O filme, um dos 22 longas-metragens em Cannes, é uma adaptação do romance do escritor americano Don DeLillo, publicado em 2003, mas que Cronenberg considera premonitório por evocar a crise do capitalismo e a ganância fora de controle. "Cosmopolis" retrata um dia da vida de Eric Packer, um "filho dourado" de Wall Street, arrogante e cínico, que percorre as ruas de Nova Iorque para ir a seu cabelereiro, no bairro onde cresceu, no dia em que o presidente dos Estados Unidos está na cidade.
Sua viagem, que tem como plano de fundo a crise financeira e os protestos anti-capitalistas, algumas cenas foram filmadas durante as manifestações "Ocupe Wall Street", se torna uma odisseia, na qual Packer cruza com seus fantasmas e personagens, como o interpretado pela atriz francesa Juliette Binoche, que faz uma pequena aparição. "Toda a jornada do protagonista é uma busca pela libertação. Ele está preso em sua própria limusine, tentando escapar de sua vida", explicou Cronenberg aos jornalistas, durante a apresentação do filme à imprensa.
O ator ressaltou que para interpretar Parker precisou se deixar levar pelo "lirismo e pelo ritmo dos diálogos" do roteiro. "Escrevi o roteiro em apenas seis dias", um recorde, "graças à estrutura e aos diálogos do livro (de DeLillo), que são fantásticos", disse Cronenberg na entrevista coletiva à imprensa, onde esteve acompanhado pelo elenco do filme e do próprio escritor Don DeLillo. O diretor ressaltou o trabalho do jovem ator, ídolo de milhões de adolescentes, que adquiriu profundidade e modificou completamente sua imagem para o filme, no qual atuam também Paul Giamatti, Sarah Gadon, Samantha Morton e os franceses Juliette Binoche e Mathieu Amalric.
Cronenberg, com cerca de 20 filmes em seu currículo, filmou muito próximo do ator, que quase nunca sai de sua limusine, seu universo construído para lidar com o mundo a sua maneira... até que aposta na desvalorização do yuan, moeda chinesa, erra, e decide destruir tudo o que ele construiu. "Para mim, a essência do cinema são os rostos falando, não são os grandes espaços abertos, as paisagens, como o Grand Canyon", afirmou Cronenberg, ressaltando que nos últimos 22 minutos do filme resumiu o que para ele é o "essencial": "uma pessoa falando" .
Os últimos 22 minutos de "Cosmopolis" mostram um longo diálogo, filmado em primeiro plano, em que Packer viaja para a destruição. Assim também termina o livro de DeLillo. Esta não é a primeira vez que o diretor traz para a tela uma obra literária. Ele fez o mesmo com "O almoço nu", de William S. Burroughs, e "Crash", de James Ballard.