A revista Time divulgou nesta quarta-feira, 15, a lista das 100 pessoas mais influentes do mundo. Três brasileiros entraram na lista, dos quais o mais famoso é o ator Wagner Moura. Os outros dois são cientistas, com contribuições importantes para a alimentação e saúde no mundo: Mariangela Hungria e Luciano Moreira.
Mariangela é agrônoma e microbiologista, trabalha para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e em 2025 foi laureada com o World Food Prize, a condecoração mais importante da agricultura mundial, conhecida como o “Nobel” da Alimentação e Agricultura. Ela dedicou sua carreira à pesquisa de insumos biológicos como alternativa para substituir os fertilizantes químicos.
Luciano, por sua vez, é biólogo e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele criou uma versão do mosquito Aedes Aegypti, transmissor da dengue, com uma bactéria chamada Wolbachia (comum em muitos insetos). Com a presença da bactéria, o vírus não consegue se reproduzir no mosquito, fazendo com que ele não transmita a doença para os seres humanos. Em 2025, foi reconhecido como uma das dez pessoas que moldaram a ciência naquele ano, segundo a prestigiosa revista científica Nature.
Wagner Moura na capa e entre os mais influentes
O ator Wagner Moura também integra a lista da Time e aparece entre os destaques da publicação, com texto assinado pela crítica Stephanie Zacharek. Indicado ao Oscar de Melhor Ator por O Agente Secreto, Moura teve seu trabalho elogiado pela capacidade de construir personagens complexos em diferentes gêneros, além do engajamento político que atravessa sua trajetória. À revista, ele afirmou que encara a arte como compromisso com a verdade, ainda que, segundo ele, “fatos não importem mais” em um cenário de polarização e narrativas paralelas.
Na entrevista, o ator também refletiu sobre o papel da arte diante de contextos políticos e sociais mais tensionados, defendendo que artistas, jornalistas e acadêmicos costumam ser alvos iniciais de governos autoritários. Naturalizado norte-americano, Moura comentou ainda a polarização nos Estados Unidos, ressaltando que há uma diferença entre governos e a identidade mais ampla do país. Ele também destacou como sua formação em jornalismo moldou sua visão de mundo e sua atuação, associando o exercício da empatia — central na profissão — ao próprio fazer artístico.
Mariangela Hungria e os fertilizantes naturais
O texto de Mariangela para a Time foi escrito por Kyla Mandel, editora-sênior da revista. Mandel destaca que a pesquisadora brasileira desenvolveu micróbios do solo que permitem que as culturas absorvam nitrogênio do ar de forma mais natural, sem os lados negativos do uso de fertilizantes sintéticos, como a contaminação de rios.
A Time informa que, graças a Mariangela, 85% da soja brasileira é cultivada usando esses micróbios, e que as inovações ajudaram os agricultores brasileiros a economizar, no total, cerca de US$ 25 bilhões por ano e a evitar a emissão de 230 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono.
Em entrevista concedida ao Estadão em 2025, Mariangela contou que desde os oito anos de idade ela já sabia que queria ser uma microbiologista. Graduou-se em Engenharia Agronômica na USP, na época “uma profissão bem masculina e machista”, conta. Depois, fez mestrado e doutorado, ambos com teses em fixação biológica do nitrogênio. Entrou na Embrapa em 1982.
“Eu aqui, no interior do Paraná, sempre lutando, num país onde o financiamento para pesquisa é muito irregular, e tendo dedicado uma carreira aos insumos biológicos, numa época que era só de químicos. Além de ser mulher, mãe, eram tantas improbabilidades na minha vida toda, numa carreira que era essencialmente masculina, que tudo isso era muito difícil de acreditar. Mas, deu certo desse jeito”, contou Mariangela ao Estadão em 2025.
A cientista afirmou que, se pudesse deixar um legado, seria uma homenagem às mulheres. “Se não fossem as mulheres, a gente teria um número ainda maior de pessoas passando fome, relatou. O combate à fome é uma das prioridades dela, e considera que a tecnologia é fundamental para isso, mas sabe que o problema é multidisciplinar.
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Luciano Moreira e o Aedes Aegypti que não transmite dengue
Luciano Moreira é um entomologista (biólogo especializado em insetos), e teve o texto escrito por Scott O"Neill, CEO do World Mosquito Program (Programa Mundial dos Mosquitos), ONG que busca proteger o mundo de doenças como dengue, febre amarela, chikungunya e zika.
O"Neill relatou a importância de Moreira na criação e implementação do método Wolbachia de combate à dengue. A bactéria Wolbachia impede que o vírus se reproduza dentro dos mosquitos e, portanto, que os mosquitos transmitam a dengue para os seres humanos.
A fêmea do mosquito infectada com a Wolbachia passa a bactéria para os ovos. Dessa forma, as novas gerações de mosquitos já nascem infectadas, reduzindo a circulação do vírus. A bactéria é inofensiva para os mosquitos, tornando o método sustentável.
A Time também mencionou a expansão nacional constante do método desde a primeira implantação, em 2012, com o trabalho de Moreira conseguindo a construção de evidências da eficácia, o fortalecimento de parcerias comunitárias e a conquista da confiança do público.
Dessa forma, o cientista da Fiocruz logrou em 2025 o lançamento da Wolbito do Brasil - a maior biofábrica do mundo dedicada à criação de mosquitos Wolbachia.
Assim como Mariangela, Luciano contou ao Estadão que o interesse pela ciência começou ainda na infância. “Acho que remete lá atrás quando era criança”, afirmou, em 2025. “Eu sempre gostei de mexer, de testar coisas. Eu achava insetos em casa, misturava produto de limpeza da minha mãe, injetava neles e observava o que acontecia. Era sempre curioso, buscando coisas. Tinha essa vontade de tentar achar soluções, de entender o que acontecia quando experimentava algo”.
Para Moreira, os resultados alcançados pelo método dele não eliminam os desafios nem dispensam cautela, mas ajudam a sustentar o caminho escolhido. “Quando nós vemos resultados positivos, sabemos que estamos contribuindo”.