Arte & Agenda

Projeto encena obra de Mário Bortolotto em bares da Capital

Dramaturgo concedeu entrevista ao Correio do Povo

Patricia Fagundes, Mario Bortolotto, Daniel Colin e Morgana Kretzmann
Patricia Fagundes, Mario Bortolotto, Daniel Colin e Morgana Kretzmann Foto : Cristiano Estrela
O projeto "Universo Bortolotto - Nossa Vida Não Vale um Chevrolet", idealizado pela atriz e produtora Morgana Kretzmann, envolve a montagem do espetáculo homônimo, dirigido por Adriane Mottola, com estreia prevista para março de 2012 e quatro leituras dramáticas, realizadas por grupos locais nos bares da Capital, sempre nas quartas-feiras de novembro.

A primeira foi "Hotel Lancaster", com a Cia. Santa Estação (Dhomba), na semana passada. Nesta quarta-feira, "Homens Santos e Desertores", uma das obras preferidas do autor Mário Bortolotto, será encenada pela Cia. Rústica no lugar que ele mais gosta, na capital gaúcha: o Van Gogh. Segue no dia 23, com "Uma Pilha de Pratos na Cozinha", pelo Teatro Sarcáustico (Café Bertoldo) e finalmente dia 30 terá vez "Felizes para Sempre", com a Cia. Stravaganza, no Entreato. A abertura do projeto foi com um seminário sobre Dramaturgia, dias 3 e 4 deste mês, com a presença de autores de Porto Alegre e de Mario Bortolotto.

O dramaturgo natural de Londrina e radicado em São Paulo é vocalista de duas bandas, e aproveitou a vinda à cidade para lançar na Feira do Livro "DJ - Canções para Tocar no Inferno", com 25 contos inspirados em canções. Humor corrosivo, boemia, sexo, drogas e bebidas são temas de suas obras, sendo que a última, "Deve Ser o Caralho o Carnaval em Bonifácio", está em cartaz no Espaço Satyros. Autor de 50 textos, ganhou no ano 2000 os Prêmios APCA, pelo conjunto da obra e Shell de Dramaturgia, por "Nossa Vida Não Vale um Chevrolet". No cinema, recentemente atuou em "Nove Crônicas para um Coração aos Berros", de Gustavo Galvão, que ainda não foi lançado. Confira abaixo a entrevista exclusiva com Bortolotto:

CP: Como será a trilha sonora da peça "Nossa Vida Não Vale um Chevrolet", assinada por ti e o Nei Lisboa?
Bortolotto: O Nei deve pegar algo do repertório dele, que deve estar sem tempo pra compor para a peça.

CP: Há pouco tempo você criticou o teatro de imagens, em detrimento do texto. Como é isto?
Bortolotto: Nos anos 1980, o teatro de texto foi um pouco sepultado pelo teatro de imagens. Os diretores eram grandes vedetes, como Gerald Thomas. Nos anos 2000, houve um resgate do texto, com novos dramaturgos. Sou adepto do teatro de texto e tenho esperança de que ele não deixe de existir. Senão vira Cirque du Soleil.

CP: Você geralmente acompanha as adaptações dos teus textos?
Bortolotto: Tem muita peça minha que não consegui ver, geralmente gosto de 20%. Desde que não mexam no meu texto, tudo bem. Posso não concordar com a estética, mas não vou brigar com o diretor. "Fica Frio" percorreu o Nordeste. A partir do momento que você escreve o texto, não tem como controlar. Fazem isto com Nelson Rodrigues e Plínio Marcos.

CP: E o livro "DJ - Canções para Tocar no Inferno", do que trata e qual foi sua trajetória?
Bortolotto: Ele foi lançado em São Paulo e em Santos. Quando comecei a escrever foi para revistas, em São Paulo, daí fiz "Stand by Me", sobre uma garota que é estuprada e canta a música do John Lennon. Escrevia geralmente sob encomenda, em cima de nomes de músicas e a partir daí ficou a ideia de juntar tudo. Há sete anos veio a ideia do livro, que é dividido em três partes: "Flashback", com minha produção dos anos 1980; "Midnight" em que a música está nos temas, e não nos títulos e, finalmente, "Evangélicos", trilogia sobre um massagista de futebol, ex-boxeador, que acompanhou três Copas do Mundo.

CP: Quais são teus ídolos?
Bortolotto: Fauzi Arap fez várias montagens de Plínio Marcos e Zé Vicente. Fiz três peças com ele como ator e ele dirige "Deve Ser o Caralho o Carnaval em Bonifácio". O Fauzi é do tempo em que se juntavam dois ou três amigos, sem dinheiro, sem grandes cenários, calcado no trabalho de atores. Hoje não é possível fazer isto e se fica frustrado. Ele ganhou dinheiro com "Caixa Dois" de Juca de Oliveira e aplicou em "Santidade", primeiro texto do Zé Vicente, censurado na ditadura militar, que ganhou muitos Prêmio Shell.

CP: A dramaturgia escrita hoje tem as marcas da contemporaneidade ou é atemporal?
Bortolotto: Não sei de nenhuma peça que tenha sobrevivido aos diretores. Tenho 47 anos e 50 textos. Cada texto meu tem três ou quatro montagens. Só não gosto que mexam no meu texto. Sobre adaptações, fiz três do Rio Grande do Sul: Daniel Galera, Daniel Pellizari e Cristiano Baldi. São todos meus amigos, não queria reescrever. Minha tarefa era transformar aquilo para teatro, e não mudar o texto. É um pouco doloroso quando você vai assistir e vê que o conteúdo mudou tanto.

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