Arte & Agenda

(Re)Construção Cultural: Associação Conceito Arte trabalha para retomada de atividades

Espaço cultural localizado no bairro Sarandi, em Porto Alegre, foi severamente afetado pela enchente. Possível por meio de doações, reconstrução permitiu retorno gradual de projetos sociais

Joseane Marcílio, tesoureira da Conceito Arte, em frente ao espaço recém pintado
Joseane Marcílio, tesoureira da Conceito Arte, em frente ao espaço recém pintado Foto : Mauro Schaefer / CP Memória

As ruas do Bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre, ainda carregam marcas deixadas pela enchente que assolou a Capital em maio deste ano. Muros ainda estão com uma coloração marrom e diversas casas aparentam abandono. Na praça Oliveira Rolim, a Associação Social e Cultural Conceito Arte tem seu muro colorido recém pintado, sem marcas da catástrofe por fora. Registros e lembranças, porém, dão conta de retratar o que os voluntários do espaço criado há 10 anos viram há sete meses. Livros empilhados em cima de uma mesa, pertencentes à biblioteca Girassol, que integra o espaço, simbolizam os pequenos passos em direção à retomada completa das atividades da associação.

"Mesmo o Sarandi tendo histórico de alagamento e outras enchentes, da forma que foi em 2024, nunca tinha acontecido. A localização da Conceito Arte nunca tinha sofrido com enchente", diz Priscila Macedo, presidente e uma das fundadoras do espaço cultural, que viu as águas chegarem em sua vizinhança, sua casa e, na sequência, no local. “Foi como se nossa segunda casa também tivesse sido atingida”.

Em meio ao cenário de calamidade pública, Priscila e os demais voluntários decidiram criar uma campanha para ajudar as famílias moradoras do bairro que frequentavam o espaço. Antes mesmo de pensar em recuperar a Conceito Arte, já que não tinham acesso ao espaço, em um primeiro momento as doações buscavam auxiliar aqueles que tiveram perdas com a enchente. Por meio de uma chave pix do CNPJ recém criado para o espaço, foram arrecadados cerca de 13 mil reais. Com o valor, foi possível auxiliar mais de 20 famílias com R$ 500,00, além da compra de produtos de limpeza e donativos para as pessoas abrigadas. “Não temos como abraçar todo mundo, mas se a gente puder abraçar aquelas pessoas que estão ali e acreditam no nosso trabalho, já é de grande ajuda”, foi o pensamento que guiou Priscila à época. Além das famílias, a associação também ajudou instituições e movimentos de grafiteiros que lá trabalharam anteriormente e também foram atingidos.

Só no final de maio, foi possível adentrar ao espaço. O cenário foi, assim como em diversos espaços do bairro, devastador. “Chegamos aqui e estava um barro preto, uma gosma, e os livros todos caídos. Tu levantava o livro e chegava a ter um pelo de limo, de fungo, de tudo”, relata Joseane Marcílio, tesoureira da Conceito Arte. Segundo Priscila, as maiores perdas no espaço foram no acervo. “Ele estava todo catalogado, 80% do nosso acervo que foi construído através de compra de livros, então nós sempre tivemos os livros que compramos conforme era o perfil do nosso do nosso público, dentro de uma política também de aquisição de obras”, diz. Foram cerca de 1.500 obras perdidas e mais de 20 mil reais em prejuízos. Além dos livros, todo material de madeira, como mesas, estantes e expositores de livros, tiveram que ir fora. O mutirão de limpeza, organizado entre a Conceito e pessoas de fora, ONGs e movimentos sociais e culturais, iniciou quando muitos voluntários ainda nem podiam acessar duas casas. “A gente concentrou toda a nossa esperança em começar a recuperar aqui”, diz Joseane.

Livros doados para a biblioteca Girassol serão organizados em novos expositores e estantes | Foto: Mauro Schaefer

Recomeço

Como uma comunidade, o recomeço da Conceito Arte contou com muitas mãos. Joseane e Priscila lembram que tiveram muitas ajudas – nacionais e internacionais – para reconstruir o espaço. Além das doações do pix solidário, em junho, o Instituto Ling organizou a Feira do Livro Reconstrói RS, evento solidário para arrecadar obras e auxiliar o setor editorial afetado pela enchente. Com a feira, a biblioteca Girassol ganhou diversos livros, além de uma quantia em dinheiro para compra de novos. Outro grande auxílio foi do Museu da Cultura Hip Hop RS, que contemplou a associação com R$ 10 mil reais para reconstrução do espaço. A associação também recebeu apoio da Rede Beabah, conjunto de bibliotecas comunitárias que auxilia a tornar a leitura mais democrática e inclusiva – entre elas, a biblioteca Girassol. Desde 2008, a rede atua em bairros socialmente vulneráveis do Rio Grande do Sul com auxílio de ONGs e sociedade civil. Por meio da Beabah, firmou-se uma parceria com Abel Ferreira, técnico do time de futebol Palmeiras, com doações para a compra de móveis perdidos na enchente. Atividades pontuais, como um sarau beneficente promovido com a Associação Alvo Cultural, de Porto Alegre, também ajudaram a impulsionar as doações para a Conceito Arte.

Aos poucos, a equipe tem se mobilizado para retomar atividades e iniciar novas. Entre as que começaram a movimentar o espaço, está o encontro com um grupo de idosos do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), que acontece, nas segundas-feiras, no espaço cedido pela Conceito Arte. Recentemente, Joseane retornou com mediações de leitura em escolas do bairro, que também custaram para reabrir por conta dos efeitos da enchente. Outra iniciativa literária são os encontros do clube do livro organizados em conjunto com o Museu do Hip Hop, que também abriga a biblioteca Divilas.

Além do espaço, a horta comunitária que era cultivada ao lado da Conceito Arte também foi afetada pela enchente e ainda não havia sido retomada. Em novembro, um mutirão entre os voluntários da Conceito Arte foi organizado com a ajuda da Casca Instituto Socioambiental. Além do objetivo final de voltar com o plantio, as atividades incluem compartilhamento de saberes sobre a agroecologia e o plantio sustentável.

A Conceito está localizada em um local periférico, que tende a ser mais vulnerável socialmente, sendo também mais suscetível a desastres. Para Priscila, é essencial que todas as esferas – municipais, estaduais e federais – auxiliem com políticas públicas para, além de evitar futuros desastres, fortalecer a cultura que tenta sobreviver nas comunidades. “A gente já tem uma falta de equipamentos culturais nas periferias, nós somos poucos, e, os poucos que existem, a gente sabe que atraiu o público geral para que eles também frequentem o nosso espaço. Não só a comunidade, mas quem queira usufruir desse espaço cultural. Existem muitos editais públicos e privados, mas escrever um projeto não é garantia, então a gente precisa, sim, de políticas públicas para conseguir algum recurso e dar continuidade aos projetos”. Para a presidente, trabalhar com a cultura em espaços como o bairro Sarandi é também fortalecer a comunidade.

Há 1 mês, foram plantados girassóis em frente à biblioteca, que tem nome Girassol por ter muitos na praça onde o espaço está instalado. As plantas cresceram mais rápido do que o esperado, ansiosas para florescerem novamente no solo que outrora foi inundado – tal qual a biblioteca, que anseia pela sua completa retomada.

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