Para honrar os precursores
Luiz Gonzaga Lopes*
A história dos filmes brasileiros com premiações internacionais teve início em 1953, quando “O Cangaceiro”, escrito e dirigido por Lima Barreto, venceu o prêmio de Melhor Filme de Aventura e de Trilha Sonora no Festival de Cannes. Quase uma década depois, em 1962, o diretor Anselmo Duarte conquistou a Palma de Ouro em Cannes por “O Pagador de Promessas”. A jornada de Zé do Burro (Leonardo Villar) levou o Brasil a marcar presença pela primeira vez na categoria de Melhor Filme Internacional (na época Estrangeiro) em 1963, na 35ª edição da premiação do Oscar. Trinta e três anos depois, em 1996, o Brasil voltou a trilhar a seara da estatueta dourada com a indicação de Filme Estrangeiro a “O Quatrilho”, de Fábio Barreto, repetindo a indicação em 1998 para “O Que é Isso, Companheiro?, do irmão Bruno Barreto, e em 1999, para Central do Brasil, de Walter Salles Jr., com direito a nominação de Fernanda Montenegro a Atriz. A produção perdeu para “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni, e Gwyneth Paltrow (“Shakespeare Apaixonado”.
Nos outros 26 anos, o Brasil teve alguns indicados esparsos, mas foi em 2025, com “Ainda Estou Aqui”, que veio a consagração com a inédita estatueta de Filme Internacional, em nova obra de Salles, com Fernanda Torres como protagonista e a mãe Fernanda Montenegro em uma ponta sensacional como Eunice Paiva mais velha.
A introdução foi feita para dizer que o fato de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, chegar ao Oscar com quatro indicações — Filme, Filme Internacional, Ator e Elenco — é a constatação que Hollywood está mais do que atenta ao cinema brasileiro de Lima Barreto, Anselmo Duarte, Glauber Rocha e das produções atuais.
Se vamos falar em chances de vitória, a repetição da conquista de 2025 com o troféu de Filme Internacional é o mais certo, apesar do crescimento do favoritismo de “Valor Sentimental”, que tem nove indicações. Na de Ator, Wagner Moura conquistou o Globo de Ouro, mas Michael B. Jordan e Timothée Chalamet são respaldados por premiações anteriores e “Pecadores” ganhou prêmio de Elenco no Actor Awards. Como Melhor Filme, a chance é mínima. O certo é que estamos definitivamente no mapa hollywoodiano de cinema.
Mais certezas do que incógnitas
Marcos Santuario*
A meu ver, o Oscar 2026 parece menos uma incógnita e mais a confirmação da temporada que lentamente desenhou vencedores. Pelo menos nas categorias principais. Ainda existem categorias abertas, surpresas possíveis e discursos prontos a virar história. Olhando o caminho percorrido desde os primeiros prêmios, alguns sinais estão claros demais para serem ignorados. Se há uma aposta que parece inevitável, ela atende por “O Agente Secreto”. O filme brasileiro chega ao Oscar carregando algo que pesa tanto quanto a qualidade artística: a narrativa de temporada. Após vencer o Globo de Ouro e o Critics Choice, o longa consolidou trajetória que dificilmente termina sem a estatueta de Filme Internacional. A Academia costuma premiar não só filmes, mas momentos. O momento do cinema brasileiro é inegável. Após conquistar a primeira vitória na categoria recentemente, o país está de novo entre os favoritos. Seria mais do que uma repetição de sucesso. Seria a confirmação de continuidade que o Brasil perseguiu por décadas. Se a estatueta vier, o recado será simples, o cinema brasileiro deixou de ser visitante ocasional do Oscar para ser presença constante.
