Há 50 anos, mais até do que havia ocorrido com "Um Corpo Que Cai", o desapontamento foi grande quando surgiu o filme de monstros do mestre. Em Cannes, onde "Os Pássaros" teve sua première de gala - no ano em que "O Leopardo", de Luchino Visconti, venceu a Palma de Ouro -, a recepção foi glacial. O culto veio depois, e hoje o filme é considerado clássico.
Em "Psicose", baseado no pulp de Robert Bloch, Hitchcock contara a história de um edipiano que mata a mãe e assume seu lugar, numa fissura do inconsciente que transforma Norman Bates num caso emblemático de mente doentia. Norman não tem cura. Mata para proteger seu segredo. Mitch, o personagem de "Os Pássaros" - que Hitchcock adaptou de um conto de Dafne Du Maurier, autora que já lhe fornecera a história de Rebecca, a "Mulher Inesquecível", em 1940 -, pode ter uma mãe dominadora que interfere na sua relação com as mulheres, mas, tal como é interpretado por Rod Taylor no filme, ele não é um assassino. Marnie rouba para compensar sua disfunção sexual, mas, como versão feminina de Norman Bates, ela não apenas tem cura como clama por ela, numa cena-chave.
Em "Os Pássaros", Melanie (Tippi) conhece Mitch numa loja de animais em São Francisco. Há uma química imediata entre eles e ela se passa por funcionária. Logo em seguida, o segue até Bodega Bay, onde Mitch vive com a mãe. Leva um casal de pássaros numa gaiola. Do nada, é atacada por uma gaivota no barco em que faz a travessia da baía. É o primeiro signo da violência que virá, mas o ataque dos pássaros, com todas as explicações que os personagens buscam para ele, é uma metáfora das relações familiares, do amor possessivo da mãe e do sexo reprimido. Os pássaros voltam-se contra os homens, mas também pode ser que o filme seja uma parábola cristã - para que os homens reassumam sua humanidade e fraternidade.
A nora indesejada é atacada, em muitas cenas se inverte a situação clássica e os humanos ficam presos (em gaiolas?), à mercê dos bicos ameaçadores dos pássaros. O final em aberto segue-se a um ataque particularmente destruidor, em que todos, mãe, filho e nora, precisam se auxiliar mutuamente. O interessante é que os ataques não são o que o filme tem de melhor e, sim, o que os precede - a forma como Hitchcock arma o suspense, na expectativa do apocalipse. Algumas cenas tornaram-se cultuadas e George Romero admite que "Os Pássaros" foi seu farol para fazer "A Noite dos Mortos Vivos", em 1968.
Hitchcock buscou sempre a perfeição técnica e os ataques, avançados em 1963 - com sons eletrônicos, em vez de música - ficaram defasados, face ao que hoje é possível fazer. Mas talvez seja equivocado pensar que o próprio mestre gostaria de refazer as cenas dos pássaros, sem tocar no restante. Elas contribuem para a aura do filme, como o porto em Marnie, que é um telão expressionista. São formas de romper com o realismo que Hitchcock exercitou em poucos filmes - "A Sombra de Uma Dúvida", "Psicose".
Um aspecto não negligenciável é que Melanie/Tippi, mesmo quando atacada, não grita. Danny Peary, em seu livro sobre cult movies, assinala que poucas mulheres gritam no cinema de Hitchcock - e os casos mais notáveis são a Doris Day de "O Homem Que Sabia Demais", a segunda versão, e a Janet Leigh de "Psicose".
Tippi, como Marnie, grita para que o marido (Sean Connery) a ajude, mas é um grito de angústia, muito mais que de medo. O caso de Melanie/Tippi possui desdobramentos. Na vida, para punir a atriz que o rejeitava, Hitchcock substituiu por pássaros de verdade o que deveriam ser pássaros de mentira. O silêncio imposto a Melanie também era uma agressão a Tippi. A aura do filme não cessa de crescer.