A organização Porto Alegre em Cena anunciou os 10 espetáculos gaúchos que farão parte da 33ª edição do Festival Internacional de Artes Cênicas entre os dias 10 e 20 de setembro. A escolha, realizada pelos curadores Adriana Jorgge, Gabriela Munhoz, Luísa Dias Rosa de Oliveira e Rodrigo Marquez, evidencia a pluralidade e a potência do teatro produzido localmente, reconhecendo a produção artística gaúcha como uma das vozes que compõem o campo artístico brasileiro.
O resultado é uma seleção que inclui montagens voltadas tanto para o público adulto como infantil, com produções que transitam por múltiplas linguagens artísticas, como palhaçaria, dança e teatro de sombras. As atrações vêm de diferentes localidades do Rio Grande do Sul e são assinadas por coletivos de cidades como Canela, Caxias do Sul, Ivoti e Pelotas, além da capital gaúcha.
A divulgação da seleção local antecipa o lançamento oficial da programação do festival, que será revelada em evento aberto ao público na próxima terça-feira, 11 de agosto, às 19h, na Zona Cultural. A venda de ingressos começa no dia seguinte, dia 12, pelo site.
Haverá ainda outros espetáculos gaúchos convidados na programação. Do centro do país, já foi confirmado "Mudando de Pele”, protagonizado por Taís Araujo e dirigido por Yara de Novaes, que terá duas apresentações no Teatro Simões Lopes Neto, nos dias 12 e 13 de setembro.
O festival também já anunciou a continuidade do Reside Alegre, projeto que, desde 2025, integra a programação formativa do Em Cena e que, neste ano, ocupa a rua Alberto Torres, no bairro Cidade Baixa, onde está funcionando a sede do Porto Alegre em Cena. A iniciativa transforma histórias de moradores da capital gaúcha em espetáculos, partindo da escuta dessas narrativas para criar dramaturgias que depois serão apresentadas nas ruas da cidade e em espaços inusitados, como casas e lojas. O processo deste ano teve início no último mês de maio e resultará em uma mostra nos dias 5 e 6 de setembro, às vésperas da programação de espetáculos do festival.
Confira os 10 espetáculos gaúchos selecionados
7 Cidades (Porto Alegre):
Inspirado no livro "Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, o espetáculo propõe o hibridismo entre diferentes linguagens artísticas, como a dança, a arte flamenca, a música e o audiovisual através de projeções de videodanças, que trazem imagens e sons da cidade. Em cena, 7 bailarinas com sólida experiência artística: La Negra Ana Medeiros, com 30 anos de carreira, que também assina a direção geral, coreografias, cenário e figurinos; Ana Cândida La Campanera; Bianca Benevenutto La Señora; Emily Borghetti; Luciana Meira; Patrícia Correa La Paloma e Thaís Virgínia La Sol.
O espetáculo também conta com a direção artística de Everson Silva e trilha sonora original de Paola Kirst e Tamiris Duarte. As videodanças são o plano de fundo da trama dramatúrgica, gerando um cenário com projeção mapeada e possibilitando que se rompam as barreiras do vídeo e da performance ao vivo.
AUTODescrição - Tudo o que eu não vejo (Porto Alegre)
Em um mundo bombardeado por imagens e pela manipulação constante da verdade, o que acontece quando não podemos mais confiar naquilo que vemos? Em seu novo espetáculo de teatro de testemunho, a Cia. Reverbo mergulha nas tensões da percepção contemporânea. A partir de relatos reais de pessoas com deficiência visual, a obra investiga as fraturas invisíveis e os pontos cegos nos conflitos humanos.
Ao tensionar a relação entre o visível e o oculto, a montagem subverte o uso da audiodescrição, transformando o recurso de acessibilidade no motor poético e dramatúrgico da cena. O resultado é uma experiência cênica que nos desafia a confrontar tudo aquilo que, por conveniência, escolhemos não enxergar.
Bayle da Obra (Pelotas)
Uma festa-espetáculo que transforma o palco em território de encontro, celebração e disputa de narrativas. Inspirada na Cultura Ballroom, no baile funk, na capoeira e nas artes negras brasileiras, a obra reúne artistas negros, LGBTQIAPN+ e periféricos para construir uma experiência cênica em que dança, teatro, música e performance se atravessam.
