Arte & Agenda

"Plataforma ao Oscar", Tiff traz o cinema atual e se firma

Festival Internacional de Cinema de Toronto redesenha, até dia 20, o mapa do cinema que será discutido e premiado nos próximos meses

O diretor Gabriel Martins chega à Toronto com "Vicentina Pede Desculpas", de olho no Oscar
O diretor Gabriel Martins chega à Toronto com "Vicentina Pede Desculpas", de olho no Oscar Foto : Netflix / Divulgação / CP

Entre os mais importantes festivais de cinema do mundo, o Festival Internacional de Cinema de Toronto (Tiff) redesenha, até dia 20 de setembro, o mapa do cinema que será discutido, premiado, comprado, distribuído e disputado nos próximos meses. Iniciada na última quinta-feira, dia 10, a 51ª edição do Festival Internacional de Cinema de Toronto volta a transformar a charmosa e cultural cidade canadense numa espécie de grande alfândega do imaginário mundial. Por ali passam autores consagrados, estreias aguardadas, apostas desconhecidas e, inevitavelmente, os mais intensos movimentos da longa corrida até o Oscar.

A primeira leva anunciada para 2026 impressiona menos por uma única estrela e mais pela dimensão do conjunto. São filmes de quase 30 países, numa geografia cinematográfica em que convivem Pedro Almodóvar, Danny Boyle, Ryûsuke Hamaguchi, Hirokazu Kore-eda, Lee Chang-dong, Mike Leigh, Cristian Mungiu, Andrey Zvyagintsev, Rodrigo Sorogoyen, Jesse Eisenberg, Gael García Bernal e Chris Rock. Um encontro de cinematografias, gerações e estilos que reafirma uma das maiores virtudes do TIFF. O evento transforma a diversidade em espetáculo sem reduzir o cinema a uma simples vitrine mundial.

Nas Galas, o festival aposta também na cerimônia e no glamour. “A Arte de Ser Heumann” abre a edição e “Villeneuve: A Ascensão de uma Lenda” encerra a programação, num tributo que parece sintetizar a vocação canadense do festival para olhar simultaneamente para Hollywood, para o cinema autoral e para a memória de seus próprios criadores.

Mas é nas Apresentações Especiais que o Tiff volta a exibir seu músculo internacional. “Natal Amargo” marca a presença de Pedro Almodóvar. “Tinta” traz Danny Boyle. “Everest: O Outro Lado” reúne Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi. Há ainda “De Repente”, de Hamaguchi, “Retrospectiva”, de Kore-eda, “Possível Amor”, de Lee Chang-dong, “Carinho e Amor”, de Mike Leigh, “Fiorde”, de Cristian Mungiu, “Minotauro”, de Zvyagintsev, e “A Amada”, de Rodrigo Sorogoyen. Uma lista que aponta: apesar de todas as transformações tecnológicas e industriais, ainda existe algo insubstituível que é um filme assinado por alguém que tem um mundo próprio para mostrar.

E, no meio desse trânsito de gigantes, o Brasil encontra uma porta que pode ser decisiva. Depois de dois anos consecutivos em que o país voltou a sonhar alto na corrida pelo Oscar de Filme Internacional, com “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e "O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, a ausência brasileira das grandes seleções competitivas de Cannes e Berlim havia criado uma inquietação. E a questão de ver onde estaria o próximo filme capaz de carregar novamente a bandeira brasileira pela temporada internacional.

Gabriel Martins, um dos nomes mais singulares da nova geração, chega à competição Platform com “Vicentina Pede Desculpas”, drama protagonizado pela talentosa atriz Rejane Faria sobre uma mãe devastada pela culpa e pela busca impossível do perdão. Martins não chega como um desconhecido. Cofundador da Filmes de Plástico, ele já viveu a experiência de representar o Brasil no Oscar com “Marte Um”, obra que conquistou projeção internacional e revelou a força de um cinema brasileiro capaz de ser profundamente local sem jamais ser provinciano.

Agora, o cenário é ainda mais provocador. A competição pelo Platform Prize pode abrir uma rota concreta para a temporada de premiações, especialmente diante das novas regras da Academia para filmes vencedores em festivais competitivos. Some-se a isso uma distribuição mundial do filme de Martins pela Netflix, presença cada vez mais decisiva no jogo global, e O Festival de Toronto deixa de ser apenas uma estreia importante. Pode ser o começo de boa campanha.

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