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"Os Pássaros", de Hitchcock, completa 50 anos e ganha edição de luxo

Filme foi encarado com desapontamento em Cannes na época do lançamento

Filme foi encarado com desapontamento em Cannes na época do lançamento
Filme foi encarado com desapontamento em Cannes na época do lançamento Foto : Divulgação / CP
O filme os "Os Pássaros", de Alfred Hitchcock, ganhou um edição de colecionador em Blu-Ray para comemorar os 50 anos de lançamento. A Universal caprichou e, além do próprio filme, com imagem e som perfeitos em alta definição, os extras incluem o trailer, o teste de Tippi Hedren, o final original, que foi excluído, uma comparação entre o storyboard e as cenas filmadas, um pôster em tecido e, preciosidade maior, um trecho em áudio do diálogo entre Hitchcock e Truffaut, incluído no livro reeditado pela Cosac Naify.

Há 50 anos, mais até do que havia ocorrido com "Um Corpo Que Cai", o desapontamento foi grande quando surgiu o filme de monstros do mestre. Em Cannes, onde "Os Pássaros" teve sua première de gala - no ano em que "O Leopardo", de Luchino Visconti, venceu a Palma de Ouro -, a recepção foi glacial. O culto veio depois, e hoje o filme é considerado clássico.

Em "Psicose", baseado no pulp de Robert Bloch, Hitchcock contara a história de um edipiano que mata a mãe e assume seu lugar, numa fissura do inconsciente que transforma Norman Bates num caso emblemático de mente doentia. Norman não tem cura. Mata para proteger seu segredo. Mitch, o personagem de "Os Pássaros" - que Hitchcock adaptou de um conto de Dafne Du Maurier, autora que já lhe fornecera a história de Rebecca, a "Mulher Inesquecível", em 1940 -, pode ter uma mãe dominadora que interfere na sua relação com as mulheres, mas, tal como é interpretado por Rod Taylor no filme, ele não é um assassino. Marnie rouba para compensar sua disfunção sexual, mas, como versão feminina de Norman Bates, ela não apenas tem cura como clama por ela, numa cena-chave.

Em "Os Pássaros", Melanie (Tippi) conhece Mitch numa loja de animais em São Francisco. Há uma química imediata entre eles e ela se passa por funcionária. Logo em seguida, o segue até Bodega Bay, onde Mitch vive com a mãe. Leva um casal de pássaros numa gaiola. Do nada, é atacada por uma gaivota no barco em que faz a travessia da baía. É o primeiro signo da violência que virá, mas o ataque dos pássaros, com todas as explicações que os personagens buscam para ele, é uma metáfora das relações familiares, do amor possessivo da mãe e do sexo reprimido. Os pássaros voltam-se contra os homens, mas também pode ser que o filme seja uma parábola cristã - para que os homens reassumam sua humanidade e fraternidade.

A nora indesejada é atacada, em muitas cenas se inverte a situação clássica e os humanos ficam presos (em gaiolas?), à mercê dos bicos ameaçadores dos pássaros. O final em aberto segue-se a um ataque particularmente destruidor, em que todos, mãe, filho e nora, precisam se auxiliar mutuamente. O interessante é que os ataques não são o que o filme tem de melhor e, sim, o que os precede - a forma como Hitchcock arma o suspense, na expectativa do apocalipse. Algumas cenas tornaram-se cultuadas e George Romero admite que "Os Pássaros" foi seu farol para fazer "A Noite dos Mortos Vivos", em 1968.

Hitchcock buscou sempre a perfeição técnica e os ataques, avançados em 1963 - com sons eletrônicos, em vez de música - ficaram defasados, face ao que hoje é possível fazer. Mas talvez seja equivocado pensar que o próprio mestre gostaria de refazer as cenas dos pássaros, sem tocar no restante. Elas contribuem para a aura do filme, como o porto em Marnie, que é um telão expressionista. São formas de romper com o realismo que Hitchcock exercitou em poucos filmes - "A Sombra de Uma Dúvida", "Psicose".

Um aspecto não negligenciável é que Melanie/Tippi, mesmo quando atacada, não grita. Danny Peary, em seu livro sobre cult movies, assinala que poucas mulheres gritam no cinema de Hitchcock - e os casos mais notáveis são a Doris Day de "O Homem Que Sabia Demais", a segunda versão, e a Janet Leigh de "Psicose".

Tippi, como Marnie, grita para que o marido (Sean Connery) a ajude, mas é um grito de angústia, muito mais que de medo. O caso de Melanie/Tippi possui desdobramentos. Na vida, para punir a atriz que o rejeitava, Hitchcock substituiu por pássaros de verdade o que deveriam ser pássaros de mentira. O silêncio imposto a Melanie também era uma agressão a Tippi. A aura do filme não cessa de crescer.


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