Arte & Agenda

Skillet excede expectativas em Porto Alegre

Banda de rock americana toca hits de diferentes épocas em apresentação frenética<br />

Show durou 1h20min no Opinião com performance intensa
Show durou 1h20min no Opinião com performance intensa Foto : Divulgação / CP
Uma banda existe por causa de seus fãs. E o Skillet (ou seria "a" Skillet? Nunca soube) é daquelas que se mostram muito cientes desse fato. Pela primeira vez em Porto Alegre, o grupo americano era aguardado pelos gaúchos com grande ansiedade - e até uma certa incredulidade, do tipo "será verdade mesmo que eles vêm aqui no nosso quintal?". Eles vieram, e deram exatamente o que o público esperava, na última quarta-feira, no Opinião: um show marcante, intenso, inesquecível. E ainda um pouco mais.

Pela relação afetiva com o público cativo da banda, já se imaginava que haveria um componente emocional forte. O que surpreendeu foi a qualidade da performance. Um grupo de rock que começou com um perfil adolescente, letras voltadas ao público jovem, flertando com a onda emo e abusando do visual gótico (este último presente até hoje) se apresentou como uma banda madura, profissional e demonstrando altíssimo nível técnico.

Desde que os membros "extras" da banda, o violinista Jonathan Chu e o violoncelista Tate Olsen, tomaram o palco às 21h em ponto, ficou claro que ninguém estava ali para brincadeira. A abertura, com uma introdução só de cordas para Whispers In The Dark, clássico do álbum "Comatose", de 2006, enlouqueceu o público, que não teria mais descanso durante a 1 hora e 20 minutos seguintes. O apelo feito pelo frontman John Cooper ao entrar ("Brazil, make some noise!") foi totalmente desnecessário.

A presença de palco do quarteto, aliás, é um caso à parte. Com seu baixo em punho ou sem ele (em algumas faixas o baixo vinha no playback), John tem o povo na mão. Interage, conversa, ri, brinca. Seu timbre de voz rasgado tão característico - afinado e sem playback na apresentação ao vivo, contrariando boatos - comanda a festa. Apesar de que a plateia cantava tão alto que às vezes era difícil de ouvi-lo.

Ao lado dele, a esposa e fiel escudeira Korey Cooper é a mente brilhante fazendo funcionar toda a operação. Aos 43 anos, a primeira-dama faz a guitarra-base com um talento impressionante e uma pegada de dar inveja a muito guri. Ainda toca piano (alternadamente, é claro) e faz backing vocals ocasionais, esbanjando classe. Fora dos palcos, ela é quem elabora as tracks com efeitos e também ajuda a escrever os arranjos de cordas.

Ao fundo, outro grande destaque vai para a queridinha da galera: Jen Ledger, baterista e vocalista. Sempre sorrindo e com carinha de boa moça, elegante num vestido preto, a inglesinha de 25 anos senta atrás dos tambores e se transforma num monstro. Quebra tudo, sacode a cabeça e ainda consegue cantar - e encantar, com o perdão do clichê de tiozão. O membro mais discreto é também o mais novo, Seth Morrison, responsável pela guitarra solo, que se juntou à banda na produção do último disco, "Rise", de 2013.

Sem nenhuma enrolação, o setlist parece ter sido cuidadosamente escolhido para estimular a catarse coletiva. É bomba atrás de bomba. Nada de baladas ou daquelas canções mais "deprê" que permeiam alguns álbuns. A segunda música é ainda mais antiga, e igualmente pesada: Forsaken, do disco "Collide", de 2003. A pressão segue intensa com Sick of It, do lançamento mais recente, e então Better Than Drugs.

Em 15 minutos, o Opinião inteiro já está suando em bicas. É a hora de uma brevíssima pausa nos riffs pesados para o único cover da noite, que pareceu meio sem propósito, por sinal: Wake Me Up, da banda Avicii. Os hinos voltam com Comatose e Awake and Alive, esta com direito a Jen Ledger cantando na frente do palco em uma introdução lenta sensacional. Não só ela, é claro. A casa inteira treme com o refrão "I'm awake, I'm alive / Now I know what I believe inside / Now it's my time / I'll do what I want cause this is my life". Depois é a vez de Those Nights, e em seguida, Not Gonna Die. Jen volta a deixar a bateria para o hit absoluto Hero.

O aspecto intimista de um lugar relativamente pequeno como o Opinião serve muito bem ao intuito de festa entre amigos. Há sempre no ar um clima de celebração. Celebração do que exatamente, com um público tão heterogêneo? A resposta parece estar em algumas das letras, que retratam explícita ou veladamente a fé cristã dos membros da banda. Entre a parcela da plateia que professa a mesma crença, a identificação é imensa. Muitos ali tiveram as canções do Skillet como tema de sua vida, desde a adolescência. Porém - e aí está uma das coisas mais legais sobre Skillet - os não-iniciados conseguem se sentir tão à vontade quanto os demais para curtir o som e até mesmo se apropriar das letras para diferentes assuntos da vida, sem aquela distinção chata que ainda reina no Brasil sobre "gospel" e "secular".

Talvez exatamente por isso, neste momento, John para por um instante para falar. Em dois minutos, faz uma pregação sobre a oportunidade de cada pessoa "não se sentir sozinha por nem mais uma noite". E aí canta "The Last Night", para delírio geral. Em seguida, dispara "It's Not Me, It's You" e aí duas bombas: a estrondosa "Rise", com a bandeira do Brasil em punho, e a pancadaria alucinante de "Monster". Luzes apagadas, pedidos desesperados, e eles voltam para o bis: "Circus For a Psycho" e o encerramento com "Rebirthing".

A performance é praticamente impecável, a pressão é intensa, e a única coisa a lamentar por parte do público é a duração curta. Mas talvez isso não seja um grande problema, afinal John se empolgou tanto com a receptividade do povo gaúcho que, ao fim de uma das músicas, praticamente prometeu voltar ano que vem. Se der certo, seus fãs estarão esperando ansiosamente. Afinal, eles sabem que é por causa deles que a banda existe.

Assista a trechos do show:


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