Leticia Pasuch
A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, referência entre os grupos de teatro no Rio Grande do Sul, está reunindo esforços para reconstruir o espaço de ensaios. O Centro Cultural Terreira da Tribo, administrado pelo coletivo localizado no 4º Distrito, chegou a acumular 1,5 metro de água. Figurinos, máscaras, instrumentos musicais, adereços cênicos, equipamentos de som e luz e livros que faziam parte do acervo ficaram embaixo d’água.
“Nesse momento, a gente está com a possibilidade de trabalhar inviabilizada”, lamenta a atriz e atuadora Tânia Farias. De acordo com ela, o espaço está “completamente inabitável”. O coletivo completou, em março deste ano, 46 anos atuando como centro de experimentação, pesquisa cênica e escola de teatro popular e usando as tradicionais performances como forma de resistência.
Além das perdas na sede, alguns atuadores precisaram abandonar suas casas porque foram tomadas pela água ou não havia mais água nem luz, que foi o caso de Tânia. Antes do desastre climático, a sede estava operando com toda a sua capacidade, com ensaios e oficinas para formação de atores na escola popular de teatro. O grupo também estava em cartaz com os espetáculos de rua “O Amargo Santo da Purificação” e “Umbu Tropical”. Ainda, uma apresentação agendada em um festival de Belo Horizonte. Agora, porém, estão sem o cenário e todo o equipamento necessário.
Entre os planos do grupo, estava o lançamento do Museu da Cena Ói Nóis Aqui Traveiz, com um acervo de figurinos datados da década de 1970 que marcaram o início do grupo, e que também iriam para um repositório digital. Mais de mil itens já haviam sido digitalizados, mas faltava ainda 10 mil. O espaço, localizado na rua Landell de Moura, na zona Sul de Porto Alegre, seria a sede física do museu.
Limpeza e reconstrução
Desde o dia 1º de junho, o coletivo está realizando um mutirão de limpeza e reconstrução do espaço. Em vídeos nas redes sociais do coletivo, uma montanha de lixo erguida à frente do local mostra o trabalho de quatro décadas sujo de lama. Um ato simbólico foi realizado no sábado para marcar o início do trabalho do grupo para se reerguer.
Buscando a retomada, a tribo também fará neste sábado uma apresentação do espetáculo "Manifesto de uma mulher de teatro" no Teatro do Sesc Alberto Bins, na agenda cultural de espetáculos gratuitos solidários promovido para auxiliar trabalhadores da cultura afetados pela enchente.
O grupo recebeu auxílio de diversas frentes da cultura, como o grupo de teatro De Pernas Pro Ar, de Canoas. Porém, como coletivo, ainda não recebeu recursos do poder público. O grupo está recebendo doações pela Associação dos Amigos da Terreira da Tribo, por meio da chave PIX 95.123.576/0001-52 (CNPJ).
“Nós não temos perspectiva de trabalho”
O que ainda faz Tânia perder o sono é a falta de perspectiva de trabalho e que a cultura seja invisível nesse período delicado. “Fico preocupada quando alguém diz que a situação dos artistas e trabalhadores da cultura e das artes não são importantes, como se nós não fôssemos pessoas que temos necessidade como quaisquer outras, e como se nós tivéssemos perspectiva. Nós não temos perspectiva de trabalho. A gente não sabe quando vai voltar a trabalhar porque nós não temos mais os meios de trabalho”, ela relata.
A atriz lembra que, na pandemia, os artistas receberam políticas e recursos aplicados para auxiliar naquele momento difícil, mas que agora nós há sequer os meios para trabalhar, pois muitos espaços nossos foram destruídos. “Que a gente não seja um escombro cultural daqui a alguns anos porque não se olhou para esse setor com o olhar atento que ele também merece. Todos [os setores] merecem, mas a gente sempre acaba ficando para depois. O primeiro recurso que se contingencia é o da cultura”.
Para Tânia, o setor artístico e cultural é fundamental pelo símbolo de afeto e comunidade que a cultura e a arte podem auxiliar, principalmente, em meio a uma tragédia. Por isso preza, mais ainda, pela sua retomada. “Nós somos trabalhadores. Se nós não tivermos esse olhar do poder público e dessas instâncias, a gente vai sucumbir”.