Monique Hortolani está no filme “CIC – Central de Inteligência Cearense”, com direção de Halder Gomes. No longa, a atriz interpreta a agente secreta Divina, braço direito do chefe Espírito Santo (Nill Marcondes). Para dar vida à personagem, ela mergulhou no universo das artes marciais. Aos 37 anos e 12 de carreira, tem no currículo o musical infantil “Maísa no ar” e os espetáculos “Viúva, porém Honesta” e “Bonitinha, mas ordinária”. No cinema, atuou fez parte do elenco do longa-metragem “Divaldo, o mensageiro da paz”. Na TV, atuou na série “A vida secreta dos casais”, da HBO, na novela “Gênesis”, da Record, e na série “O Cangaceiro do Futuro”, da Netflix. É autora e roteirista, e atualmente desenvolve um longa-metragem inspirado em histórias reais. Também é idealizadora do projeto Destrava, dedicado ao ensino de comunicação e oratória, por meio de cursos e consultorias para pessoas e empresas que buscam destravar o potencial comunicativo.
Estás no elenco do filme “Central de Inteligência Cearense”. Conte mais sobre este filme que mistura humor e ação.
O filme pega o universo da espionagem, mas com um tempero bem brasileiro, cheio de humor, ação e aquele jeitinho nosso de contar histórias. É divertido. É um filme que te prende do início ao fim e quando acaba você já quer ver de novo (risos). A história acompanha uma turma meio atrapalhada, mas cheia de coragem, que acaba se metendo em altas confusões no melhor estilo “missão impossível versão cearense”. E eu dou vida à Divina, uma agente secreta cheia de personalidade, inteligente que adora implicar - no bom sentido, com o Agente Carcará (Edmilson Filho), mas ao mesmo tempo cuida dele e do chefe Espírito Santo (Nill Marcondes) como se fossem família. Ela tenta “educar” a Mazé (Valéria Vitoriano), que é totalmente sem filtro e se diverte com cada pérola que a amiga solta (risos). Fazer a Divina foi um presente. O Halder é simplesmente genial, ele te dá liberdade para criar, ele realmente constrói junto com o elenco e isso fez toda a diferença na construção da minha personagem.
“CIC” é um estilo de produção com cenas de ação, pouco feita no país. Como foi o projeto?
Eu acho incrível, de verdade. A gente está muito acostumado a ver esse tipo de produção vindo de fora, então poder colocar isso no nosso universo, no Nordeste brasileiro, é demais. São as nossas piadas, nossa cultura, nosso jeito de contar histórias, isso gera uma representatividade enorme. A comédia tem essa liberdade de brincar com outros gêneros, então misturar ação, espionagem e criar esses agentes meio super-heróis brasileiros foi divertidíssimo. Eu adoro fazer humor Então pra mim foi um baita desafio. O humor da Divina vem muito das relações com os outros personagens e da sagacidade dela. Mergulhei em treinos de artes marciais e assisti muitos filmes com mulheres agentes secretas. E ainda rolou um desafio inusitado: contracenar com a Mazé (Valéria Vitoriano) sem a Valéria no set. Como a personagem dela foi inserida somente na pós-produção, eu fazia as cenas olhando para o nada (risos) e respondendo às falas ditas pelo assistente de direção. Só que como já tinha trabalhado com a Valéria na série O Cangaceiro do Futuro, da Netflix, tentei imaginar o ritmo que ela daria em cada fala. No fim, funcionou super bem, quando vi o resultado final fiquei feliz demais. As cenas ficaram ótimas e com muita química, mesmo a gente não estando juntas na hora da gravação.
O que mais te chama a atenção nas artes marciais. E como o treino te ajudou no trabalho?
É que não é só sobre aprender um golpe bonito, é sobre disciplina, é sobre desafiar os limites do próprio corpo, no meu caso, principalmente os da flexibilidade (risos). Esse processo me trouxe mais foco, presença e uma conexão muito maior com o corpo. Para o trabalho foi essencial, porque a Divina precisava ter essa postura de agente pronta pra ação, ter agilidade e o treino me deu exatamente essa base física e também mental. O que era para ser só preparação, virou paixão. Eu viciei e levei para a vida. Sigo treinando até hoje e já conquistei a faixa verde (risos).
Na condição de baiana, como trabalhaste o sotaque cearense?
Foi um mergulho delicioso. Meu sotaque natural é do interior da Bahia, sendo mais específica de Teixeira de Freitas, minha cidade, mas queria que a Divina tivesse essa identidade cearense de forma natural, sem soar forçado. Eu já tinha feito sotaque do sertão do Ceará para Amália, minha personagem na série O Cangaceiro do Futuro, mas é diferente do sotaque de Fortaleza. Então comecei a observar meus amigos de lá, ver vídeos, prestar atenção no ritmo, na melodia da fala, nos trejeitos e fui estudando. Era também uma forma de valorizar e respeitar o lugar de onde essa história nasce.
