Uma mulher solitária e sem autoestima invade a privacidade do novo vizinho, despejando sobre ele suas aventuras, seus encontros e desencontros. Este pretenso diálogo toma contornos cômicos, já que ela monopoliza a palavra, numa flagrante ansiedade. Na conversa com o homem que supostamente acaba de conhecer, acaba revelando o desprezo sobre si mesma e a solidão com que diz ter se acostumado, num evidente pedido de socorro.
No texto, a autora denuncia o mecanismo repressor de uma sociedade que anula os indivíduos, levando-os à incomunicabilidade e ao desamparo. Suas personagens urbanas se auto-referem, mostrando-se como se veem. A solidão, a falta de autoestima e a esperança que afloram as levam a uma espécie de loucura, talvez única forma de se libertarem das normas a elas impostas. A peça privilegia o elemento irônico fiel ao estilo de Vera Karan, valorizando o potencial dramático da narrativa, que traz um universo trágico.