Com 4 horas 15 minutos de duração, "Les Naufragés du Fol Espoir (Aurores)" é o mais recente trabalho da companhia francesa, inspirado no romance póstumo "Os Náufragos do Jonathan", de Júlio Verne. Com direção de Mnouchkine, tem dramaturgia de Hélène Cixous e trilha sonora original, executada ao vivo por Jean-Jacques Lemêtre, um dos integrantes mais antigos do grupo. Ambientado em 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, traz uma trupe fascinada pelo advento do cinematógrafo, que se aperta no sótão de um cabaré para rodar um filme, que ocorre dentro da peça. Ele retrata a história de emigrantes que, no final do século XIX, deixam o País de Gales e seguem para Austrália, mas acabam encalhando na Terra do Fogo, em pleno inverno austral, onde tentam forjar uma comunidade socialista. Os personagens são movidos por sentimentos de esperança, de uma sociedade que almeja os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, que se apresenta como importante inspiração dos encenadores.
Colaboradora há 30 anos do Théâtre du Soleil, Hélène, em sua adaptação da obra de Verne, se debruça sobre o período que antecedeu o grande conflito, com improvisações que culminam em uma história dentro da história. As aventuras do navio e seus passageiros, partindo do Cardiff em 1895, são narradas através de um filme mudo, rodado em 1914 por uma equipe ainda principiante, em um cabaré à margem do rio Marne, transformado em estúdio amador. As filmagens da alegoria do naufrágio acontecem em ritmo frenético, durante as cinco semanas de marcha para a guerra. O público acompanha três planos narrativos: as recordações de um dos atores do filme, pela voz em off de sua neta, abordando tanto as circunstâncias que envolvem o que se passa no set quanto o pano de fundo político da Europa pós-guerra; o cotidiano no estúdio improvisado no cabaré à beira do Marne; e as legendas da fita, rodada como seria apresentada nas salas de exibição - com os atores mexendo os lábios e se mexendo ao melhor estilo do cinema mudo. No palco, cenas de bravura, erotismo e dramas, que retratam um mundo em declínio e ao mesmo tempo em formação.
O espetáculo que estreou na França em fevereiro de 2010 possui legendas e narração em português. Por um custo adicional, os espectadores poderão degustar um menu elaborado especialmente para a ocasião. Ele será ambientado num espaço que reproduz sua sede, na periferia de Paris: a Cartoucherie, antiga fábrica de munição do exército francês. O espaço funciona como teatro, centro de pesquisa e residência artística para profissionais de diversas partes do mundo, que desenvolvem um projeto de artes cênicas que extrapola questões estéticas, dotado de caráter político e social. Ariane Mnouchkine segue uma metodologia baseada no trabalho colaborativo. As obras resultam do envolvimento de todos os integrantes, em todas as etapas de criação, executada por uma equipe multidisciplinar.
O Théâtre du Soleil veio à capital gaúcha em 2007, em sua primeira turnê pela América Latina, com "Os Efêmeros", também dentro da programação do Porto Alegre em Cena, que na ocasião ofereceu 60 espetáculos brasileiros e mundiais, incluindo o lendário Zé Celso Martinez Correa. O evento a cada ano se firma no cenário artístico, com produções de fôlego nas áreas de teatro, dança e música.