Arte & Agenda

Terror brasileiro narra horrores da escravidão

"O Diabo Mora Aqui" custou apenas R$ 250 mil e não usou leis de incentivo

Enrendo relembra um terrível senhor de terras do século 19 que se diverte torturando seus escravos
Enrendo relembra um terrível senhor de terras do século 19 que se diverte torturando seus escravos Foto : Youtube / Reprodução / CP
Que o gênero horror teen é muito bem-sucedido, todos sabem. Adolescentes gostam de sentir medo. Normal, portanto, que o cinema brasileiro passe a dele se ocupar, como é o caso de "O Diabo Mora Aqui", de Dante Vescio e Rodrigo Gasparini.  A produção gaba-se do caráter amadorístico do longa: teria custado meros R$ 250 mil e ignorado as leis de incentivo na captação de recursos. Isso não seria importante, se não fosse alardeado. Mas é. Apresenta-se, por esse despojamento financeiro, como filme feito "na garra" e com paixão pelo ofício, o que é a essência do espírito amador.

No entanto, tal precariedade não se vê na parte técnica. Ao contrário. Percebe-se, já nas primeiras cenas, a qualidade da fotografia, de Kauê Zilli. Tem intensidade nas sequências em que capta formigas e abelhas e expõe a concepção tirânica do vilão de que "rainhas devem ser domesticadas". Trata-se de um bom início.

O longa (80 minutos) tem também o mérito de mergulhar na tradição brasileira. No caso, a pior tradição, a maior mancha histórica do País, a escravidão, que lança suas sombras até hoje. O enredo relembra um terrível senhor de terras do século 19, um tal de Barão do Mel (Ivo Müller), que se divertia torturando seus escravos.

É nessa fazenda, agora no tempo atual, que os adolescentes se dispõem a passar um fim de semana legal. A propriedade agora pertence à família de um deles. Convida um casal de amigos e uma garota para um embalo. O menino conhece a história terrível que envolve a propriedade, pois foi criado ouvindo-a dos empregados. O tal Barão foi amaldiçoado pela escrava com a qual teve um filho. A escrava, para produzir o feitiço, teve de fazer o sacrifício do próprio bebê, cravando-lhe um prego no umbigo.

Os jovens Jorge (Diego Goulart), Apolo (Pedro Carvalho), Alexandra (Mariana Cortines) e Magu (Clara Verdier) fazem chacota com a tal história e não acreditam em nada, até que... Bem, é sempre assim quando os filmes mexem com temas do sobrenatural. O início naturalista, a dúvida inicial diante de alguns fenômenos, incredulidade que cobra seu preço à medida que começam a aparecer os fantasmas e espectros que moram na sombra.

No roteiro é que as coisas começam a pegar mal. Apesar do bom ponto de partida não encontra um desenvolvimento capaz de manter a atenção o tempo todo. Faltam ideias para sustentar mesmo um filme de corte sintético como este. Em razão do déficit da história rala, há que se preencher tempo com sustos, sangue e cenas cruéis em profusão. Não se está aqui no campo do terror psicológico, mas do horror explícito, ainda que matizado por uma ou outra boa ideia. Como, por exemplo, a garota que toma seus "remedinhos" contra algum distúrbio psicológico, mas mesmo assim continua a ouvir vozes, o que a faz duvidar da própria sanidade. Também se nota um desnível de elenco, contrastando os profissionais Ivo Müller e Sidney Santiago com a juventude dos demais. 

Em especial em termos daquilo que se chama de fatura cinematográfica, o bem fazer, que não se confunde com o esteticismo. Não se trata do "bonitinho" (José Mojica Marins não fazia filmes bonitinhos), mas o que alcança massa crítica para atingir o espectador em suas fobias e zonas de pânico.

De qualquer forma, ainda que às vezes toscamente realizado, sobra a O Diabo Mora Aqui essa boa intuição inicial, a de colocar a escravidão como horizonte de horror que paira sobre a sociedade brasileira. Esse é um espectro que não quer morrer.

Assista o trailer

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