Eles mataram dragões, mobilizaram uma revolução de monstros, derrubaram um império escravagista, criaram e destruíram deuses. Mais que isso, em 25 anos criaram um universo que rivaliza com os maiores mundos de aventuras do planeta: "Tormenta". A equipe que começou décadas atrás na Dragão Brasil, hoje reforçada na editora Jambô, abastece as aventuras de centenas de milhares de jogadores. Para comemorar, foi lançado um financiamento coletivo de dois novos livros - "Deuses de Arton" e "Heróis de Arton", para dar novos caminhos e desafios para os desbravadores do RPG brasileiro.
"A ideia desses livros, são todos muito brasileiros", explica a editora-chefe da Jambo, Karen Suarele. "É algo que não poderia existir em outro país. Tudo tem muito a nossa cara. Basta ver o quão diversos são os personagens, as opções de criação de história", destaca. Segundo ela, o público de Tormenta é muito crítico, mas ao mesmo tempo acaba sendo uma parceria no desenvolvimento e expansão do universo. Além de dar essa "cara" brasileira.
JM Trevisan criou esse universo ao lado de Marcelo Cassaro e Rogerio Saladino. A essência que surgiu das mentes do trio, agigantou-se com a chegada de novos romancistas ao longo do tempo, como Leonel Caldela e Karen; temperado pelo público, suas sugestões e desejos de ampliar as possibilidades dos personagens. "Tem muita influência medieval, mas tem também clássica romana, oriental/japonesa. E claro que tem coisa do Brasil também", aponta Trevisan. "Tem um reino que a principal estátua surgiu de uma viagem que fiz para Fortaleza", revela.
"Eu não lembro o ano que foi. Mas existe lá uma estátua em homenagem ao Dragão do Mar, que é uma personalidade da história de Fortaleza. A figura do cara (Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde) de tamanho natural", detalha o editor. "E aí eu falei para um pessoal que estava comigo. Vou fazer isso aqui em Tormenta e vou fazer uma homenagem. Colocamos no jogo. Então quem é de Fortaleza sabe que foi por causa disso. Tem easter eggs da realidade", brinca.
O Rio Grande do Sul, além de sediar a editora, também levou um pedacinho do mundo de Arton para cuidar. "Existe um reino que é praticamente gaúcho, que é Namalkah. É um lugar que os caras são cavaleiros, no sentido de gostar de cavalo, etc. Aí tem coisas mais amplas. Até as ilustrações, tem pessoas tomando chimarão. Então são coisas muito mescladas", comenta Trevisan.
"Na verdade é essa absorção de cultura contemporânea com a fantasia que o pessoal gosta de colocar no jogo", avalia. "É aquela fuga de realidade que é importante. A maior cidade, Valkaria, é praticamente São Paulo. E curiosamente, não foi escrita por mim, um paulista. "Foi escrita pelo Leonel, que é gaúcho e mora em São Paulo agora. Então tem todas essas misturas."
Evolução desde 1999
Esse grande projeto surgiu como um encarte de revista, "com umas 60 páginas", lá em 1999. "O Trevisan, com outros dois criadores, trabalhavam na Dragão Brasil, publicando um monte de conteúdo original. Naquele ano, resolveram juntar tudo o que já tinham publicado para lançar Tormenta. A partir de então, eles vêm fazendo 25 anos de publicações ininterruptas", conta Karen.
Conforme Trevisan, tudo começou na comemoração da edição 50 da revista Dragão. "Aí, a gente faz esse suplemento Tormenta, que é fininho, de 64 páginas, se eu não me engano, e entrega como brinde da revista. São impressos 20 mil exemplares desse suplemento, que é a maior tiragem de Tormenta até hoje, e isso serviu para espalhar muito", lembra. "E a gente teve circunstâncias muito adequadas. Além do material ser legal, a Abril tinha publicado o AD&D (Advanced Dungeons & Dragons, RPG mais popular do mundo), em português. Só que ela publicou os livros básicos e deixou o pessoal na mão, porque eles cancelaram na sequência, porque não vendeu o suficiente", pondera o criador de Tormenta. "Então, a gente tinha um monte de gente com livro básico, mas sem cenário pra jogar", afirma Trevisan.
"Junto a eles, chegaram mais criadores. Então, o Guilherme Dei Svaldi, o Leonel Caldela e o Rafael Dei Svaldi, ao lado do Trevisan e do Cassaro, são os criadores de Tormenta, as pessoas que encabeçam esse cenário, o cenário de RPG, o mundo de RPG é deles", destaca. "E, dentro de Tormenta, tem outros escritores, eu sou uma delas. Eu sou autora de dois romances em Tormenta, que é "A Joia da Alma" e "A Deusa no Labirinto".
O suplemento que virou mundo manteve a dinâmica desse universo próprio e a história evoluiu com as regras e manuais básicos, ao longo dos anos. "Eu escrevi A Joia da Alma e A Deusa do Labirinto, com personagens e eventos que causaram literalmente quedas de reinos", sublinha Karen. "Inclusive, 'Deusa do Labirinto' foi finalista do Prêmio Jabuti", acrescenta a escritora.
"Uma das grandes evoluções que o pessoal aprova, gosta muito, vem deste livro. A gente pegou o Império de Tauron, que era um império escravagista, que eram basicamente minotauros escravizando mulheres humanas e elfas; e a gente destruiu esse império de dentro pra fora", celebra Karen. "Hoje em dia nós temos outros vilões, que são os puristas. A gente deixa claro que o objetivo dos heróis do cenário é justamente enfrentá-los pra evitar que se dissemine o ódio e a comunidade também aprova a gente ter essa luta, que é uma luta do mundo real que acaba extrapolando para fantasia", avalia.
