Currículo não falta a Braulio Mantovani. O roteirista, que esteve em Porto Alegre nessa semana dentro da programação do Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre (Frapa), assina algumas das obras mais importantes do país nas últimas décadas: “Cidade de Deus” (2002), “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias“ (2006) e “Tropa de Elite” (2007), além de séries como “Cidade dos Homens” (2002) e a recente “Pssica” (2025). Portanto, quando fala sobre o cenário nacional, tem conhecimento de causa. E o momento, segundo ele, é de preocupação.
“A gente precisa aprender a valorizar os escritores de filmes e séries. Tanto do ponto de vista do reconhecimento da autoria, ou co-autoria dos filmes e séries, como do ponto de vista financeiro. E aí me refiro tanto aos cachês como à remuneração dos direitos autorais. Eu recebo de quando em quando dinheiro da Europa referente a direitos autorais pelos filmes que escrevi. Aqui no Brasil, nunca recebi um centavo por isso”, afirma.
Mantovani faz questão de elogiar não só a estrutura como a própria existência do Frapa. Se o país conta com uma série de festivais voltados para o cinema, o mesmo não se pode dizer em eventos mais focados na escrita de filmes e séries. "Por ser único festival de roteiro, considero o Frapa o festival mais importante do país”, elogia, para logo em seguida lembrar que o festival é um dos raros espaços em que temas como a cobrança por direitos autorais são debatidas.
Busca por um vínculo próprio
Na terça-feira, o roteirista esteve no Espaço Força e Luz para falar sobre “Pssica”, série que estreou este ano na Netflix e tem como um dos temas centrais o tráfico sexual. A obra, que se passa no Pará, é uma adaptação do livro de Edyr Augusto. Mantovani, contudo, diz que assim como em outros roteiros, não conversou com o autor do livro.
“Eu nunca converso com autores das obras que adapto. O começo é encontrar um vínculo com a história, tão pessoal e forte que a história acaba se tornando minha. Eu esqueço que alguém escreveu o texto que para mim é matéria-prima de uma história que tem que se tornar minha. Em geral, eu tento recriar no roteiro o efeito que a história original (fictícia ou real) produz em mim", justifica Mantovani.
Mesmo tendo sido o autor de uma das frases mais icônicas do cinema brasileiro – “Dadinho é o c…, meu nome agora é Zé Pequeno, p...”, de “Cidade de Deus” –, Mantovani diz não se considerar um bom frasista. Lembra que as falas mais famosas de “Tropa de Elite”, por exemplo, foram improvisadas pelos atores.
“Não tinha a menor ideia que aquela frase do Zé Pequeno fosse virar um bordão e até estampa de camiseta. Apenas escrevi o que eu diria se fosse o personagem naquela situação, usando a linguagem dele. É o que faço em todos os diálogos que escrevo”, explica.