Arte & Agenda

Paris em verde e amarelo

O 27º Festival du Cinéma Brésilien, que acontece até a próxima terça-feira, celebra a força e diversidade do nosso cinema

O ponto alto desta edição é a homenagem à atriz e diretora Dira Paes, que completa 40 anos de uma carreira marcada pela entrega visceral, pela força de suas personagens e pela  consistência artística
O ponto alto desta edição é a homenagem à atriz e diretora Dira Paes, que completa 40 anos de uma carreira marcada pela entrega visceral, pela força de suas personagens e pela consistência artística Foto : Daniela Ometto / divulgação / cp

Até o dia 6 de maio, o coração de Paris está pulsando ao som do português brasileiro. A cidade-luz se rende mais uma vez ao encanto da cinematografia do Brasil com a 27ª edição do Festival du Cinéma Brésilien de Paris, um dos eventos mais longevos e prestigiados dedicados à nossa sétima arte fora do país. E este ano, mais do que nunca, o festival exala emoção, resistência, memória e celebração.

O ponto alto desta edição é a homenagem luminosa à atriz e diretora Dira Paes, que completa 40 anos de uma carreira marcada pela entrega visceral, pela força de suas personagens e pela consistência artística com que transita entre televisão, cinema e teatro. Ícone de uma atuação plural, Dira é celebrada com a exibição de diversos de seus filmes, permitindo que o público francês revisite — ou descubra — o magnetismo dessa artista que é, ao mesmo tempo, potência amazônica e símbolo de brasilidade.

Mas o festival não vive apenas de homenagens. Ele se afirma como vitrine da nova produção audiovisual brasileira e se reinventa a cada edição, acompanhando os movimentos sociais, culturais e políticos do país. A seleção deste ano reflete essa multiplicidade com obras que provocam, emocionam e questionam.

Entre os destaques, “Vitória” surge como um retrato intenso e sensível da juventude periférica, enquanto “Um Homem com H” mergulha com irreverência e crítica na construção da masculinidade no Brasil contemporâneo. Já “Oeste Outra Vez” propõe uma releitura do faroeste brasileiro com tintas sociais e poéticas, em um Brasil onde o sertão insiste em ser palco de disputas — e de resistência.

O documentário “Huni Kui: O Povo Verdadeiro” traz a espiritualidade indígena para o centro do debate, resgatando vozes ancestrais que resistem e ensinam, num momento em que a defesa dos povos originários se torna também pauta urgente da cultura. É uma experiência sensorial, política e necessária.

Como se não bastasse, o festival abre suas portas para outro gigante do cinema nacional: o Festival de Cinema de Gramado, convidado de honra desta edição. Gramado, com sua aura serrana e seu prestígio histórico, traz na bagagem filmes premiados e a memória de um evento que, há décadas, consagra talentos e lança novos nomes no cenário audiovisual. É uma ponte simbólica e estética entre os Alpes franceses e a Serra Gaúcha.

Mais do que uma mostra de filmes, o Festival du Cinéma Brésilien de Paris é uma ode à resistência cultural. Num momento em que o mundo revê seus paradigmas e fronteiras, o cinema brasileiro — com sua alegria, suas feridas e sua inventividade — se apresenta como um espelho crítico e um abraço caloroso.

Dira Paes, com sua trajetória de quatro décadas, encarna esse espírito: mulher, artista, amazônida, ela representa uma geração de criadores que transformam vivência em arte e arte em ferramenta de transformação. E, neste festival, sua imagem se projeta grande na tela, como farol que ilumina e inspira.

Ao caminhar pelas ruas de Paris neste início de maio, tem-se ouvido uma melodia familiar, um sotaque carregado de histórias, uma frase dita com emoção tropical. É o Brasil cinematográfico, depois do Globo de Ouro, do Oscar e dos Prêmios Platino, ocupando também aqui seu lugar, com câmera na mão e coração aberto, dizendo ao mundo — em alto e bom som — que ainda temos muito a contar.

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