Como era Porto Alegre aos olhos de Lupicínio Rodrigues? Qual era a relação de P. F. Gastal com a cidade? Perguntas como essas, que permeiam o nosso imaginário e despertam a curiosidade, serão respondidas ao longo da edição deste final de semana do Caderno de Sábado, que faz uma dupla homenagem aos 243 anos da capital gaúcha por meio de alguns de seus principais personagens. Além dos já citados, Elis Regina, Túlio Piva, Aquiles José Gomes Porto Alegre, Joaquim Felizardo e Pedro Weingartner completam o time relacionado pela publicação, que celebra o aniversário, comemorado oficialmente dia 26 de março.
Cada um deles foi, à sua época, protagonista do desenvolvimento cultural da cidade, que segue, hoje, representado por uma nova geração de artistas que impulsiona a Capital por meio da música, das artes e da literatura. Frank Jorge, por exemplo, virou ícone do rock gaúcho ao cantar, entre tantos outros clássicos, “Amigo Punk”, hino dos jovens porto-alegrenses nos anos 80 e 90. Já Vinícius Vieira faz parte de um movimento que leva a arte para as ruas e celebra as tradições locais com obras como a “Pegada Africana”, instalada em plena Praça da Alfândega. Por sua vez, o paulista Daniel Galera não apenas escolheu Porto Alegre como sua cidade, mas também como cenário de alguns de seus romances, como em “Até o dia em que o cão morreu” e “Mãos de Cavalo”.
A obra dos três artistas é bastante inspirada pela Capital - e não teria como ser diferente. “A cidade sempre foi uma influência para mim, inclusive para seguir na música, pois cresci em um período de grande efervescência, quando havia muita coisa para assistir ao vivo e muitas opções culturais para conferir. Esse espírito era o nosso cotidiano e a gente também tentava retratar nas letras das músicas” conta Frank Jorge. A rotina da cidade, a qual Frank garante ser difícil de abandonar, também marca o trabalho de Galera. “Não que eu faça isso de propósito, mas ao andar por aqui eu encontro histórias e vejo muitas coisas que me inspiram”, revela o escritor em uma conversa pouco antes de sua viagem ao Salão do Livro de Paris, que começa nesta sexta. Ele também adianta que está escrevendo um novo romance com protagonista porto-alegrense, que deverá ser cheio de lembranças e relações com a cidade, a qual ele não mede declarações, “Porto Alegre com certeza é o meu lugar no mundo”.
A capital gaúcha também é o lugar de Vinicius Vieira, que é um porto-alegrense nato e se dedica a transformar a estética visual das ruas com as influências que a rotina e a história apresentam. “Com meu trabalho, procuro mostrar algumas referências que foram sendo perdidas ao longo do tempo. A 'Pegada Africana' [obra instalada na Praça da Alfândega, que remete a uma pegada no chão] é um exemplo, pois fala de cultura negra, que foi muito forte na concepção de Porto Alegre, mas foi sendo esquecida".
Saudosismo e carinho
Frank, Galera e Vinícius também concordam em outro ponto: a infraestrutura de Porto Alegre apresenta inúmeros problemas. Mas mesmo que as sombras daquele já cantado “Porto não muito alegre” ainda persistam, o carinho ao local em que vivem é maior. “Acho que não é um momento particularmente bonito e de progresso na cidade, mas é preciso reconhecer que ela ainda proporciona uma boa qualidade de vida quando comparada a outras capitais”, comenta o escritor. Frequentador assíduo da Zona Sul e da Redenção, Galera vê no parque um pouco da alma da cidade. “Acho que é um lugar muito especial porque é um parque dentro da cidade e não um ponto afastado, como se configura em outros locais que não conseguem proporcionar áreas verdes na região central”.
A Redenção também é crucial para a relação de Frank Jorge com a cidade, assim como todo o bairro Bom Fim. Ali, o músico viveu um período em que a Capital respirava cultura e, hoje, é onde encontra seu refúgio. “Claro que a gente sempre acha que a época em que nós éramos os jovens era mais interessante, e, para mim, isso acontece especialmente porque vivíamos um cenário marcado pela redemocratização do país. Mas eu continuo gostando daqui, tanto que nunca consegui me mudar para outro lugar”, brinca.
Já Vinicius é quem lembra de outro ponto tradicional da Capital. “Eu a vejo pelas águas do Guaíba porque de lá temos uma visão horizontal da cidade e de como a gente consegue se relacionar a partir disso”, diz. Para o artista, a troca de saberes visuais, seja pelas fotografias que circulam nas redes sociais ou pelas obras que cada vez mais ocupam as ruas, faz com que a população consiga observar melhor a cidade, o que contribuiu para fortalecer ainda mais o cenário sócio-cultural local.
Sobre o futuro, eles preferem não fazer previsões. No entanto, esperam que Porto Alegre consiga buscar em novas iniciativas, como a arte, os shows de rua ou a FestiPoa Literária, forças para ser um lugar melhor – tanto para eles quanto para todos os outros moradores e personagens do seu dia a dia.
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