardias, sua condição humana crua, despida de elevação ou de disfarces sociais. Isso tudo, sem podermos confiar neles.

CP - Qual foi a importância de Rousseau para a filosofia contemporânea?
Schilling -
Rousseau foi recebido com entusiasmo na Alemanha por Schiller e por Kant, dali sua influencia projetou-se nos mais diversos campos (no político por meio do “Contrato Social”, de 1762, e o “Discurso sobre a Desigualdade”, 1753); na educação pelo “Emilio”, 1762; na cultura por clamar pelo respeito à natureza “Devaneios de um Caminhante Solitário”, de 1766. Grande parte dos temas defendidos por Rousseau continuam sendo debatidos.

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