Arte & Agenda

"Queríamos vir todos os anos ao Em Cena", revela diretora uruguaia

Marisa Bentancur, de “Electra”, elogia organização do festival e fala sobre a peça que estreia sexta

Diretora uruguaia da peça Electra avalia POA em Cena
Diretora uruguaia da peça Electra avalia POA em Cena Foto : Divulgação / CP
O Porto Alegre em Cena, festival que tem sua 17ª edição chegando ao fim na próxima segunda, é sempre elogiado pelo diretores, atores e equipe técnica das produções internacionais que se apresentam na capital gaúcha no mês de setembro. Para a diretora uruguaia Marisa Bentancur, que mostra o espetáculo “Electra”, a partir do trágico texto do grego Sófocles, de sexta a domingo, 20h, no Renascença (Erico Verissimo, 307), a experiência de encenar em Porto Alegre deveria ser reeditada todos os anos tamanho o profissionalismo da equipe liderada pelo coordenador Luciano Alabarse.

Na montagem, Electra espera seu irmão Orestes chegar para, junto dele, darem fim aos assassinos de seu pai Agamenon. Os dois matarão Clitemnestra, sua mãe, e Egisto, amante dela. Clitemnestra morrerá pela mão de seus filhos mesmo confessando que tratara Electra mal durante seus últimos anos para que seu amor maternal não desagradasse o novo marido a ponto de fazer a enteada sofrer em suas mãos.

Em entrevista exclusiva ao Correio do Povo, Marisa fala sobre a montagem feita inicialmente por alunos da disciplina de Tragédias Gregas e depois por montada por 15 atores profissionais, entre os quais Gabriela Iribarren (presente em outra montagem de Marisa Bentancur no 14º Porto Alegre em Cena, em 2007, como Hécuba, em Las Troyanas), Lucas Barreiro, Rosa Simonelli e Gustavo Bianchi, e também sobre a importância da participação de espetáculos uruguaios no festival gaúcho.

CP - Esta montagem de Electra foi feita inicialmente por seus alunos da cátedra de tragédias gregas e teve um bom efeito. Qual a diferença entre aquela montagem e esta feita com a inclusão de atores profissionais como Gabriela Irribarren, por exemplo?
Marisa Bentancur -
A tragédia grega é fundamental, histórica, existencial e filosófica na formação de um estudante que quer dedicar sua vida à atuação, por ser, não só a origem do teatro, mas sua mais pura essência, o ritual e misticismo. Representando um desafio intelectual e técnico, e um encontro profundo com a arte interpretativa. Em nível acadêmico-formativo, representa uma ferramenta vital porque o ator-aluno propõe uma viagem a um tempo onde a interpretação oferece e promove interrogações. Buscando o homem que canta, o homem que dança, o homem sagrado, redimensionamento o sentido interpretativo, reelaborando temas e pondo à prova as capacidade de concentração, de risco e de análise. Gabriela Iribarren é uma das melhores atrizes do mundo e tenho a terceira oportunidade de trabalhar com ela. O primeiro espetáculo na qual eu a dirigi foi Las Troyanas, que veio também ao festival. Ela viveu Hécuba. Tê-la neste novo projeto representa uma oportunidade única para reaprender a profundidade dos personagens sobre-humanos através da depurada excelência excelência de uma grande intérprete.

CP - O que chamou a sua atenção neste texto para que decidisse montá-lo e qual é a atualidade do discurso de Sófocles?
Marisa -
Há sete anos que me dedico à investigação dos materiais trágicos e a cada dia eu me faço a pergunta: Por que a tragédia grega? Sempre surge uma resposta diferente, isto é o que continua a impulsionar-me: há sempre outros materiais para estudo, há sempre outras profundidades de sondagem. Sempre aparecem perguntas que possibilitam a análise e a investigação interpretativa e cênica, sempre se abrem novas portas. Hoje Electra, mais do que nunca, com seu forte apelo por justiça tornou-se um texto-chave. Em nosso país ainda há uma lei que deixa impune quem cometeu crimes contra a humanidade durante a ditadura. E no século V a.C. o gênio de Sófocles levou a nossa heroína a dizer frases como: "Que medida há para meus infortúnios? Como pode ser justo esquecer os mortos? Será que alguém pensa assim? Se há, não quero seu amor. Se o morto está deitado em seu túmulo e os culpados não são punidos, a virtude e a piedade morreram em todos os mortais"

CP - A montagem inicial tinha uma trilha sonora mais contemporânea, com músicas que iam de Enya a Björk. Como está a concepção musical, de figurino, luz e cenografia de Electra?
Marisa -
Este é a minha nona direção. Sempre trabalho com a mesma equipe técnica composta por artistas de alto nível em cada uma das suas áreas, o diretor de arte Adão Torres, Veronica Lagomarsino nos figurinos, Martin Blanchet na iluminação, Sylvia Meyer na trilha original e Rodrigo Peluffo no trabalho de preparação física e coreográfica. Sem dúvida, o material trabalhado com os estudantes deixou inúmeras contribuições, mas do intercâmbio com esse grupo de atores e técnicos surgiu a proposta que vai ser vista no festival.

CP - Por que a escolha do Porto Alegre em Cena para a estreia desta montagem, com atores profissionais? Que pensa você do festival, já que vocês vêm para cá com uma certa frequência?
Marisa -
Desde seu início, o festival internacional do Porto Alegre em Cena, com a direção do Luciano Alabarse, tem considerado o teatro uruguaio como parte inevitável da oferta cultural do mundo. Luciano tem uma profunda admiração pelos atores uruguaios e por toda a equipe que se dedique à investigação. Esses são os motivos que nos fazem encontrar novamente com a bela Porto Alegre, seu povo maravilhoso e seu bem-vindo festival. É uma experiência que gostaria de reeditar a cada ano, pelo profissionalismo dos técnicos, a responsabilidade dos coordenadores de áreas, o tratamento em cada restaurante ou hotel, tudo o que te faz falta quando você não está em Porto Alegre.

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