Vítima da anorexia, a psiquiatra Cinthya Verri mesclou história real e ficção, com alguns hábitos que adquiriu enquanto esteve doente, no livro “Biafra, uma Abordagem Ficcional”, que ganha os palcos, sob a direção de Cristiano Godinho.
A peça homônima lança um olhar sobre as relações familiares, os distúrbios alimentares e questiona a gestação, geralmente idealizada, reconhecendo inseguranças e sofrimentos que esta fase implica. Com estreia nesta sexta, o espetáculo poderá ser visto no Teatro de Arena (Borges de Medeiros, 835), sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h, até o dia 14 de junho.
Gisela Sparremberger é uma jovem médica que descobre estar grávida, passando a sofrer de ortorexia, ao se impor uma alimentação saudável e silhueta esguia; e com o tempo começa a condenar qualquer aumento calórico e de peso que julgue desnecessário, no que se convencionou chamar pregorexia. Ela revive situações, em especial o relacionamento com a mãe, sempre péssimo, passando a comparar sua ligação com ela a que terá com o bebê. “Ela vai ter que escolher perpetuar a relação com a mãe ou quebrar isso”, diz a atriz.
O título remete às imagens de extrema pobreza de países subdesenvolvidos, mais especificamente à República africana de Biafra. Para Godinho, agora temos condições “normais”, em que mães não passam necessidade e fazem isso por opção.
O incômodo tema é pertinente e atual, no momento em que grávidas se exibem nas redes sociais com “barrigas chapadas”. O comportamento da anoréxica fica evidente, na maneira como estabelece padrões e tenta controlar tudo, explica. “Ela acha que tem poder sobre o corpo e todo o resto, e daí chega a gravidez e balança tudo. A frase que a personagem profere — ‘Ele me seca!’”, continua o diretor, expõe o paradoxo da “mãe que passa a vida inteira entre a vontade de nutrir o bebê e de se livrar daquilo”, conclui.
Peça vai debater a anorexia na gravidez
"Biafra, uma abordagem ficcional" estreia nesta sexta em Porto Alegre