Acompanhando da banda de instrumentistas e vocalistas que entraram todos vestindo capas de chuva: Daniel Maia, produtor do disco, guitarrista e vocalista; Cristina Carneiro, tecladista e vocalista; Jarbas Mariz, percussionista, violonista, bandolinista e vocalista; Felipe Alves, baixista e vocalista; Ronaldo Bastos, baterista; e Lia Aroeira, cantora, Tom Zé entrou no palco do Araújo Vianna às 21h15min, já organizando um movimento de jovens que queria ficar em pé defronte ao palco, pedindo para que eles sentassem e respeitassem o público que estava atrás deles. O grupo depois ergueu faixar de protestos contra o “toque de recolher” em bares e casas noturnas e “praças vendidas” da cidade, mas se comportou bem.
Desde o início, Tom Zé falou da paixão por Porto Alegre. “Quando vocês se separarem, eu quero meu passaporte, porque eu sempre prestigiei o Rio Grande do Sul”, brincou Tom Zé, já disparando o primeiro sucesso do disco novo: “Apocalipsom A”, com rimas lúcidas tipo: “Conforme o cabra da peste / Chamado Bertolt Brecht”. A experiência transcendental seguiu com “Capitais e Tais” e a partir daí o show foi uma alternância de músicas calmas e agitadas, a cístole e a diástole, como o próprio Tom Zé definiu após cantar a erótica “Ogodô”, na qual precisava se vestir meio masculino, meio feminino, com uma calcinha por cima das calças.
A viagem sonora seguiu com a divertida “Maria Clara e o Motoboy” e com “Macho Enredo da Creche Tropical”. Enquanto Tom Zé tentava explicar o que era o mundo sem Aristóteles ou citando uma história das “Metamorfoses”, de Ovídio, para introduzir “Tropicalia Jacta Est”, dos versos: “Parassá penteu escuta cá / Parassá penteu escuta aqui / Quando Baco bicou no barco / Tinha Pigna, Campos in / Celso Zeopardo / Matinê par’o Delfin / Vi, vi, vi”, que fazem referências aos deuses Penteu e Baco, aos poetas concretos Décio Pignatari; Augusto e Haroldo de Campos, e a Zé Celso Martinez Correa. Com “Não Tenha Ódio no Verão”, Tom Zé encerrou a primeira parte do show, ensaiando a volta com o público. “Depois deste acabamento final, a gente sai e vocês pedem: volta, volta, volta”.
Não deu outra, o inventivo músico voltou ao palco e com dois bis de pouco mais de 30 minutos incendiou o palco e a plateia, com sucessos, alguns resultados de pedidos empolgados do público, como “2001”, “Xique-Xique”, “Augusta, Angélica e Consolação”, “Jimmy Renda-se” e “Vá Tomar”. Um dos pontos altos do bis foi justamente com “2001”, composta em parceria com Rita Lee, cantada em coro pelo público: “"Astronarta" libertado / Minha vida me ultrapassa / Em qualquer rota que eu faça / Dei um grito no escuro / Sou parceiro do futuro / Na reluzente galáxia”. Uma noite que o público agradeceu com aplausos entusiasmados e que Tom Zé também agradeceu por achar que Porto Alegre é um povo diferente que é “sempre visto em livrarias e cafés”. Um obrigado mútuo a uma noite tropical, tropicalista, de tropicaliberdade no Araújo Vianna.