No mês em que a Rússia celebra o centenário de sua revolução, um filme sobre Nicolau II, o último czar, está gerando polêmicas e protestos no país. "Você é o czar, tem direito a tudo, menos ao amor", já dizia o trailer de "Matilda", que retrata o romance entre o antigo monarca e a bailarina de origem polonesa Matilda Kshesinskaya e estreiou na segunda-feira em algumas salas de cinemas de lá com direito à segurança reforçada. Desde que foi anunciada, a obra dirigida pelo premiado Alexei Uchitel foi fortemente repudiada pela Casa Imperal e pela Igreja Ortoxa, que canonizou o homem em 2000 e acusa a produção de profanar a memória do santo.
Em janeiro, o movimento ortodoxo radical Christian State Holy Rus disse que os “cinemas queimariam” se o longa fosse exibido. Em Moscou, dois carros foram instalados fora dos escritórios do advogado da Uchitel no mês passado. No mês passado, as duas maiores cadeias de cinema da Rússia, o Cinema Park e a Fórmula Kino, disseram que tirariam o filme de sua grade de programação após ameaças, mas se reverteram depois. E, de fato, a estreia desencadeou uma onda de ataques, incluindo cocktails Molotov lançados nos escritórios do diretor em São Petersburgo.
Uma pequena multidão de crentes ortodoxos segurando fotos de Nicolau II reuniu-se fora do Teatro Mariinsky, onde as principais cenas foram rodadas, em protesto contra a película. "Este filme é um sacrilégio à memória de Nicolau II. Não tem nada a ver com a verdade histórica. É manipulação barata", disse Aleksandr Zakatov, representante da Casa Imperial Russa. Para o manifestante Vladimir Vasilyev, trata-se "de uma mentira e uma blasfêmia". "Isso ofende nossa moralidade. É uma conspiração ocidental", completou. Já em Ecaterinburgo - onde a família real foi morta - um homem dirigiu uma van cheia de bujões de gás e incendiou uma sala de cinema.
Em Moscou, nesta terça-feira, sete pessoas foram presas. A polícia disse que as detenções foram por perturbação da ordem pública. Todos eles eram ativistas ortodoxos e alguns cantava músicas religiosas, enquanto outros carregavam uma bandeira descrevendo o filme como "calúnia", informou a agência de notícias TASS. "Estou orando por Deus em vez de insultá-lo. Este filme insulta uma família sagrada", comentou um homem.
O visual exuberante, carregado de erotismo de "Matilda" centra-se na relação do czar com a bailarina Matilda Kshesinskaya, estrela do imponente Teatro Mariinsky. Em suas memórias, a dançarina conta detalhes de sua breve, mas intensa relação com o homem entre 1892 e 1894. Segundo historiadores, o caso acabou antes de seu casamento com Alexandra Feodorovna e ascensão ao trono, poucos dias depois da morte de seu pai, Alexandre III, em 1º de novembro de 1894.
Assista ao trailer de "Matilda"
Polêmico, filme sobre o último czar estreia em meio a protestos na Rússia
"Matilda" conta história do relacionamento entre Nicolau II e a bailarina Matilda Kshesinskaya