A noite promete ser dominada por outro fenômeno: “Pecadores”, que lidera o número de indicações. O filme construiu campanha poderosa e chega com força. Entre as categorias, a que pode coroar o impacto cultural do longa, o de Melhor Ator para Michael B. Jordan. A performance central do filme se transformou em uma das mais comentadas da temporada, carregando o peso simbólico do projeto que entrou para a história ao apresentar um dos raros elencos majoritariamente negros indicados a Melhor Filme. Seria uma vitória que ultrapassa a atuação e um marco dentro da narrativa recente de Hollywood. A briga vai ser dura. Se há um nome que consolidaria uma nova geração de estrelas seria o de Timothée Chalamet. Com 30 anos, o ator acumula três indicações ao Oscar e chega como um dos favoritos. A trajetória com “Marty Supreme” reforça algo raro no cinema atual, um astro jovem que mobiliza crítica, público e premiações. Após conquistar o Globo de Ouro e manter presença entre os vencedores da temporada, a lógica aponta para desfecho previsível, mas não menos simbólico.
No feminino será difícil alguém tirar a estatueta da irlandesa Jesse Buckley, super aplaudida e premiada pelos seus pares no SAG 2026, pela atuação em "Hamnet". Quando falamos nas outras categorias, o Melhor Filme pode ficar com "Hamnet", ainda que o Melhor Diretor possa ser Paul Thomas Anderson, pelo intenso e criativo trabalho em "Uma Batalha Após a Outra". Estas últimas apostas foram premiadas no Globo de Ouro.
A temporada de premiações construiu uma narrativa clara. Os vencedores do SAG, Critics Choice e Globo de Ouro geralmente pavimentam o caminho até a estatueta dourada. Este ano não será exceção. Se as previsões se confirmarem, a cerimônia contará três histórias: consolidação do Brasil no cenário internacional, impacto cultural de “Pecadores”, a coroar Michael B. Jordan, ou a consagração de Timothée Chalamet como um dos grandes de Hollywood. Vitórias diferentes que dizem o mesmo. O cinema está mudando. O Oscar parece pronto a admitir isso.
Presença feminina no Oscar
Adriana Androvandi*
A cerimônia da 98ª edição do Oscar será realizada neste domingo em Los Angeles. No Brasil, a torcida está a favor das quatro indicações do longa-metragem “O Agente Secreto” e uma para o diretor de Fotografia Adolpho Veloso pelo filme “Sonhos de Trem”.
Nesta edição da cerimônia, a presença feminina aumentou em categorias técnicas. Retirando obviamente as categorias de Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante, há novas profissionais chegando ao certame, além de veteranas que recebem sua primeira indicação.
Um levantamento realizado pela Forbes registra 30% de presença feminina nas indicações. São 74 mulheres neste ano, superando a marca de 2023, que foi de 71. Entre os destaques, Autumn Durald Arkapaw concorre ao prêmio de Melhor Fotografia por “Pecadores” e pode se tornar a primeira mulher a vencer o Oscar de Fotografia caso leve a estatueta.
Chloé Zhao, que conduziu o filme “Hamnet” com intensidade e delicadeza, é a única mulher na categoria Direção. Esta cineasta já ganhou um Oscar em 2021 por “Nomadland”, tornando-se a primeira mulher asiática e apenas a segunda mulher na história a conquistar este prêmio.
O filme “Sirat” (Espanha), que concorre a Melhor Filme Internacional com “O Agente Secreto”, faz história por ter uma equipe inteiramente formada por mulheres na categoria Melhor Som. O trabalho sonoro, assinado por Laia Casanovas (editora de som supervisora), Yasmina Praderas (mixadora de regravação) e Amanda Villavieja (mixadora de som direto) reuniu sons sensoriais do ambiente com a trilha sonora composta pelo músico Kangding Ray, com batidas eletrônica de raves no deserto do Marrocos.
A categoria em que as mulheres dominam nas indicações é a de Figurino. São elas Deborah L. Scott por “Avatar: O Caminho da Água”, Kate Hawley por “Frankenstein” (em sua primeira indicação), Malgosia Turzanska por “Hamnet”, Miyako Bellizzi por “Marty Supreme” e Ruth E. Carter por “Pecadores”. Esperamos que nos próximos anos a porcentagem de mulheres possa aumentar ainda mais no Oscar.