Arte & Agenda

Spielberg filma a grande história americana no intimista "Lincoln"

Produção estreia no Brasil apenas em janeiro

Daniel Day-Lewis foi dirigido por Steven Spielberg em Lincoln
Daniel Day-Lewis foi dirigido por Steven Spielberg em Lincoln Foto : Robyn Beck / AFP / CP
Com "Lincoln", o cineasta Steven Spielberg lança um filme ambicioso sobre a abolição da escravidão nos Estados Unidos, apresentado como um retrato intimista do 16º presidente dos Estados Unidos, interpretado pelo britânico Daniel Day-Lewis. Exibido em outubro no Festival de Cinema de Nova York e, na quinta-feira, no encerramento do AFI Fest de Hollywood – que tradicionalmente marca o início da corrida pelo Oscar –, a produção estreia apenas em 25 de janeiro no Brasil.

Spielberg sonhava há mais de uma década com a ideia de dirigir um filme sobre Abraham Lincoln, assassinado em abril de 1865. "Sempre tive um fascínio pessoal pelo mito de Abraham Lincoln", disse o cineasta em uma entrevista coletiva em Los Angeles no fim de outubro, antes de lamentar que o personagem tenha sido reduzido a "uma espécie de estereótipo cultural nacional".

De maneira espantosa, o cinema não se interessa seriamente pela figura histórica do presidente desde 1939, quando John Ford dirigiu "A Mocidade de Lincoln", protagonizado por Henry Fonda. Para o projeto, Steven Spielberg decidiu não embarcar em uma biografia sobre a vida do homem de Estado republicano.

"Teríamos dilatado muito, tanto os criadores como os atores", afirmou o cineasta, vencedor de três prêmios Oscar.
"Teríamos mostrado apenas os momentos-chave, as grandes frases, sem poder mostrar a profundidade deste homem", disse.

Com a cumplicidade do roteirista e dramaturgo Tony Kushner, Spielberg decidiu concentrar a ação nos últimos meses da vida do presidente e mostrar seus esforços a favor do fim da escravidão, enquanto a guerra civil ainda devastava o país. O resultado é um filme de formato intimista, único na filmografia de Spielberg.

Rodado quase totalmente em cenários internos, sem grandes cenas espetaculares – com exceção de um campo de batalha no início –, o drama se concentra nos diálogos e nas atuações. No elenco estão ainda Tommy Lee Jones, que interpreta um defensor da abolição, Sally Field no papel de Mary, a esposa do presidente, e Joseph Gordon-Levitt como o filho Robert.

No papel de Lincoln, o britânico Daniel Day-Lewis tem mais uma interpretação brilhante e é presença praticamente certa na cerimônia do Oscar, em 24 de fevereiro em Los Angeles. O ator, que venceu duas estatuetas da Academia por "Meu Pé Esquerdo" (1989) e "Sangue Negro" (2008), é famoso por ser muito exigente ao escolher seus papéis.
Ele mesmo admitiu que hesitou por muito tempo a aceitar o papel de um "homem cuja vida foi mitificada a tal ponto que existe o risco de de não poder representá-la corretamente".

"Não sabia se poderia fazê-lo. A última coisa que queria era manchar irrevogavelmente a reputação do maior presidente dos Estados Unidos", explicou Day-Lewis. "Foi difícil de convencê-lo. Mas se ele tivesse falado não, eu não teria feito o filme", confirmou Spielberg.

O cineasta explicou que aguardou deliberadamente as eleições americanas (vencidas pelo presidente democrata Barack Obama) para a estreia do filme, evitando assim a politização do longa-metragem. "As ideologias políticas dos dois partidos (republicano e democrata) deram um giro de 180 graus em 150 anos. É tudo muito confuso, agora todos reivindicam a figura de Lincoln para seu próprio lado", resumiu. "O presidente representa cada um de nós e o que ele fez basicamente provocou todas as oportunidades que nós estamos desfrutando hoje em dia", concluiu o cineasta.





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