Idealizado pela artista Larissa Luz, o espetáculo “Rock In Gil” é a montagem que vai fechar mais uma edição do Palco Giratório em Porto Alegre. A apresentação está marcada para às 20h desta quarta-feira, no Teatro Simões Lopes Neto (rua Riachuelo, 1089, Centro Histórico). Ingressos no site do evento. Misturando uma homenagem ao cantor Gilberto Gil e a personalidade de Larissa, o “Rock In Gil” tem releituras de clássicos da música brasileira. Em entrevista ao Correio do Povo, a artista conta detalhes da produção.
“Rock in Gil” homenageia a obra de Gilberto Gil. Como surgiu a ideia desse espetáculo?
Surgiu de uma inquietação antiga minha com essa faceta roqueira de Gil que às vezes não é tão lembrada quando as pessoas falam da obra dele. Gil sempre foi um artista profundamente experimental, livre, elétrico. Existe um Gil psicodélico, distorcido, provocador, que conversa muito com a minha formação também, porque antes de tudo eu vim do rock. O espetáculo nasce desse encontro entre a minha memória afetiva, minha identidade artística e essa liberdade criativa que Gil sempre representou pra música brasileira.
Qual a sensação de homenagear Gilberto Gil logo após o término da turnê “Tempo Rei”?
Muito simbólico. “Tempo Rei” reforça a dimensão histórica e humana de Gil pra cultura brasileira. Então fazer esse show nesse momento aumenta ainda mais o peso afetivo e artístico da homenagem. Existe uma emoção coletiva muito forte atravessando a obra dele agora. Ao mesmo tempo, não quis fazer um espetáculo contemplativo ou nostálgico, já que o que me interessa é mostrar como a obra de Gil continua viva, moderna, inquieta e extremamente conectada com o presente.
No repertório tem alguma música autoral?
O foco principal é a obra de Gil, mas inevitavelmente minha identidade aparece nas releituras, nos arranjos, na forma como essas músicas são atravessadas pelo meu universo sonoro. O show funciona quase como um diálogo entre nós dois. Faço duas músicas minhas que dialogam com o universo do show. Dessa vez vou fazer uma já do disco em primeira mão que vai acabar de ter sido lançado, em celebração ao lançamento.
O Palco Giratório tem um histórico de circulação cultural pelo país. Qual a importância de levar esse show para diferentes cidades e públicos?
A circulação é uma das coisas mais importantes pra mim. O Brasil é muito diverso e cada território escuta a música de um jeito diferente. Isso transforma completamente o espetáculo. Além disso, Gil é um artista que atravessa gerações, regiões e linguagens. Poder levar essa leitura roqueira e afro contemporânea da obra dele para diferentes públicos também é uma forma de ampliar repertório, provocar novos olhares e criar conexão entre memória e futuro.
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Como a tua música se insere no movimento afrofuturista? Quais são as inspirações?
Pra mim, o afrofuturismo não é só uma estética. É uma ferramenta de reinvenção do imaginário, uma possibilidade de pessoas negras se enxergarem para além dos lugares historicamente impostos. Minha música mistura ancestralidade, tecnologia, distorção, performance, ritual, ficção e realidade justamente porque eu gosto de tensionar essas fronteiras. Minhas inspirações passam por música preta diaspórica, pelo rock, pelo candomblé, pela cultura baiana, por artistas como Grace Jones, Sun Ra, Elza Soares e pelo próprio Gil, que sempre foi um artista muito futurista também.
Além da cantora, tem outras facetas da Larissa Luz nesse espetáculo?
Tem muito da Larissa diretora, performer, atriz e pensadora de cena. Eu penso o show como narrativa, como experiência visual, corporal e sensorial. Existe uma construção muito forte de imagem, iluminação, dramaturgia, movimentação e discurso. Não é só sobre cantar músicas. É sobre criar uma atmosfera onde o público consiga atravessar essa energia do rock, da liberdade e da invenção que a obra de Gil provoca.
Depois de “Rock in Gil”, quais são os próximos projetos?
Estou mergulhada no lançamento do álbum “Desmonte”, um trabalho muito atravessado pelo rock, pelas sonoridades afro-baianas e pela ideia de desmontar estruturas internas, sociais e políticas pra reconstruir outras possibilidades. Também sigo com a circulação de “Torto arado - O Musical” e novas pesquisas visuais e audiovisuais. Tenho pensado muito em como expandir a experiência da música para outros formatos de narrativa e performance.
* Sob supervisão de Luiz Gonzaga Lopes