A vitória do longa “Quemadura China”, um filme uruguaio em co-produção com a gaúcha Okna Produções, e dirigido por Verónica Perrotta, na Mostra Território da 19ª CineBH, não foi apenas a consagração de uma obra ousada. Foi um gesto simbólico que confirma a potência e a maturidade do cinema latino-americano. No final da noite deste domingo, na capital mineira, cada premiação, cada menção, cada reconhecimento dentro e fora do continente funciona como uma faísca que ilumina narrativas ainda invisibilizadas e projeta a força criativa da região para o cenário global.
O júri oficial destacou a coragem estética do filme, capaz de transitar entre o íntimo e o coletivo, o grotesco e o lírico, o teatral e o cinematográfico. Uma obra que não teme a imperfeição e transforma fragilidade em beleza. Não é apenas cinema: é uma reafirmação de que a América Latina possui voz, corpo e memória.
E essa voz não ecoou sozinha. O México brilhou com “Chicharras”, de Luna Marán, cujo elenco recebeu o prémio de Melhor Presença. Um reconhecimento que vai além da atuação: é a celebração de um cinema coletivo, insurgente, capaz de romper tradições tradicionais e reinventar processos criativos.
Já o Peru conquistou espaço duplo. “Huaquero”, de Juan Carlos Donoso Gómez, foi lembrado pela montagem que revela camadas políticas e históricas de uma terra marcada por mistérios e resistência. Enquanto isso, o Abraccine premiou “Punku”, de Juan Daniel Fernández Molero, por sua arquitetura poética que mistura mito, sonho e realidade, exaltando a força feminina na condução da narrativa.
Esses reconhecimentos não são meros troféus: são ferramentas de fortalecimento de uma cinematografia que há muito tempo deixou de ser periférica. Em festivais como o CineBH, o cinema latino-americano se projeta como um corpo coletivo que atravessa fronteiras, denuncia colonialismos persistentes e se impõe como protagonista cultural.
No campo do futuro, o Brasil CineMundi reforça essa vocação aos principais projetos que prometem expandir ainda mais o alcance das histórias latino-americanas. O grande vencedor foi o alagoano “Filhas do Mangue”, de Stella Carneiro, reunido por unir humor, ternura e crítica social em um olhar jovem e singular. Do sertão piauiense às margens de uma lagoa em Alagoas, narrativas locais se tornam universais e revelam um Brasil pouco representado, mas profundamente conectado ao mundo.
Outros projetos também demonstraram a diversidade e a ousadia que caracterizam a produção regional. A obra gaúcha em construção “O Filho da Puta” chamou atenção com sua estética crua e humor ácido; “Lusco-Fusco” foi lembrado pela coragem em tratar da violência contra a mulher sem perder a esperança; e “A Fabulosa Máquina do Tempo” encantou ao transformar a infância feminina em resistência poética. Há ainda obras que provocam reflexão sobre imigração, ecologia, maternidade e inclusão, provando que o cinema da região não tem temas complexos nem temáticos fronteiras.
Do Uruguai ao México, do Peru ao Brasil, a 19ª CineBH reafirmou que o cinema latino-americano pulsa em múltiplas combinações, sempre político, sempre poético, sempre necessário. Cada prêmio funciona como um empurrão rumo à consolidação internacional de um cinema que, ao mesmo tempo em que nasce de territórios específicos, fala diretamente à condição humana universal. O continente, antes visto como “margem”, mostra que seu cinema é agora o centro de uma narrativa global, ousada, plural e impossível de ser ignorada.
LISTA DE PREMIADOS
Mostra Território
Longa-metragem: "Quemadura China”, Uruguai, direção de Verónica Perrotta
Melhor Presença: “Chicharras”, México, direção de Luna Marán
Destaque do Júri (Montagem): “Huaquero”, Peru, direção de Juan Carlos Donoso Gómez
Prêmio Abraccine: “Punku”, Peru, direção de Juan Daniel Fernández Molero
Brasil CineMundi
Júri Oficial
“Filhas do Mangue” (AL) — direção de Stella Carneiro, produção de Rafhael Barbosa
WIP – O2 Pós
“O Filho da Puta” (MG/RS) — direção de Erica Maradona, Otto Guerra, Sávio Leite e Tânia Anaya; produção de Cissa Carvalho, Elisa Rocha e Tatiana Mitre
WIP – Mistika
“Lusco-Fusco” (SP) — direção de Bel Bechara e Sandro Serpa; produção de Rafaella Costa
WIP – The End
“A Fabulosa Máquina do Tempo” (RJ) — direção de Eliza Capai; produção de Mariana Genescá
Foco Minas
“Arrudas” (MG) — direção de Matheus Moura; produção de Antonio Pedroni e Matheus Moura
DocBrasil
“Você?Mãe?” (RJ) — direção de Daniel Gonçalves e Nathalia Santos; produção de Dani Nascimento, Daniel Gonçalves, Roberto Berliner e Sabrina Garcia
Conectado
“Você? Mãe? (RJ)” — direção de Daniel Gonçalves e Nathalia Santos; produção de Dani Nascimento, Daniel Gonçalves, Roberto Berliner e Sabrina Garcia
DocSP
“Você?Mãe?” (RJ) — direção de Daniel Gonçalves e Nathalia Santos; produção de Dani Nascimento, Daniel Gonçalves, Roberto Berliner e Sabrina Garcia
Centro de Estudos DocSP
“Tomba Homem” (MG) — direção de Gibi Cardoso; produção de Lucas Uchôa e Victória Morais
FIDBA #Link
“Febre Tropical” (SP) — direção de Andy Malafaia e Carolina Höfs; produção de Leonardo Mecchi
Novas Miradas
“Toshi Voltou do Japão” (SP) — direção de Marcos Yoshi; produção de Rica Saito
RIDM
“Enquanto te Escrevo a Paisagem Muda” (PE) — direção de Anna Lu Machado e Artur Monteiro; produção de Thaís Vidal
Queima
“Soberbo” (MG) — direção de Camila Matos e Juliana Antunes; produção de Juliana Antunes
MECAS
“Omágua Kambeba” (AM) — direção de Adanilo; produção de Ítalo Bruce
WCF – World Cinema Fund
“Sapatour” (SP) — direção de Gab Lourenzato; produção de Well Darwin
MAFF / Projeto Paradiso
“Diamante, o Bailarina” (SP) — direção de Pedro Jorge; produção de Heverton Lima
Filmes de Plástico – Prêmio Especial
“Brilhante” (MG) — direção de Carol Silva e Karen Suzane; produção de Carol Silva
Filmes de Plástico – Prêmio Principal
“Omágua Kambeba” (AM) — direção de Adanilo; produção de Ítalo Bruce