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“Sou muito crítico comigo mesmo”, diz Eric Meireles

Artista brasileiro vive desde 2022 em Portugal, onde atuou em novelas e campanhas publicitárias locais

No Brasil, Eric Meireles trabalhou em produções da Record como ‘A Terra Prometida’ e ‘Reis’
No Brasil, Eric Meireles trabalhou em produções da Record como ‘A Terra Prometida’ e ‘Reis’ Foto : Sara Saraiva / Divulgação / CP

Oator Eric Meireles acabou de gravar participação na novela “Terra Forte”, exibida atualmente na portuguesa TVI. Na produção, o artista carioca interpreta Isaac, um técnico de laboratório que se envolve em conflitos familiares muito maiores do que ele, vivendo dilemas fortes. Em 2026, o artista vai levar aos palcos de Luxemburgo a peça “A Gente na Boate Sofre Junto”, de Diego Bragà, já apresentada em Lisboa, em novembro do ano passado.

Bacharel em Teatro pela Universidade Cândido Mendes, o artista reside em Portugal desde 2022. Por lá, já participou da novela “Quero é Viver”, da TVI, e estrelou campanhas publicitárias locais. Antes disso, atuou nas novelas “A Terra Prometida”, “O Rico e Lázaro’’ ‘Jesus” e “Reis”, na Record. Com 15 anos de carreira e algumas peças teatrais no currículo, também é membro da companhia franco-brasileira "Les Trois Clés" (As Três Chaves), com a qual se apresentou em diversos festivais internacionais.

Estás morando em Portugal desde 2022. Por que optaste em se mudar do país? Do que sente falta do Brasil e o que assimilou de local?

A mudança para Portugal surgiu de uma vontade de expansão artística e pessoal. Eu sentia necessidade de me colocar em movimento, de testar outras possibilidades de trabalho e de vida fora do Brasil. Além disso, eu já conhecia amigos da época da faculdade de teatro no Rio de Janeiro que estavam vivendo aqui. Conversei bastante com eles sobre como funcionava o mercado no país, e esse contato prévio, esse acolhimento, foi fundamental para a minha adaptação em Portugal.

Do Brasil, sinto muita falta da família, dos amigos e da intensidade das relações, que são muito próprias da nossa cultura. Em contrapartida, aqui aprendi a valorizar a segurança, a qualidade de vida e o direito de ocupar a cidade com mais tranquilidade. Poder andar a pé, sentar num parque e viver o espaço urbano sem estar em constante estado de alerta é algo que muda profundamente a forma como a gente vive.

Atualmente, fizeste a novela Terra Forte, na TV portuguesa, que inclusive tem direção do brasileiro Edgard Miranda. Como foi a experiência? E o que pode contar sobre o personagem? Já tinhas trabalhado com Edgard?

Foi uma experiência muito especial. Eu já conhecia o trabalho do Edgard Miranda do Brasil e sempre admirei a forma sensível e precisa com que ele dirige atores. Nós já havíamos trabalhado juntos em novelas no Brasil, como Jesus e O Rico e Lázaro, e reencontrá-lo agora em Portugal criou uma confiança imediata no set.

Em Terra Forte interpreto Isaac, um personagem que tem uma função dramatúrgica importante dentro da trama. Há uma sequência em especial em que ele age de forma benéfica para si mesmo e isso provoca consequências muito intensas ao longo da história. Saber que o personagem tem um peso real nos rumos da narrativa é algo muito estimulante para qualquer ator.

Há alguma diferença no trabalho ou no set das novelas do Brasil e de Portugal?

Existem diferenças, claro, sobretudo na escala de produção e no ritmo, mas também percebo uma aproximação cada vez maior. As novelas portuguesas estão caminhando a passos largos para uma linguagem muito próxima da brasileira, muito em função de diretores que fizeram grandes sucessos no Brasil e hoje dirigem em Portugal. Isso cria uma troca interessante: mantém-se uma identidade local, mas com um olhar mais internacional e uma dramaturgia cada vez mais ambiciosa.

