Charles Leale, formado em Medicina seis semanas antes do atentado, indicou em um depoimento escrito poucas horas depois do fato que ele estava no Teatro Ford, em Washington, no dia 14 de abril de 1865, a cerca de dez metros de distância do presidente. "A apresentação da peça “Our American Cousin” (Nosso Primo Americano), seguia agradavelmente o seu curso, quando, de repente, ouvimos claramente um tiro. Um minuto depois, vimos um pequeno homem saltar (do camarote) no palco", escreveu o médico que desconhecia até então a identidade do assassino John Wilkes Booth. "Houve gritos: 'O presidente foi assassinado!', e depois 'Matem o assassino'", contou o jovem médico, que foi "levado às pressas para o camarote". "Assim que a porta se abriu e eu entrei, fui apresentado a Sra. Lincoln que disse: 'Oh doutor, faça o que puder por ele, faça o que puder'. Eu respondi que faríamos o nosso melhor", escreveu.
O jovem, o primeiro médico a chegar no local, descreve em seguida, de maneira muito clínica, o estado do presidente, como ele localizou a bala em sua cabeça e pediu por "água oxigenada e água". Os médicos oficiais decidiram levar Abraham Lincoln para uma casa próxima dali, onde "colocamos o presidente na diagonal em uma cama, que era muito pequena", escreveu Charles Leale.
Após examinar o ferimento, "nada mais foi feito, além de impedir a coagulação do sangue", prossegue o relatório, relatando o pulso intermitente do presidente e sua respiração cada vez mais difícil. "Às 07h20, ele deu seu último suspiro e sua alma voou para Deus", acrescenta a testemunha.
Para Daniel Stowell, diretor da associação, este relatório é notável “porque é um testemunho feito naquele mesmo momento, de maneira comovente. Podemos sentir como Leale e outros médicos sentiram-se impotentes, mas, ao mesmo tempo, não afundaram no sentimentalismo", disse.
Abraham Lincoln (1809-1865), um dos presidentes americanos mais admirados - e o primeiro a ser assassinado - foi eleito algumas semanas antes do início da Guerra de Secessão e morto cinco dias após o fim oficial do conflito entre o norte e o sul. Ele permanece na história como aquele que assinou a emancipação dos negros e que levou à abolição da escravatura. O assassino John Wilkes Booth, morto a tiros duas semanas depois pelo exército, era um defensor do sul.
Charles Leale enviou, em julho de 1867, uma cópia do seu relatório, escrito pela mão de um secretário, para a comissão da Câmara dos Deputados encarregada de investigar o ataque, e nada mais foi dito sobre ele. Apenas uma alusão foi feita em 1909, 44 anos depois, em um discurso para marcar o centenário do nascimento do presidente assassinado. O relatório pode ser lido nesta página.