Corpomundo (Porto Alegre)
Com direção de Paula Carvalho e coreografias de Bianca Bueno, a obra reúne artistas com e sem deficiência em uma criação autoral que celebra a diversidade em sua potência de encontro. Inspirado na pergunta “O que pode um corpo?”, o espetáculo desenvolve uma poética cênica que contorna as relações entre humanidade e natureza para repensar o mundo através de uma ótica plural, biodiversa e em constante transformação.
A encenação faz parte de uma pesquisa em dança-teatro onde se privilegia a corporalidade e as habilidades mistas dos participantes. Ao utilizar poucas palavras verbalizadas, a obra possibilita dar ao corpo novas leituras, novas histórias, partilhando a dimensão poética da nossa existência: humana e diversa.
Criaturas da Literatura (Porto Alegre)
Cenas de teatro de sombras com enredos livremente inspirados em histórias clássicas da literatura universal, como Dom Quixote, Alice no País das Maravilhas e O Pequeno Príncipe em um espetáculo para todos os públicos. A dramaturgia inclui poucas falas onde cada história surpreende pela poética visual e emocional, apresentando algumas das personagens mais queridas da literatura universal.
Geppetto (Porto Alegre e Caxias do Sul)
O espetáculo apresenta o convívio entre um filho e seu pai em uma jornada sobre memória, afeto e finitude. Inspirado livremente no universo de Pinóquio, dirigido por Liane Venturella e com texto de Nelson Diniz, a montagem se passa em um ateliê. Por meio da manipulação de uma marionete híbrida, o monólogo investiga a relação entre criador e criatura, entre o esculpir e o ser esculpido. Voltado ao público adulto, a obra aborda a convivência com um pai em processo de perda de memória, refletindo sobre envelhecimento e vínculos familiares.
Kaiu da Kombi (Canela)
Espetáculo circense de rua, teatral e performático que resgata a essência da arte pública e a leva a locais de difícil acesso. Unindo circo, teatro e dança, a obra funciona como um potente instrumento de conscientização social, apresentando uma narrativa que equilibra leveza, diversão e profunda reflexão sobre o cotidiano.
A trama acompanha a história de Noa Blum, um velho homem que passou anos enclausurado e solitário, imerso em seus próprios pensamentos e em memórias — tanto doces quanto amargas —, viajando em uma realidade paralela de sua mente. À medida que Noa começa a trazer essas lembranças à tona, o espetáculo utiliza uma linguagem cênica e coreográfica subjetiva para falar sobre nossas escolhas e sobre o valor das conexões humanas.
Katchaku Katchaka: Era Uma Vez em Odjéïdjé (Porto Alegre)
A produção narra a coragem e a esperteza do menino Gondœur, que aceita o desafio de enfrentar um grande monstro para defender a sua aldeia. O espetáculo é direcionado para crianças, jovens e adultos, com a proposta de oferecer uma abordagem da cultura africana, que tanto influencia a sociedade brasileira, de maneira lúdica e original, somando-se às diversas iniciativas no campo da educação das relações étnico-raciais.
Riso de Mãe é Coisa Séria (Ivoti)
A palhaça Hipotenusaaa se divide em muitas para tentar dar conta das demandas que atravessam a maternidade. Entre tarefas acumuladas, interrupções constantes e tentativas frustradas de organizar o caos, surgem questões como a privação de sono, a falta de tempo para si, a fragilidade das redes de apoio e a necessidade de seguir sustentando tudo, mesmo no limite do esgotamento. Sem romantizar o maternar, o espetáculo revela situações amplamente reconhecidas por mulheres que, ao se tornarem mães, passam a lidar com diferentes formas de invisibilização e sobrecarga. A montagem tem como fio condutor a linguagem da palhaçaria feminina, utilizando o riso como ferramenta de encontro, identificação e ressignificação das experiências vividas.
Um Leão na Sala de Aula (Porto Alegre)
Dois atores abrem caixas e revelam memórias — algumas vividas, outras inventadas. Um leão em fuga, um inseto herói que usa óculos, a triste história de um carrinho de bombeiros e um avental bordado, um monstro que mora num buraco na parede, a incrível história de amor entre um peixe e uma flor, fotos antigas, lembranças alegres… outras nem tanto. Desse relicário surgem brincadeiras de infância, relações de amizade, encontros com medos, viagens pelo imaginário, situações de bullying e outras experiências.