Pio Furtado, experimentado escritor em diversos gêneros, agora nos apresenta A comédia dos despropósitos - contos hilários, uma surpreendente experiência com textos bem-humorados. Uma coletânea de histórias criativas e espirituosas, além de burlescas e galhofeiras. Graciosas, mas também satíricas, escarnecedoras, irônicas e até venenosas. A percepção do engraçado, do cômico e do sarcástico, por óbvio, não exclui a sensibilidade e o discernimento de uma consciência de significação.
A comédia, enquanto gênero literário, enfrenta uma dificuldade peculiar em comparação ao drama: enquanto o trágico encontra terreno fértil na dor e na intensidade das emoções, o cômico depende de surpresa, de subversão de expectativas e de uma fina ironia que desnude a condição humana – portanto, a comédia é um exercício filosófico mais árduo. Nesse sentido, o humor é uma espécie de “remédio sem bula”. Rir é um ato de resistência aos aborrecimentos e às dificuldades da vida; um antídoto contra os sofrimentos e tensões do mundo.
Aqui, uma das grandes funções da literatura, que, mesmo na comicidade, nos faz pensar, e pensar completa e engrandece o homem, ainda mais, num mundo que carece de felicidade. Portanto, para tal desiderato, que em suma é a grande missão e realização do homem nesta terra, rir ainda é o melhor remédio.
A dualidade entre medicina e literatura
Existem homens que carregam em si dois universos, e ao cruzá-los, revelam a grandeza da alma humana. É o caso de alguns escritores como Pio Furtado que transitam entre a ciência e as letras como se percorressem dois rios que se encontram no mesmo mar. No caso, deste médico-escritor, por ser cirurgião de formação (e renomado Cirurgião Oncológico), com as mãos, cura os corpos; com as palavras, cicatriza almas. Na boa prática médica, o olhar atento decifra sintomas, escuta silêncios, acolhe fragilidades, acaricia ânimos, devolve dignidade ao sofrimento. Contudo, são poucos os que conseguem unir estes rigorosos pilares da medicina ao lirismo da literatura. Nesta, Pio Furtado, faz da pena o seu bisturi, abrindo delicadamente a carne da existência, expondo medos, paixões e esperanças.
A par de vários capítulos de livros e inúmeros artigos científicos publicados em diversas revistas nacionais e internacionais, nas artes escritas, embora possa ser caracterizado prioritariamente como um romancista, na sua já vasta obra, vamos encontrar o narrador, o cronista, o contista e até o fabulista.
Membro das Academias Rio-Grandense de Letras e Brasileira de Médicos Escritores, suas produções literárias são de esmerado cuidado: cada palavra nasce como semente escolhida a dedo, cultivada em solo fértil de pesquisa e regada pelo labor paciente da lapidação. O vocábulo, em suas mãos, deixa de ser mero signo e se torna matéria viva, trabalhada, tecida, burilada. E, no entanto, essa minúcia não pesa: ao contrário, flui como corrente cristalina, conduzindo o leitor em correnteza ágil, que prende e embala, que arrasta, envolve e alenta, até que a leitura se torne experiência de encantamento. Ademais, há que se caracterizar e marcar a profundidade e a empatia dos seus personagens – todos surgem intensamente humanos constituídos com nuances que não os fazem figuras corriqueiras ou pré-idealizadas, mas retratos vivos, capazes de espelhar o leitor e provocar imediato reconhecimento. E é essa humanidade, trabalhada com delicadeza e rigor, que transforma suas narrativas em experiências que tocam tanto o intelecto quanto a sensibilidade.
A jornada literária e a evolução do estilo
Desde seu primeiro livro “Neoplasia: O homem e o peso de sua sombra” (2013), até este recente “A comédia dos despropósitos” (2026), transcorreram 13 anos e 12 livros publicados nos mais diversos gêneros – sempre com notáveis avanços no estilo da escrita. Todas publicações da Editora Alcance.
Impressiona, ao ponto de entusiasmar grandemente o leitor que acompanha a sua jornada de edições, a qualidade narrativa e o enredo temático. Por exemplo, Pio Furtado é de uma riqueza vocabular estupenda. Em “Provência” (2023) narra a saga de cangaceiros nordestinos, em contraposição a “Os Casticeiros” (2025), outra saga, aqui envolvendo famílias na Guerra dos Farrapos, passando por “O derradeiro bandeirante” (2018) e outros excelentes títulos.
Por todos os caminhos e títulos, sua obra é ponte: entre ciência e arte, entre razão e percepção, entre o real e o imaginário, o palpável e o invisível.