As cartas nascem para a eternidade e as mensagens do whatsapp e muitos do e-mails para o momento presente – são efêmeros. Muitas correspondências tornaram-se fontes de informação, por estarem repletas de conteúdo cultural, polítco e social. Outras são confessionais e perpetuaram as relações entre familiares, amigos e amantes.
Em 2020, há as cartas que nascem do imaginário. Foi o que o Centro Cultural São Paulo propôs a 13 dramaturgos e dramaturgas. A ideia é que eles escrevessem crônicas fora da ordem - meio ficcionais, meio reais - a qualquer outro autor ou autora, de qualquer época. O resultado são 13 vídeo-cartas que iluminam circunstâncias, formas de empatia, de influência. Um diálogo imaginado com o passado.
Mario Bortolotto, dramaturgo, escritor, diretor, ator, compositor e vocalista da banda “Saco de Ratos”, escreve para o escritor e crítico de arte francês Guillaume Apollinaire, acometido pela Gripe Espanhola, em 9 de novembro de 1918.
Trecho: “Não, você não vai vencer o mal. Nós não vamos vencer o mal. 102 anos depois e não temos qualquer ilusão de derrotar o mal. O mal quase nunca perde. Você pode sentir os anjos fazendo cócegas nos seus pés. Dessa vez os “dias se vão e você vai embora”. O Sena vai continuar “fluindo em águas soberanas” e a noite virá “sem demora”.
Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=l2y3x82Z6ng&feature=emb_title
A escritora Cidinha da Silva escreve para Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977):
Trecho: “Na favela hoje, Carolina, você morre pelo vírus, pelos tiros da polícia ou pela falta de leito e respiradores nos hospitais.Nossa gente resiste, bravamente. O pessoal nas favelas, por conta própria, montou escritórios de gerenciamento da crise sanitária [...].Lamento dizer que as coisas pioraram em relação ao seu tempo, Carolina. Nossa gente está como sempre esteve, por sua própria conta".
Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=VNljknUkRoI&feature=emb_title