O dia da criança sempre foi mais do que uma comemoração para o Meme Estação Cultural, ao levar para a rua Lopo Gonçalves, no bairro Cidade Baixa, sua proposta, da união da educação com a arte. Os gestores do espaço acreditam que a arte é potencialmente transformadora e que adultos e crianças de todas as idades, classes sociais, gêneros, sempre tem o que aprender e trocar. Pra isso, propõe, desde 2010, uma festa lúdica, com muitas brincadeiras e apresentações artísticas, com o Rua da Criança. O projeto precisou de adaptações para acontecer durante a pandemia, priorizando a segurança da população e em função do financiamento da Lei Aldir Blanc, foi deslocado de outubro para junho, dada a necessidade de um respiro por parte do público infantil. Outra novidade é que das 16h às 18h, na quadra entre a Lima e Silva e a José do Patrocínio, os transeuntes poderão assistir de seus carros, bicicletas ou mesmo caminhando pela rua, as apresentações artísticas. O importante é seguir e não permanecer no local, sempre observando os protocolos de segurança e distanciamento que a pandemia exige.
O evento com participações de convidados especiais – artistas do Meme, jovens da Incubadora Meme, os bailarinos de Butoh Ana Medeiros e Hiroshi Nishiyama, o grupo Semente de Baobá do Kilombo Morada da Paz, o Restinga Crew, entre outros. Tradicionalmente, a atividade encerra em uma grande ciranda, mas neste ano esta roda será ressignificada na forma de um cortejo, em que os organizadores e monitores, segurando uma corda para demarcar a distância segura, seguirão em caminhada pelo bairro. O toque de tambores se fará soar, ritmando o percurso, em sintonia com os corações emocionados e afinados com tudo de belo que a infância evoca em todos.
Haverá uma sinalização na esquina da José do Patrocínio com a Lopo Gonçalves, para estimular aqueles que fariam uso da rua com pressa, desviem sua rota. Ao mesmo tempo, em destaque, faz-se um convite à redução da velocidade de passagem e distanciamento – fundamental a um passeio lúdico. Ao longo de um trecho de cerca de cinquenta metros, próximo ao Meme, na Lopo Gonçalves, estarão estruturas grafitadas, evocando o imaginário lúdico, ornamentadas com fitas, bonecas de pano, dobraduras e símbolos homenageando as pessoas que partiram. Esses objetos foram confeccionados em oficinas virtuais abertas ao público realizadas em maio, com a condução das artistas Maria Clara, Lisbet Pinheiro e Chana Manica.
“Em 2021 o Rua da Criança humildemente coloca de lado seus objetivos principais para dirigir seu olhar à situação atual que estamos vivendo, com um olhar silencioso e profundo, onde o que se quer é reverenciar nossos antepassados e prestar uma singela homenagem aos que partiram recentemente - já são mais de 460 mil mortos pela Covid-19! As crianças foram convidadas a participar desta homenagem conosco”, afirma o coreógrafo Paulo Guimarães, idealizador e gestor do espaço. Ele conta que foram realizadas três oficinas com os pequenos e suas famílias. A primeira foi de dobraduras, onde a inspiração foram os Origamis e a lenda dos tsurus, que diz que se produzirmos mil tsurus o desejo se realizará. “E nosso desejo é: Vacina para Todos”, afirma. A segunda foi de bonecas de pano abayomis: reza a lenda que eram feitas pelas mães negras que vinham nos navios negreiros escravizadas com seus pequenos e, para distraí-los, evitando que chorassem e fossem maltratados, confeccionavam pequenas bonecas feitas com nós em retalhos de suas vestimentas. A ministrante, Lisbet Pinheiro, explica que como a maioria dos pequenos não resistiam aos maus tratos, é mais provável que as mães confeccionassem as bonecas para homenagear os filhos perdidos, escondendo-as em seus cabelos. A terceira foi de bonequinhas de pano com sementes, que simbolizam a fertilidade e a esperança, pois, ao serem cuidadas e regadas, as sementes germinam e crescem, dando frutos para saciar toda espécie de fome. As dobraduras e as bonequinhas de pano estarão ali, penduradas na rua, resistindo ao tempo e à ação de quem passa, como um símbolo, uma lembrança da mesma rua que já esteve lotada de crianças brincando com seus amigos, pais, avós, sem discriminar ou excluir porque a rua é um espaço público e deveria ser para todos’ complementa Paulo.