"Eu acho que é importante que, internamente, a gente destaque os vilões como vilões. Então, tipo, não é que não existe. Existem áreas cinzas", relata Trevisan. "Mas as áreas que são erradas, são erradas. Não é que não existe escravos, mas se existe escravo, a gente deixou muito marcado que se o cara tá escravizando alguém, ele é um vilão e ele merece apanhar. A gente tem os puristas que são, basicamente, supremacistas, eugenistas etc. Que é uma coisa que convergiu muito com a realidade de agora", reflete o criador. "No RPG é sempre bom deixar bem claro quais são seus adversários principais e, a partir daí, você pode construir algumas sutilezas, mas não com esses caras, entendeu? Então, a supremacia purista, com esse nome, inclusive, não existe áreas cinzas, a gente deixa muito claro. O cara não pode jogar com o supremacista, porque é errado", enfatiza Trevisan.
Um quarto de século na Tormenta
Os criadores de mundos de RPG surpreenderam e foram surpreendidos ao lançar em 2019 um financiamento coletivo que mudaria a história desse tipo de iniciativa no Brasil. "Bom, antes de falar de Tormenta 25 anos, é importante falar do Tormenta 20. Tormenta 20 foi a edição comemorativa de 20 anos do cenário", comenta Karen. "Eu tinha alguma experiência com financiamento dos meus livros e com essa questão de divulgar na internet e tracei um plano, que foi apresentado para a editora", cita. "Na verdade ela teve que trabalhar muito para convencer o Guilherme, eu, todo mundo, de não fazer um lançamento convencional", emenda Trevisan.
"E deu um pouco certo, né? Estourou, foi um sucesso muito maior do que a gente esperava, inclusive. Todo o motivo de eu querer fazer um financiamento coletivo é porque eu sabia que existiam muitos fãs de Tormenta espalhados por aí, mas até eles não sabiam", analisa a editora. "Cada um não sabia da existência dos outros. Então as pessoas muitas vezes pensavam: eu tenho aqui o meu grupinho e somos só nós'. Sendo que na verdade eles faziam parte de uma comunidade muito maior. E com esse financiamento coletivo a gente conseguiu reunir todo mundo. E foi uma festa incrível", comemora.
No total, arrecadaram mais de R$ 2,5 milhões para fazer o jogo e virou até um filme de curta-metragem. "Com isso fizemos muito conteúdo para o livro e fizemos o Curta de Tormenta. Que era uma coisa que a gente nem sonhava em fazer e foi possível pelo financiamento coletivo. O mais importante é a gente conseguir reunir as pessoas que tinham interesse comum.
Detalhes e cobranças
A criação de um mundo pode começar pequena, com algumas matérias em revistas, ou as chamadas "aventuras" ou os suplementos. Trevisan vislumbrava crescer o conteúdo, assim como Cassaro. "A gente queria, a gente acompanhava materiais gringos, e a gente sonhava muito em ter um material equivalente", lembra. "Comecei a plantar algumas sementes do tipo, quando isso virar um mundo, essa parte é minha", brinca.
"Eu criei um continente inteiro de monstros, com a história do Thwor Ironfist (um dos principais personagens de Tormenta), que era um bugbear (um tipo de monstro humanoide) que juntou as tribos de goblinoides e destruiu todos os humanos do continente, que virou um continente bestial", descreve. "Mas isso era uma parte e, na hora de fazer, a gente teve que pegar um conteúdo por vez e preencher espaços. Por exemplo, na hora de criar o panteão de deuses, varremos todas as revistas para ver quais já tinham sido mencionados e quais valia a pena manter", comenta. "Alguns deuses tinham uma frase num conto, tipo Nimbi, que é um dos deuses mais populares, a entidade do caos. Ele aparece num conto com uma citação nada a ver, bem curtinha, que só cita o nome, e a gente pensou que valia a pena manter", exemplifica o escritor.
E existem "entidades" que surgem de forma orgânica na interação com o público. "Numa sessão de RPG online que os guris jogaram, anos atrás, na chamada 'Guilda do Macaco', houve um evento que eles estavam num confronto com Goblins, aqueles monstrinhos bucha de canhão, para os aventureiros derrotarem", narra Karen.
"Era para eles morreram com um golpe só, mas alguém inventou de lançar um feitiço para enfraquecer um dos goblins", detalha. "Eis que o Guilherme Dei Svaldi, que era o mestre, descreveu a cena com o monstro falando: 'ai, estou fraco, vou ficar aqui nesse cantinho'", com aquela vozinha fininha. E as pessoas adoraram. Quando a gente fez uma enquete para saber que personagens deveriam aparecer em conteúdo de Tormenta, um leitor acrescentou o 'Goblin do Cantinho' como alternativa, e ele não saiu mais da mitologia de Tormenta", completa a autora, em meio a risadas.
Deuses, heróis, vão receber um grande complemento com os novos livros do financiamento coletivo. "Aqueles que lá em 99 os autores pararam para ver quais que entram, quais que saem, formaram o panteão de 20 deuses", aponta Karen. "Alguns, pelo caminho, a gente foi derrubando. Os fãs ficam discutindo quem vai entrar, quem vai sair. São os devotos, né? Quando derrubam um deus, tem que encarar os devotos", ironiza Trevisan.
"Então a ideia é justamente fornecer material pra que esses jogadores possam se aventurar em Arton", comenta Karen. "Você que é herói de Arton terá novas armas, novas magias, novos poderes, novas classes, distinções, que são regras específicas avançadas para os personagens. Então são dois livros que vão trazer muito conteúdo. E além disso nós temos novos materiais, como o novo escudo do mestre, novo baralho de poderes."