Arte & Agenda

Quando as telas se aliam à educação

Começa nesta semana a 20ª edição festival da CineOP, mostra de cinema, com filmes, debates e homenagens em Ouro Preto

Na proposta da 20ª CineOP, Ouro Preto se torna palco de uma ‘revolução audiovisual com riso feminino’, 147 filmes e a força da memória
Na proposta da 20ª CineOP, Ouro Preto se torna palco de uma ‘revolução audiovisual com riso feminino’, 147 filmes e a força da memória Foto : Leo Lara / Universo Produção / Divulgação / CP

Entre os dias 25 e 30 deste mês, Ouro Preto não será apenas a cidade histórica mineira que a gente conhece. Vai se tornar, novamente, o epicentro de uma verdadeira revolução audiovisual. A 20ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto chega com o peso de duas décadas de história, mas carregada da irreverência do riso feminino, da potência da memória e da urgência da educação para a transformação.

Numa programação que reúne 147 filmes de 10 estados brasileiros e 5 países, a mostra desafia o público a olhar o cinema como patrimônio vivo e pulsante, um território em que a preservação, a história e a educação se encontram em faísca criativa. Com exibições espalhadas pela Praça Tiradentes, Cine-Museu da Inconfidência, Centro de Convenções da Ufop e também on-line, o evento conecta passado, presente e futuro com um só fio condutor: o poder das imagens em movimento. Mais do que exibir filmes, a CineOP provoca. Ela pergunta: o que resta quando se apaga um arquivo?

O humor é feminino e político

Se o riso já foi considerado uma arma, a CineOP decide carregá-lo com a munição das mulheres. A temática histórica deste ano é uma provocação: “O Humor das Mulheres no Cinema Brasileiro”. Em tempos em que a comédia ainda luta para se livrar de estereótipos patriarcais, a mostra escancara como atrizes, diretoras e roteiristas fizeram da piada uma forma de resistência.

De Anna Muylaert a Helena Ignez, passando por Carla Camurati e pela homenageada Marisa Orth – que será celebrada por sua capacidade de transitar entre o escracho e o drama com uma precisão que desafia rótulos –, o humor feminino assume protagonismo e mostra que fazer rir também é um ato político.

Quando o assunto é memória, muito além da exibição de filmes restaurados – como o tropicalista e ousado “A Mulher de Todos” (1969), de Rogério Sganzerla –, o evento se consolida como o único do país que assume a preservação audiovisual como eixo central. E para marcar os 20 anos com impacto, lança o inédito Prêmio Preservação, que estreia homenageando o professor João Luiz Vieira, referência nacional na área e “guardião dos acervos brasileiros”.

Outra novidade da edição é a Mostra Competitiva “Arquivos em Questão”. São cinco longas que utilizam imagens de arquivo para construir narrativas afetivas, políticas e experimentais. Entre eles, “Um Olhar Inquieto”, de Jorge Bodanzky e Liliane Maia, e “Ruminantes”, sobre Person e Bernardet. A proposta? Debater como o passado pode ser reinterpretado com criatividade estética e coragem política.

A programação é robusta e inclui uma produção do Rio Grande do Sul, “Crônica de um Rio”, de Antônio Carlos Textor. Além de 34 debates, dois grandes fóruns (um sobre preservação, outro sobre cinema-educação), sete oficinas formativas, uma exposição comemorativa e shows noturnos no Sesc Cine Lounge. Entre os destaques dos debates está “O Riso das Medusas”, com a presença de Marisa Orth e Anna Muylaert, para discutir como as mulheres reinventam o cômico no audiovisual. Outro ponto alto é a masterclass internacional com a cineasta americana Abigail Child, referência mundial em narrativas com found footage.

Na seara da educação, a CineOP joga luz sobre um tema urgente: como o cinema pode ser incorporado, de verdade, ao cotidiano das escolas? A mostra defende a implementação efetiva da Lei 13.006/2014, que exige a exibição de filmes nacionais no Ensino Básico. Homenageia Maria Angélica Santos, pioneira na alfabetização audiovisual e defensora do cinema como linguagem pedagógica. Apresenta curtas de estudantes do país e propõe acervo pessoal, vídeo amador e arquivo escolar como matéria-prima para o ensino crítico e plural. Assim, a CineOP celebra 20 anos, mas não só para comemorar, mas para incomodar e também inspirar.

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