Arte & Agenda

Por que Porto Alegre saiu da rota dos grandes shows internacionais?

Levantamento da reportagem do CP dá conta que nos últimos três anos os grandes shows têm vindo menos à Capital

Show do Guns N' Roses no estacionamento da Fiergs, em 2022
Show do Guns N' Roses no estacionamento da Fiergs, em 2022 Foto : Leandro Cabral / Divulgação / CP

Por Carolina Santos e Larissa Har

O ano de 2025 está repleto de atrações musicais pelo Brasil. Grandes nomes internacionais desembarcam no país, mas Porto Alegre tem ficado de lado. Essa é uma tendência que se observa nos últimos três anos.

Um levantamento feito pelo Correio do Povo (veja gráfico abaixo) reúne 45 artistas, que lotam estádios ou grandes espaços, como a Fiergs, e vieram para a capital gaúcha entre os anos de 2010 e 2024. No período, é possível ver uma queda no números de shows.

Em 2022, logo após a pandemia de Covid-19, foram três shows. No ano seguinte, 2023, foram dois e já no ano passado, em 2024, somente Slash, icônico guitarrista da banda Guns N’ Roses, pisou em um palco gaúcho.

O auge das grandes atrações foi 2012, ano que Porto Alegre recebeu oito shows de artistas internacionais, como o da cantora pop Madonna, seguido por 2018, com seis apresentações.

É importante apontar que Porto Alegre tem recebido artistas nacionais e internacionais de “médio-porte”. Eles lotam locais como o Auditório Araújo Vianna, o Opinião e o Teatro do Bourbon Country.

Gráfico demonstra queda no número de shows em Porto Alegre | Foto: Leandro Maciel

Grandes shows pelo país

Este ano, diversos músicos anunciaram turnês pelo Brasil, entre eles: Linkin Park, Green Day, Katy Perry, Oasis e mais recentemente, a banda Guns N’ Roses. Nenhum trará seu show para o Rio Grande dos Sul. Muitos chegam na Região Sul, em Curitiba ou Santa Catarina, por exemplo, mas não cruzam o rio Mampituba.

O drama traz a pergunta: Por que Porto Alegre não está na rota dos grandes shows internacionais?

Para responder ao questionamento, o Correio do Povo foi atrás de executivos de duas grandes produtoras gaúchas - Opinião e Opus - e ouviu pesquisadores do assunto.

Para Carol Govari, coordenadora do curso de Produção Fonográfica da Unisinos, Curitiba, inclusive, tem ocupado o lugar que antes pertencia à capital gaúcha.

“Porto Alegre já foi parada obrigatória em muitas turnês, mas, atualmente, me parece que enfrenta desafios logísticos e financeiros. É uma capital com um público que ama música e, justamente por isso, vejo que hoje se desloca para Curitiba ou São Paulo, se necessário, para ver algum show internacional.”

O principal ponto apontado por afastar artistas de grande porte do Rio Grande do Sul é o problema de infraestrutura para receber os shows. Segundo Rafael Bestetti, Chief Product and Operation Officer (CPO) da Opus, “os estádios [Beira-Rio e Arena] têm um custo mais elevado, e têm como prioridade o calendário do futebol. Além disso, a logística é mais complexa, estamos longe do eixo principal das turnês, e há em outras capitais um maior incentivo público. Outro fator é o engajamento de marcas para viabilizar os eventos, o que acaba concentrando muito os shows em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.”

Isso acaba gerando transtorno para o aluguel do espaço, montagem e desmontagem e passagem de som. Como muitos equipamentos estruturais acabam saindo do sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo), o custo para o deslocamento é menor se o espetáculo for em Santa Catarina ou Paraná, que tem sido favorito na escolha dos locais. Logo, o trânsito das estruturas necessárias para a montagem pode ser feito por caminhão, sem necessitar de avião de carga.

Outro ponto de grande influência é o ticket médio. Para o pesquisador e professor da PUCRS, Cristiano Max, ticket médio desses shows tem crescido bastante por diversas razões.

“Seja a inflação, consumo ou venda de ingressos, isso faz com que o público consumidor seja de um padrão bastante alto. Para esse tipo de público, independe para ele ir ao Rio de Janeiro, a São Paulo ou Curitiba para ver o show, não faz diferença. Assim, esse afunilamento de um público de classe muito mais alta, faz com que a localização do show não afete as vendas de ingresso. Isso é um prejuízo social enorme.”

Rodrigo Machado, sócio-diretor da Opinião Produtora, apesar de discordar que Porto Alegre não recebe mais nome internacionais, aponta que a alta do dólar nos últimos anos afeta a realização de uma grande turnê pelo Brasil. “Se tornou uma tarefa ainda mais difícil: alto custo, alto risco e rentabilidade baixa”.

As finanças afetam em todas as intersecções quando o assunto é show. Desde a negociação até a venda de ingressos. No entanto, a falta de incentivo de empresas em patrocínios também é um dos agravantes.

Enchente de 2024

A tragédia da enchente vivida pelos gaúchos em 2024 teve impacto direto na vinda de grandes nomes da música internacional a Porto Alegre. A apresentação do guitarrista Slash, no Pepsi On Stage, foi no início do ano, em fevereiro de 2024.

“A tragédia afetou diretamente a infraestrutura urbana e cultural da cidade, que precisa de dedicação, tempo e investimento para se restabelecer como um local atrativa para produções internacionais”, avalia Govari.

Já Rodrigo Machado acredita que o período em que o Aeroporto Internacional Salgado Filho ficou inoperante ou com restrição de voos tenha sido prejudicial, mas aponta que o cenário já se normalizou.

Festivais no eixo Rio-São Paulo

É fácil perceber que os festivais têm ajudado a atrair artistas para o Brasil. Porém, ambos especialistas concordam ao apontar que este é um fenômeno de dois lados. Os eventos colocam o país no mapa global, mas acabam centralizando os shows no eixo Rio-São Paulo.

“Os artistas ‘passam pelo Brasil’, mas não necessariamente circulam por ele”, explica Carol. Para outros estados, só sobra espaço se houver estrutura e articulação local. O CPO da Opus vê um cenário em que Porto Alegre poderia aproveitar os festivais para negociar apresentações paralelas, “mas isso exige planejamento e estrutura, o que hoje não foi possível viabilizar”, aponta Bestetti.

Possíveis soluções

Para todos os entrevistados, é necessário um planejamento estratégico para a volta ao circuito dos grandes shows.

“Isso envolve: investir ou viabilizar uma arena moderna e versátil; oferecer incentivos ou parcerias público-privadas; facilitar licenças e logística para os produtores; engajar o setor privado local no patrocínio cultural”, opina Bestetti.

A professora Govari aponta a articulação entre poder público, setor cultural e iniciativa privada como fundamental. “Precisamos de políticas de incentivo à cultura que contemplem grandes eventos, mas também infraestrutura urbana e acessibilidade. Também é importante investir em formação profissional”, diz ela.

Tendências do público.

Uma pesquisa, realizada pelo Serasa, aponta que 46% dos brasileiros destinam dinheiro para shows e festivais de música e 70% do público afirma que o valor máximo de ingresso é de até R$300. O que indica uma tendência de consumo entro o público. Em Porto Alegre, não é diferente, “temos um público apaixonado e uma história forte na música ao vivo”, diz Rafael Bestetti.

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