Laura Copelli*
Os mais de 12 mil metros quadrados de área da Usina do Gasômetro ecoavam em seu espaço, praticamente vazio, a sinfonia característica de um canteiro de obras naquela tarde de quarta-feira. Mais de seis meses após ser atingido pela maior cheia do Guaíba já registrada, o complexo mantém poucas marcas do desastre climático que invadiu a estrutura. São tímidas marcas, nas paredes e tapumes que ainda não foram lavados ou pintados, que relembram os dias em que o prédio histórico testemunhou em primeira mão a subida das águas e os momentos de tensão em que serviu como base para os resgates de maio.
Prédio histórico de 1928, a Usina do Gasômetro está fechada desde 2017 para reformas que inicialmente almejavam uma transformação completa do local, com novas estruturas e remodelação interna. Com o projeto reduzido às reformas da edificação já existente, as obras, que se iniciaram em 2020, tinham previsão de finalização em 15 meses. Com diversos atrasos e novos prazos estabelecidos e divulgados, a revitalização do complexo cultural foi totalmente paralisada devido ao desastre climático e teve seu prazo de entrega novamente postergado.
O prazo de entrega do espaço para abertura ao público, com eventos pontuais, está previsto para dezembro, ainda sem finalização do quadro elétrico da estrutura, que tem expectativa de conclusão somente em março de 2025. A Smoi afirma que, na entrega prevista para mês que vem, o espaço já estará apto com energia e estrutura para receber o público em eventos pontuais a serem organizados pela prefeitura.
Segundo André Flores, secretário responsável pela Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi), atualmente o valor das obras da Usina atinge os R$ 21 milhões. O montante se refere ao projeto somado às perdas causadas pela água, estimadas em R$ 1 milhão, que envolveram a estrutura de banheiros, instalações elétricas, um elevador de carga e materiais de construção que não puderam ser retirados ou subidos para andares mais altos do espaço.
Para a mitigação de novos prejuízos em caso de futuros alagamentos, o projeto é desenvolver espécies de “comportas” em material impermeável, estruturas que serão adicionadas na parte externa de portas e janelas do andar térreo do prédio. Esse material funcionará como um espécie de dique, em blocos que serão empilhados de maneira encaixada em um “trilho” localizado nas aberturas e poderia ser totalmente montado em torno de toda a estrutura em pouco tempo. “O prédio tem quase 100 anos, então as esquadrias não seguem o padrão atual, são tijolos montados um a um, o que faz com que as aberturas tenham tamanhos únicos, por isso a montagem dessas estruturas em momentos de crise pode vir a ser manual” comenta o secretário.
Na obra, grande parte dos espaços recebeu novas estruturas para se adequar às normas de segurança e para melhor utilização do espaço. Mantiveram-se nesta reforma, pisos do andar térreo que são remanescentes da última grande obra do complexo, feita nos anos 1980, quando passou a ser utilizado como espaço cultural; tijolos de uso dos fornos ainda quando Usina Elétrica nos anos 1930; além de algumas escadas e estruturas metálicas que foram isoladas apenas para apreciação pois já não obedecem as regras de acessibilidade atuais.
Em locais como o já conhecido Teatro Elis Regina, o piso foi revitalizado em madeira com amortecimento específico para o uso durante espetáculos artísticos. Foram ainda modificados espaços para receber restaurantes, uma sala de cinema, camarins, salas multiuso, banheiros adaptados e elevadores nas duas pontas das estruturas.
Além da revitalização do prédio, a icônica chaminé da Usina, com 117 metros, receberá um projeto de restauração orçado inicialmente em R$ 124 mil, que ainda não tem previsão de início.
Iniciativa privada
Também em consequência das enchentes, a empresa São Paulo Parceiras, que foi contratada pela prefeitura de Porto Alegre para estudar e embasar o projeto de concessão da Usina, teve seu prazo prorrogado até julho de 2025 para realizar a análise. Sendo assim, o espaço não poderá ser aberto permanentemente pois ainda não terá uma equipe responsável pela manutenção e segurança contratada.
Sobre a concessão, Flores garante que os espaços como o Teatro Elis Regina e a sala, ainda sem estrutura para além das paredes e ar condicionado, prevista como cinema, serão utilizados com suas devidas finalidades. “O edital de concessão para a privada que ficar responsável pela manutenção e gestão da Usina vai garantir que o complexo receba o público com as atrações culturais para qual foi feito. O teatro será um teatro e assim por diante nos demais espaços”, afirma. A estrutura como iluminação específica, equipamentos e sistema de sonorização serão responsabilidades da concedida.
Usina do Gasômetro em obras
MACRS em expectativa para a inauguração
O ritmo de trabalho intenso no canteiro de obras que virá a ser a nova sede do Museu de Arte Contemporânea do RS (MACRS) não dá indícios do desastre que atingiu a construção seis meses atrás. Apesar disso, a marca da água permanece presente na parede à direita da entrada, marcando paineis que explicam o projeto, sua estrutura e o futuro do museu.
Localizado no 4° Distrito da Capital, o espaço servirá como sede definitiva da instituição, que atualmente funciona no 3° andar da Casa de Cultura Mario Quintana, e está em obras desde fevereiro deste ano. O projeto foi anunciado em 2023, mas teve processo de reformas interrompido pelas águas que atingiram o RS em maio. O espaço, que é uma reivindicação do museu há 30 anos, já pertencia ao governo do Estado e foi destinado para a Secretaria de Cultura (Sedac) em 2019, quando começaram os planejamentos para a obra.
A diretora Adriana Boff aponta que mudanças no planejamento da obra e da utilização dos espaços da sede foram repensadas após o desastre climático que impossibilitou o acesso por cerca de 20 dias. “Existia uma proposta de trazermos o acervo para a nova sede no futuro, mas com os acontecimentos, o mais seguro é manter nossa reserva técnica no local atual, segura e no terceiro andar da Casa de Cultura”, conta a dirigente do MACRS.
As perdas do espaço se limitaram a materiais da obra que não puderam ser movidos a tempo, como sacos de cimento, placas de drywall e equipamentos de segurança. Com a previsão de subida das águas do Guaíba, a equipe foi até o local para subir e retirar do espaço ferramentas para minimizar perdas.
No espaço do jardim, estão instaladas três obras do acervo: o mural da artista Mirella Andreotti, escultura do artista Patricio Farías e mosaico da artista Sul Marcon. Ao fundo, assim como na entrada do espaço, a marca da enchente é visível nos muros que circundam o terreno e onde estão situados os trabalhos artísticos atingidos. “Realizamos um processo de limpeza e reparo nas obras, já eram planejadas para o espaço externo, então não houve perdas pelo contato com a água” afirma Adriana. No projeto do jardim, que abrigará área gourmet e educacional, estão dois bondes a serem restaurados e ocupados, para uso em atividades ao público.
De acordo com a gestão da Instituição, realizada pela Sedac, um plano de contingência para todas as instituições afetadas está sendo elaborado, para evitar novas perdas caso um novo desastre venha a acontecer. No Macrs, Adriana aponta que o necessário é pensar em estratégias de evacuação e minimização de perdas, com móveis que não sejam fixos e com materiais de maior duração e fácil substituição.
Em maio, as obras da Instituição estavam com 20% do projeto executado e a previsão de finalização sete meses a contar de seu início, em fevereiro. Com a paralisação, a nova data de inauguração é prevista para o dia 15 de março de 2025, em comemoração aos 33 anos do museu, inaugurado em 18 de março de 1992.
MACRS 4º Distrito
*Supervisão de Luiz Gonzaga Lopes