Recentemente disseste que existem dificuldades para artistas nordestinos serem escalados pois existe um “estereótipo” no imaginário das pessoas. Já foste impactada pela visão clichê do mercado?
Sou até hoje. Ainda existe um olhar muito engessado sobre o que é ser nordestino, como se a gente coubesse sempre no mesmo estereótipo. Já aconteceu de eu ser descartada de testes simplesmente porque não correspondia àquela imagem pré-concebida que as pessoas têm. E isso limita muito, porque o Nordeste é gigante, diverso, cheio de histórias e de perfis diferentes. Para mim, cada trabalho é também uma forma de furar essa bolha, de mostrar que a gente pode estar em qualquer lugar, vivendo qualquer personagem. Não é sobre encaixar num molde, é sobre ampliar as possibilidades e enxergar o ator pela sua entrega, pela sua arte, e não pelo sotaque ou pela origem.
Tens vários trabalhos no cinema e palcos, mas só fizeste uma novela: ‘Gênesis’, da Record. Conte mais sobre o trabalho.
Foi uma participação, mas super marcante para mim, porque televisão tem um ritmo completamente diferente do cinema e do teatro. No teatro você tem o tempo da cena, a troca imediata com o público; no cinema, cada detalhe pode ser repetido até chegar no resultado ideal; já na TV, tudo acontece muito rápido, é quase no instinto. Em Gênesis, aprendi muito observando os colegas e entendendo essa dinâmica de gravação mais ágil. Foi curto, mas foi intenso, e me deu ainda mais vontade de fazer televisão, agora com mais bagagem e experiência acumulada desses outros trabalhos.
E como foi essa experiência de atuar na TV aberta? Acha relevante para a carreira de um artista fazer novelas?
Foi uma experiência muito rica. A TV aberta tem um alcance gigantesco, chega em lugares onde às vezes o cinema e o teatro não chegam, porque novela faz parte do dia a dia das pessoas, entra na casa delas todos os dias. Acho sim muito relevante para a carreira de um artista passar por novelas, porque é uma escola. Você aprende a lidar com ritmo acelerado, com mudanças rápidas de cena e ainda com a responsabilidade de estar em um produto que milhões de pessoas acompanham. Além disso, abre portas e amplia muito a visibilidade. Pra mim, foi uma oportunidade importante e, apesar do meu sonho desde quando comecei a estudar interpretação sempre ter sido o cinema, eu espero um dia ter a oportunidade de fazer outras novelas.
Moras há alguns anos em São Paulo por conta da carreira. Como esta mudança contribuiu no teu trabalho? E na tua vida pessoal?
Eu moro há 16 anos em São Paulo, daqui a pouco vai fazer mais tempo que moro aqui do que na Bahia. Eu escolhi vir para São Paulo para me formar como atriz porque é uma cidade muito rica culturalmente, que me deu acesso a ótimas escolas de teatro, a grandes profissionais e a um ambiente onde tudo acontece. São Paulo pulsa arte e isso foi fundamental para a construção da minha base artística. Na vida pessoal, claro, sinto falta da minha família e dos amigos de infância, da calmaria da cidade pequena, das praias do Sul da Bahia. Mas também amo São Paulo. Aqui construí amizades verdadeiras ao longo desses 16 anos e, hoje, estou construindo minha própria família: meu namorado é paulista e moramos juntos há dois anos e meio. Então, considero São Paulo minha casa.
Quais teus sonhos profissionais?
Meu sonho é continuar fazendo cada vez mais cinema, que é onde realmente me sinto em casa. E não só atuando, mas também me aventurando como roteirista e produtora. Inclusive, estou desenvolvendo um longa inspirado numa história real, no estilo true crime, que carrego com muito carinho por ser um projeto que também é um alerta social muito importante. Também acho muito bonito ver como o espaço das mulheres dentro do cinema vem crescendo, e poder contribuir, mesmo que um pouquinho, já me deixa feliz. Mais do que tudo, o que eu quero é seguir contando boas histórias e aprendendo com cada projeto.
Depois de “CIC”, onde mais poderemos te ver?
Depois de CIC, o próximo passo é um projeto muito especial para mim, esse longa que estou desenvolvendo. Além de escrever a história, vou viver uma das personagens. Acho que vai ser um dos momentos mais felizes da minha trajetória, justamente por unir duas paixões, a escrita e a atuação. Estou encarando como um sonho que começa a ganhar forma, e não vejo a hora de dividir isso com o público.