O crítico de cinema Marcelo Janot foi convidado a refletir sobre o Oscar 2025 e fala da questão comercial da premiação. “O Oscar é um prêmio comercial, um prêmio organizado pela indústria de Hollywood para promover os filmes de Hollywood. Então, quanto mais o filme fez bilheteria, se ele tá indicado, mais chance ele tem, porque foi um sucesso lá dentro do parâmetro de sucesso. É claro que você tem que equilibrar com qualidade. Nem sempre isso acontece, há aberrações de obras-primas que foram derrotadas por outros claramente piores em termos de qualidade. Isso faz parte. Se você pensar, nenhum filme do Hitchcock ganhou o Oscar de Melhor Filme, nenhum filme do Charlie Chaplin ganhou o Oscar de Melhor Filme. Isso diz muita coisa.”
Janot destaca a trajetória comercial de um filme até ser indicado ao Oscar. “O filme já teve um lançamento e a gente já sabe se é um sucesso de bilheteria ou um fracasso. E certamente é uma coisa que os votantes levam em conta, sobretudo os votantes da indústria de Hollywood. Alguns levam em conta a qualidade também”, diz.
O jornalista carioca lembra que o cinema de Hollywood é o que domina o mundo. “O Oscar ganhou essa reputação por causa disso, virou tradição. As pessoas param anualmente para ver o Oscar. Embora em termos de qualidade, o Festival de Cannes e de Veneza têm mais relevância. É uma festa da indústria, uma festa do cinema. A gente sabe que um filme estrangeiro quando ganha o Oscar, ganha mais visibilidade no mundo inteiro.”
Quando o assunto são as chances de “Ainda Estou Aqui” ganhar, Marcelo Janot considera que sim. “Tem grandes chances de ganhar, sobretudo em Melhor Filme Internacional. Porque o grande favorito que era o ‘Emilia Perez’ foi perdendo força, por conta das polêmicas todas, declarações infelizes da atriz Karla Sofía Gascón e do diretor, Jacques Audiard. Então, desde que foram revelados os indicados, o ‘Emilia Perez’, que é o recordista de indicações, ou seja, já trazia um favoritismo natural, sobretudo na categoria de melhor filme internacional, deixou de ser o favorito”, aponta.
Por outro lado, na categoria de Melhor Filme, a confiança do crítico esmorece. “Acho difícil. O ‘Parasita’ abriu um precedente que faz a gente acreditar que isso seja possível. Depois que o ‘Parasita’ ganhou o Melhor Filme Internacional e Melhor Filme na categoria principal, é possível sim que um outro filme estrangeiro com como ‘Ainda Estou Aqui’, ganhe na categoria principal. Mas a tendência é que vá para um filme americano e eu acho que pode ser tanto ‘O Brutalista’ quanto o ‘Anora’. ‘O Brutalista’ vinha sendo considerado favorito, mas ‘Anora’ parece que está ganhando força, e de ‘Conclave’ estão falando também. Eu acredito que vai ficar entre “O Brutalista” com mais favoritismo e o ‘Anora’.”
Em Melhor Atriz, Janot reconhece o favoritismo de Demi Moore, mas considera Fernanda Torres com chances. “Fernanda tem chances, mas eu acho a Demi Moore favorita. Karla SofÍa Gascón, que a meu ver, de início, era favorita, por conta de toda essa polêmica, viu seu favoritismo ir por água abaixo. Eu acho que ela dificilmente ganha, mas a Demi Moore, por ser americana, ser uma atriz da indústria americana que estava com a carreira meio em baixa. Os americanos adoram isso: Resgatar alguém que se dedicou muito a uma carreira em Hollywood”, avalia.
Ele segue a sua análise lembrando que talvez os critérios técnicos possam ser secundários nesta hora. “A gente como crítico sabe que a atuação da Fernanda Torres é melhor do que a da Demi Moore, sem patriotismo algum. Mas no Oscar a gente sabe que a qualidade não é o fator preponderante. A campanha em torno da Fernanda Torres está sendo bem estruturada, ela está participando de muitos programas, é muito simpática, está mostrando a todo mundo que é uma excelente atriz. O fato do filme ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme na categoria principal dá mais visibilidade ao filme e ao trabalho dela. Então, tem chance sim, mas ainda acho que Demi Moore é favorita.”
Para arrematar as suas reflexões, Marcelo Janot dá o seu palpite sobre “Emilia Pérez”. “O filme está ganhando tantos prêmios, porque é ótimo. Eu acho que essas críticas todas que ele está recebendo da comunidade mexicana e da comunidade trans, em boa parte são equivocadas porque sugerem um realismo ao qual o filme não se propõe. O filme é claramente uma fábula. É um filme que chama atenção para essa violência, para os desaparecidos e assim não tem atores mexicanos, não foi filmado no México. Tudo bem, é uma opção do diretor, ele não se propõe a fazer um retrato fiel do México. Ele conta uma história do narcotráfico que é real”, comenta o crítico.
“E a personagem trans também não é para ser uma reprodução fiel de uma transformação trans. Há muitas questões envolvendo essa personagem, a transição dela, as questões psicológicas. Porque afinal é um psicopata, um assassino. Enfim, claro que há alguns pequenos problemas, o roteiro não é perfeito, mas o filme é ótimo”, finaliza.
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