Após estudar 830 casos de incesto e mais de 5,3 mil prontuários cadastrados no acervo da Clínica Psicanalítica da Violência, do Rio de Janeiro, onde atende, Graça identificou um universo próprio, com vocabulário e neologismos que aparecem nos desenhos, sonhos e relatos das crianças vítimas de violência sexual. Através de elementos sutis, pode ser possível identificar a ocorrência da velada violência, sugere a autora. Ela relata os elementos presentes no filme de 2009, que originou o livro editado pela Imprensa Oficial: nos desenhos o sol é negro, não tem luz, tamanha escuridão que vive todas as horas do dia, esperando o momento de novamente aquela estranha brincadeira voltar a acontecer; o medo da água é característico; o pai que dá o banho é o que faz o corpo doer; a cor azul, muito relacionada à liberdade, é utilizada por elas ao estampar o trauma; o coração é desenhado dividido; o falar baixinho do pai aponta a imposição de um segredo; ela (a criança) é uma roboneca, é metade menina, metade mulher; o que aconteceu, não aconteceu.
A narrativa é organizada em 22 sonhos que traduzem os afetos das vítimas sobre o que lhes ocorreu. Os sonhos são contados com a narrativa de Psique, uma voz que representa a voz interior da menina-mulher, vivida pela atriz Julia Lund. Ela está presa em uma bolha criada por Gilberto Antunes, a pedido de Oscar Niemeyer, para quem realiza maquetes. A textura de plástico, indicando o sufocamento, foi indicado pelo arquiteto. "Tu deverias ter reconhecido teu pai, o encontrado em todos os lugares ao mesmo tempo, na rua, no metrô, no cinema da tarde, em ti, em ti mesma no acaso do teu silêncio, que clama nas noites escuras. Noites com choro, noites com medo, soluços intermináveis. Tu deverias ouvir ele te dizer baixinho que viria aqui a cada noite, durante vários dias, muitos meses, longos anos" inicia Psique. Graça lembra de relatos de crianças. O pai acariciava a vítima de jeito diferente em todos os lugares, e ninguém percebia, e todos os viam. Ela sabia o que ele estava fazendo, mas ninguém mais sabia. O incesto, explica a especialista, é perversão do universo fetichista e do voyeurismo. A violência ocorre de forma tão incisiva e silenciosa que a verdade da vítima é questionada.
De acordo com Graça, o desafio é justamente romper a bolha do silêncio, seja a vítima verbalizando e externando a agressão no tratamento, seja a sociedade encarando o assunto e prestando a atenção em sinais "O incesto é o último tabu, aquele que não é enfrentado socialmente, o que ninguém quer ver ou falar sobre. Resta saber se no século 21 vamos conseguir tirar as crianças da cama, da alcova dos adultos", aponta Graça. Em aproximadamente 80% dos casos, o agressor é o pai biológico, seguido, por ordem de incidência, pelo namorado da mãe, tio ou avô. Prática culturalmente histórica em todo o mundo, o incesto está ocorrendo em maior intensidade na avaliação de Graça, mas o enfrentamento do tema também. "A família tradicional não existe mais. A vivência sem um núcleo que a proteja torna o pequeno ser vulnerável", avalia. Após ser usada como objeto sexual, a vítima, conta Graça, encontra saída para a cura através da arte. E o que elas mais querem não é a punição do agressor, mas essencial e principalmente que ele admita o que fez e lhe peça perdão. "Sonho que estou no templo! Isso ajuda a buscar perdão, a perder a vergonha de mim e aguentar ainda mais a minha dor"", diz Psique.
Ao criar o vocabulário dos afetosecretos no livro, Graça sintetiza e caracteriza conceitos da psicanálise inspirados nas imagens, palavras, desenhos e sons expressados por crianças e adolescentes no percurso traumático que sofreram ou sofrem. Assim ela fala de "namorado de amar", "amor farsante", "isolamento", "mãe aranha", denunciando que até a psicanálise faz vista grossa ao assunto. Graça estuda o assunto e combate a prática há mais de 15 anos, sendo referência na área.
Além dos diagnósticos através de sintomas químicos, físicos, fenomenológicos e comportamentais, a linguagem dessas crianças é abordada por Graça como alternativa. Um olhar e ouvido atento podem identificar a ocorrência do incesto através de como a vítima se expressa, conta a autora.
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