O que aprendeste nesses anos trabalhando com arte na Europa?

Aprendi, principalmente, a me adaptar. Artisticamente, foi um exercício de compreender a linguagem portuguesa de fazer teatro, televisão e publicidade, a escutar mais e a ajustar o meu instrumento como ator a contextos diferentes preservando a nossa espontaneidade e musicalidade. No plano pessoal, viver fora é um motor constante de crescimento: te tira da zona de conforto, te obriga a se reinventar o tempo todo e a olhar para si mesmo com mais profundidade. Viver fora trouxe uma grande maturidade.

Pensa em voltar a atuar no Brasil?

Com certeza. O Brasil é a minha casa e sempre será um lugar onde eu quero trabalhar. Tenho o desejo de construir uma carreira que dialogue com os dois países. Hoje, com a consolidação das self tapes depois da pandemia, essa ponte ficou muito mais viável, e tenho feito testes tanto para produções brasileiras quanto portuguesas.

Em teu seu currículo constam trabalhos nas novelas Jesus, Reis e O Rico e Lázaro, todas na Record. Como é trabalhar em projetos bíblicos? E como foram essas experiências?

Os projetos bíblicos exigem um tipo de entrega muito específica. Existe uma responsabilidade grande com o conteúdo simbólico e histórico das histórias, mas também um rigor técnico que atravessa todo o processo. São produções de grande escala, que pedem preparação física, disciplina e um trabalho corporal mais preciso.

Cada uma dessas novelas contribuiu de forma diferente para a minha formação, mas O Rico e Lázaro foi especialmente marcante. Além da densidade dramática, o projeto me permitiu desenvolver habilidades novas, como o treino de lutas com espadas e uma preparação física mais intensa, o que ampliou significativamente o meu repertório como ator.

Quais teus sonhos profissionais?

Tenho o desejo de continuar transitando entre diferentes linguagens, televisão, teatro e cinema e de trabalhar em projetos que me desafiem artisticamente. Também sonho em fazer mais produções internacionais e personagens que fujam do óbvio, que me coloquem em lugares menos confortáveis como ator.

És muito crítico? Costuma assistir o resultado da tua atuação?

Sou muito crítico comigo mesmo. Demoro bastante a gostar de algo que faço. Assisto ao meu trabalho com um olhar analítico, tentando entender escolhas, ritmo e presença em cena. Com o tempo, porém, aprendi a relativizar essa autocrítica e a transformá-la em ferramenta de crescimento, não de cobrança excessiva. Hoje consigo assistir com mais generosidade, entendendo que cada trabalho faz parte de um processo contínuo de amadurecimento artístico.

São 15 anos de carreira artística profissional. Como avalias essa trajetória? Te arrependes de algo? Pensaste em desistir de atuar?

Avalio essa trajetória com muita consciência e gratidão. Constantemente faço o exercício de olhar para trás e entender o caminho percorrido. Saí de uma cidade que, na época, tinha pouco mais de 20 mil habitantes, onde a cultura sempre foi muito valorizada, e foi justamente esse ambiente que me deu base para chegar até aqui.

Não carrego arrependimentos. Houve momentos difíceis, de dúvida e de instabilidade, como acontece com qualquer artista, mas nunca pensei seriamente em desistir. Pelo contrário: cada obstáculo reforçou a certeza de que esse é o meu lugar. Tenho uma gratidão imensa por ter conseguido realizar o sonho da minha avó, que desde o momento em que decidi ser ator queria muito me ver na televisão. Isso dá um sentido ainda mais profundo a toda essa caminhada.

Podes adiantar quais os próximos projetos?

Além da continuidade dos trabalhos em audiovisual entre Portugal e Brasil, em 2026 daremos continuidade ao espetáculo A Gente na Boate Sofre Junto, com temporada em Lisboa e outros países. É um projeto criado pelo Diego Bragà, muito potente, que tenho muito carinho e orgulho de fazer parte. Também sigo aberto a novos convites para televisão, cinema e teatro.

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