"É o única personagem que dirigi que não é incomum", declarou Spielberg em coletiva de imprensa em Paris. "Tintin tem uma certa pureza. Não tem um mundo secreto, não tem uma agenda oculta. Em cada historinha, ele se entrega totalmente a resolver o mistério", comenta o cineasta. "Quando o conheci, há quase 30 anos, fiquei encantado com seu mundo, seu humor. Senti que tínhamos muita coisa em comum", acrescentou.
"O que temos em comum é que nós dois gostamos de uma boa história. Como cineasta, gosto de contar uma boa história, e ele, como repórter, gosta de perseguir uma boa história", explicou ainda.
Segundo ele, seu maior problema era construir todo um mundo de personagens estranhos criados por Hergé, como Castafiori ou o capitão Haddock, por isso sabia que não podia fazer um filme com atores de carne e osso, ou apenas de animação. "Para ser fiel a Hergé e ao universo de Tintin, foi necessário esperar a aparição e desenvolvimento da tecnologia 'motion capture'", enfatizou. "Só esta técnica podia dar a flexibilidade necessária", explicou, por sua vez, Peter Jackson, o gênio por trás de "O senhor dos anéis" e que foi responsável pela parte técnica e estética do filme.
Já Gad Elmaleh, o único ator francês do filme, admitiu que seu ego sofreu bastante por trabalhar oculto por um personagem animado. "Pedi ao Steve que ligasse para minha mãe, que viu o filme ontem, e dissesse que sou de verdade no filme", brincou. "Mas também é muito interessante para um ator se esconder por trás de sua personagem", acrescentou.
Em compensação, o intérprete de Tintin, o britânico Jamie Bell ("Billy Elliot"), se disse contente com o trabalho escondido pela animação. "Vou poder sair para comprar pão sem que ninguém me reconheça".
"As Aventuras de Tintin: O Segredo do Unicórnio" teve sua estreia mundial no sábado, na capital da Bélgica - terra natal do célebre personagem criado há 80 anos por George Remi, mais conhecido como Hergé -, 30 anos depois de Spielberg pensar pela primeira vez em levar o personagem para o cinema.
O criador de "E.T." assegurou que Hergé teria gostado muito de seu filme. "É uma grande honra trazer Tintin para casa. Bruxelas é sua cidade natal", declarou no célebre diretor à imprensa antes da exibição do filme. "Hergé foi um grande artista, ilustrador e escritor. Foi um cineasta sem câmera", explicou Spielberg. "Acho que Hergé teria gostado do filme", acrescentou, enfatizando que sua prioridade foi respeitar o estilo e o espírito do quadrinho.
Spielberg estava fascinado desde 1981 pelo repórter de topete e sapatos esportivos, que o cineasta considera o antecessor de Indiana Jones, o arqueólogo da saga também dirigida por ele, um dos maiores sucessos da história do cinema. Críticos que já assistiram o filme em Paris consideram que a longa espera valeu a pena e que o diretor de "E.T." conseguiu captar a magia do herói que conquistou várias gerações de amantes dos quadrinhos.
O projeto de Spielberg de filmar Tintin, um personagem quase desconhecido nos Estados Unidos, foi uma aventura desde o início.
O diretor contatou Hergé em 1983, e o belga parecia entusiasmado em trabalhar com o americano, mas o criador de Tintin faleceu antes de um encontro. Foi a viúva do artista, Fanny, quem cedeu ao cineasta os direitos para levar o repórter ao cinema, em 2006, após árduas negociações.