Arte & Agenda

Quando o gênero desafia o poder

Duas produções que chegam ao cinema em breve merecem uma atenção muito especial, por roteiros, atuações e por suas direções

Em "Sonhos", de Michel Franco, há uma alegoria brutal sobre o voluntariado que compra uma presença exótica, moldável e dançante
Em "Sonhos", de Michel Franco, há uma alegoria brutal sobre o voluntariado que compra uma presença exótica, moldável e dançante

Duas mulheres, dois filmes, dois universos em colisão. Este é um dos olhares possíveis sobre duas produções que vão ganhar as telas em breve. Em “Sonhos”, Jessica Chastain mergulha no papel de Jennifer, uma socialite norte-americana aparentemente altruísta, mas que esconde, sob o verniz da filantropia, o instinto feroz de preservar seu domínio. Já em “A Empregada”, Sydney Sweeney é Millie é a ex-presidiária que troca a cela por um labirinto de aparências na mansão de Nina (Amanda Seyfried), mulher rica, frágil e indecifrável.

Ambas as narrativas orbitam ao redor de um tema comum: o poder. Mas o que as torna verdadeiramente provocativas é o gênero, e o que ele revela sobre o teatro silencioso de dominação, desejo e desigualdade. Na trama surge o que acontece com mulheres que se tornam protagonistas em tramas onde o jogo de forças não se dá entre Estado e indivíduo, polícia e bandido, patrão e empregado, mas entre elas mesmas. Há performance da bondade e fragilidade.

Michel Franco, com sua assinatura de desconforto estético e rigor narrativo, dirige “Sonhos”, construindo uma alegoria brutal sobre o voluntariado da elite. Jennifer acredita estar ajudando, mas está, na verdade, comprando uma presença exótica, moldável, dançante, um projeto de redenção pessoal travestido de caridade. Jessica Chastain atua inquietante, cheia de nuances, com uma fragilidade emocional que nunca é gratuita, e sim uma máscara desconfortável para o verdadeiro rosto do poder. Sua entrega ao papel é, como definiu a Variety, “um ato de coragem”. Ela se despe do heroísmo habitual das protagonistas femininas para mostrar, com crueza, a mulher que se recusa a perder o controle. O filme deve estrear no final de outubro.

No contraponto, “A Empregada”, dirigido por Paul Feig, leva o suspense doméstico a um novo patamar. A casa dos Winchester é palco de uma guerra fria silenciosa, onde Millie, a empregada que tudo observa, aos poucos desmonta a estrutura de aparente perfeição ao seu redor. Sydney Sweeney incorpora a tensão constante de quem sabe que sua presença é sempre provisória, e que sua identidade, como ex-presidiária, mulher, pobre, será usada contra ela à menor oportunidade. Amanda Seyfried, por sua vez, está impecável como Nina, uma mulher cuja fragilidade esconde segredos e manipulações dignas de uma vilã trágica. “A Empregada” tem está previsto para estrear em dezembro deste ano.

Encenações

O que une esses filmes, além da qualidade de suas atuações e da tensão quase insuportável que carregam, é a forma como expõem a encenação de papéis sociais dentro do universo doméstico e íntimo. Não há vilões óbvios: há mulheres tentando sobreviver num sistema onde o amor, a confiança e o cuidado são contaminados pela assimetria de classes, raças, nacionalidades e histórias. Ambos os filmes colocam mulheres no centro, mas recusam o conforto de narrativas edificantes. E isso é um avanço. O cinema, por muito tempo, delegou às personagens femininas o papel de heroínas morais ou vítimas redentoras. “Sonhos” e “A Empregada” desmantelam essa lógica. Mostram mulheres que amam, traem, manipulam e dominam.

Michel Franco, com sua habilidade em transformar o ordinário em violento, reafirma-se como um diretor que não suaviza arestas. E Paul Feig, vindo da comédia, demonstra aqui um domínio do suspense psicológico surpreendente. Ambos compreendem que o verdadeiro terror, hoje, está nos espaços íntimos onde a desigualdade se disfarça de afeto. Talvez o que mais assuste nesses dois filmes não seja a maldade escancarada, mas a bondade performática. Esses filmes não pedem identificação. Pedem análise. E mais do que isso: exigem que olhemos para dentro das estruturas que sustentamos, ou nas quais nos escondemos.

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