Arte & Agenda

‘Paixão Viva’: a vida e obra de uma libertária

Espetáculo com Ítala Nandi faz estreia nacional pelo Palco Giratório Sesc, celebrando os 80 anos da atriz, nesta quinta e sexta-feira

Atriz com 65 anos de trajetória atuou no teatro, cinema e televisão
Atriz com 65 anos de trajetória atuou no teatro, cinema e televisão Foto : Felipe O'Neill / Divulgação / CP

Ítala Nandi celebra seus 80 anos em “Paixão Viva” – solo em que revisita os personagens que interpretou ao longo de 65 anos de carreira e conduz diálogos imaginários com pessoas que influenciaram sua vida e arte –, que faz estreia nacional de forma presencial pelo 16º Palco Giratório Sesc. Com imagens icônicas projetadas, a atriz gaúcha fica em cena 1h30min no texto que escreveu com Evando Mocarzel, responsável pela direção e que foi apresentado on-line em junho de 2021. A montagem pode ser conferida nesta quinta e sexta-feiras, às 19h, no Teatro Sesc (Alberto Bins, 665). 

Nascida na 9ª Légua, antes de pertencer a Caxias do Sul, Ítala é filha de mãe brasileira com um vitivinicultor italiano criador da primeira cooperativa de vinhos no Brasil, a Garibaldi. Começou sua trajetória artística nos anos 60 em sua terra natal; fundou o Teatro Oficina com Zé Celso Martinez Correa e Renato Borghi; protagonizou o primeiro nu do teatro brasileiro e viveu cerca de 30 papéis nos palcos. Quando chegou a Porto Alegre, em 1961, acompanhou de perto a criação do Festival de Cinema de Gramado – as reuniões eram feitas em sua casa, com o marido, Fernando Peixoto, Gastal e Goida. Atuou em cerca de 20 novelas, incluindo a versão original de “Pantanal” e participou de 35 filmes. No cinema, ganhou o Palma de Ouro em Cannes, em 1972 por “Pindorama” e criou o Festival de Cinema do Paraná. 

“Foi uma loucura, não tinha a menor ideia de que eu estava fazendo o primeiro nu de uma mulher no teatro, achava que já tinham feito no teatro de revista. Em Caxias foi um escândalo”, fala Ítala sobre “Na Selva das Cidades”, encenada em 1969, em plena ditadura, que abriu caminho para a nudez nos palcos nacionais. Conhecida por seu caráter libertário, foi símbolo sexual e sempre lutou pela liberdade feminina. Doutora em Artes Cênicas pela UFRJ (2003), dirige o Espaço Nandi, escola de formação de atores no Rio de Janeiro, um dos tantos cursos que criou. Por ter se dedicado por 15 anos apenas ao cinema e à TV, é muito requisitada para ministrar oficinas, tendo feito recentemente a de “Criação do Personagem” pelo Iecine. “Faço os alunos terem consciência de que somos seres vivos, viemos da água, da planta, etc”, declara. Considera fundamental para quem quer seguir a carreira artística, que seja “forte, trabalhador e consciente dos problemas do Brasil”. 

Ítala Nandi escreveu dois livros: “Teatro Oficina, Onde a Arte Não Dormia” e de contos “Milagres”. Fez o longa “O Caminho dos Deuses”, pela Nandi Produções, coprodução com o governo da Índia, por conta de seu sobrenome Nandi, de origem italiana e indiana. Na época gravando “Pantanal”, teve que deixar a produção para investigar seu passado para viajar ao país asiático. Por conta disso, estudou profundamente o hinduísmo. “Nós não devemos ter vergonha de sermos brasileiros. Viajei o mundo todo e nosso país é muito lindo. Gosto do que vem de fora, mas engulo e vomito algo melhor. Isto é antropofagia”, conclui. 

 

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