“Ten Chi" estreou em Wuppertal, Alemanha, em maio de 2004. A expressão traduzida do japonês significa “céu e terra” e não deixa de ser significativo que faz a conexão da obra de Pina e à companhia que dá continuidade ao vasto repertório, com 30 produções. O cenário é minimalista. Há um rabo de baleia para cima, coberto por uma neve incessante – ou seriam flores de cerejeira? Para o bailarino e coreógrafo Dominique Mercy, que assumiu a direção artística da companhia junto com o alemão Robert Sturm, Pina Bausch queria que o público não tivesse muitas indicações do que seria cada espetáculo, mas que cada um fizesse sua leitura.
A trilha sonora de "Ten Chi” inclui Norah Jones e Gustavo Santaolalla, além de textos de Bertold Brecht e José Saramago. A Tanztheater, com Pina Bausch, esteve em Porto Alegre, pela última vez, em setembro de 2006, no 13º Porto Alegre em Cena, com “Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã”. O Correio do Povo entrevistou Dominique Mercy, Robert Sturm e mais o assistente de direção, o grego Daphnis Kokkinos; a bailarina japonesa Azusa Seyama e a bailarina brasileira, de Minas Gerais, Regina Advento.
Correio do Povo - Como o grupo lida com a ausência de Pina Bausch?
Dominique Mercy - Continuar sem ela é estranho. Ela não está aqui, mas ela nos deu muitas informações para sermos capazes de continuar com o melhor de cada um.
Robert Sturm - Ela comprometia muito o grupo. Cada um dos bailarinos tinha uma responsabilidade, além da dança, da atuação. Nós estamos juntos porque sempre trabalhamos em conjunto. Esta é a força da companhia.
CP - O que podemos falar sobre "Ten Chi"?
Dominique Mercy - A Pina não gostava de dar muitas explicações sobre os espetáculos. Gostava de deixá-los o mais abertos possível, para que o público fosse o indicador. Em "Ten Chi", temos um exemplo: num determinado momento caem uns flocos brancos, que alguns pensam ser neve e outros, flores de cerejeira. Por que impor ao público. Por que não deixar aberto para que ele escolha?
CP - Quais suas principais contribuições ao Tanztheater Wuppertal?
Regina Advento - A Pina (Bausch) me via como um sol tropical. Acho que a minha contribuição ao grupo foi com a leveza brasileira. Aqui no Brasil eu era vista como uma bailarina mais dramática. Lá, a Pina usava muito o meu corpo físico, queria que eu o mostrasse, de uma forma visceral, mas com leveza.
Azuza Seyama - Eu sou relativamente nova na companhia. Estou há 10 anos. Para mim sempre foi uma grande chance de poder contribuir com olhares diferentes. Ela sempre envolvia a todos e dava voz aos dançarinos, mas sabia o que queria. Se não conseguíamos fazer, ela ensinava ou ela mesmo atuava. Quando Pina me colocava num espetáculo, após muitos ensaios, sabia que estava pronta. Às vezes, nem acreditava que estava lá.
CP - Como Pina Bausch via o Brasil?
Dominique Mercy - A Pina queria ver as coisas boas e não o lado clichê ou turístico. Ela dizia "porque falar das coisas ruins". Isto fez com “Água” (2001), que foi uma coreografia bem-humorada da série, falando sobre o Brasil, sobre Salvador.
CP - Com o passar do tempo, as montagens de Pina Bausch ficaram mais leves, bem-humoradas. A que se deveu isto?
Daphnis Kokkinos - Pina era completamente aberta ao novo. As peças poderiam estar mais alegres, mas mesmo assim sempre falaram de algo sombrio ou de algum acontecimento marcante no mundo, mas nunca criado de forma didática ou moralista.
Dominique Mercy - No caso de "Água" aconteceu uma situação. Ela reparou nos trejeitos de mulheres que ajeitavam os cabelos para lá e para cá e na peça este movimento aparece insistentemente durante algum tempo.