No palco, personagens com disfunções e problemas sociais, envoltos em temas fortes, como alcoolismo, depravação sexual, abandono, entre outros, abordados com humor corrosivo. Nanini interpreta Arthur, um presidente de banco, casado com Grace, uma alcoólatra (Mariana Lima), e também Ema, a filha adolescente, que se casa Tom (Felipe Abib), o namorado transformado em empregada na mansão. A rotina da família é abalada com a volta do filho Todd (Álamo Facó) do exterior, após ter contraído o vírus da Aids e por quem Tom se apaixona, o desemprego do pai e a descoberta de ossos no subsolo da casa. O nonsense está presente, como no diálogo de Grace com o filho, quando pergunta que vestido deve usar em seu velório e quando a jovem é expulsa do encontro das filhas estupradas pelo pai, por ter mentido.
"Naquela época tinha o impacto da Aids, coisa assustadora e a degradação da família foi se desenvolvendo pelo consumo exacerbado, entre outras coisas. Este consumo vai encastelando cada um numa solidão muito particular. O assunto é palpitante porque o mundo todo tem o culto ao consumo e no Brasil é onde mais se vende canetas Montblanc e os carros da Jaguar, num contraste de miséria e autoconsumo", afirma Marco Nanini. O ator considera que tanto a peça original como esta falam da perda dos sentimentos. A primeira trazia o texto "Homens Gordos de Saias", sobre um acidente aéreo, em que um menino que sobreviveu, criado pelos macacos, mata o pai e se relaciona com a mãe, que resistiu à tragédia. Após o encerramento da turnê de "Pterodátilos", em final de outubro, ele irá tirar três meses de férias. Há onze anos encarnando o Lineu, no seriado televisivo "A Grande Família", ele neste ano tem se dividido entre as gravações, três vezes por semana e a peça, num ritmo intenso, que requer muita disciplina.
Celebrando 45 anos de carreira, Nanini ainda sente o "frio na barriga" ao entrar em cena, por várias razões. "Perdi o medo de interpretar, me expor. Mas temo não incorporar o personagem, porque ele vem quando quer, independente da técnica que você tenha. Isto sempre causa aquele frisson que dá sabor ao teatro", afirma. Sem patrocínio, ele mantém o Instituto Galpão Gamboa, na zona portuária do Rio de Janeiro, que encontrou quando procurava uma sala de ensaios, em parceria com seu produtor, Fernando Libonati, "a pessoa que eu precisava pra trocar ideias, com um senso enorme de organização", define. De forma discreta, começou a fazer um trabalho para os moradores da região, que se desdobra em sala de apresentação para atores jovens, coral e aulas de luta para todas as idades, entre outras iniciativas. Foram lá que ocorreram os ensaios de "Pterodátilos", assim como a construção dos cenários e figurinos, assim como apresentações para a comunidade. "É uma maneira de eu me integrara mais com o espectador", finaliza.