A atriz brasiliense Bia Borinn está no elenco do próximo filme de RuPaul que chega aos cinemas dos Estados Unidos no Dia dos Namorados. Paralelamente, ela interpreta Carmen Miranda no Restaurante Casa Ipanema, no lendário Biltmore Hotel, em Los Angeles. O convite surgiu a partir do interesse pelo projeto de Teatro Musical no qual ela encabeça “Carmen Miranda: The Queen of Samba”, em fase de pré-produção.
Em formato de Teatro de Revista, o espetáculo mostrará a chegada da artista ao Brasil ainda bebê até sua ascensão meteórica e conquistando o estrelato de Hollywood. Contendo 22 números musicais, o projeto ainda inédito para o público americano já rodou o Brasil por mais de cinco anos, tendo arrematado vários prêmios.
Em 8 e 9 de maio, a brasileira encarnou Marilyn Monroe na peça “Marilyn Times”, com texto de Sergio Roveri e direção de Chica Barbosa, cineasta mexicana-brasileira que mora em Los Angeles. O monólogo faz parte da mostra de solos Made In Brasil, em que artistas falam sobre mito digital, migração, identidade fraturada e iconografia pop, construindo retrato coletivo do que significa criar, sobreviver e ser visto longe de casa.
Com mais de 25 anos de carreira, Bia Borinn mora nos EUA desde 2017. Casada com o ator Eduardo Muniz, a artista é host oficial do Los Angeles Brazilian Film Festival e tem no currículo trabalhos no audiovisual americano, como a série “Tudo é Justo”, da Disney+ (direção de Ryan Murphy). Na produção de 2025, ela contracena com Naomi Watts e Kim Kardashian. Em “I Love LA”, da HBO, a artista atuou ao lado de Rachel Sennett e Leighton Meester. Já na Netflix, ela pode ser vista na série “Caçadores de Gringos”, que tem como diretor de fotografia Adrian Teijido, o mesmo de “Ainda Estou Aqui”.
Como é a experiência de viver da arte em outro país e idioma?
Não foi - e ainda não é - um caminho fácil. Muita gente olha para a mudança e imagina que você simplesmente chega e continua a carreira de onde parou, mas não funciona assim. É quase um recomeço do zero. Eu cheguei aos Estados Unidos pela primeira vez em 2014, em Nova Iorque, e depois me estabeleci em Los Angeles em 2017. No Brasil eu já tinha uma carreira construída, com mais de 15 anos de experiência. Mas aqui aconteceu algo curioso: como eu não tinha material em inglês, parecia que eu não tinha feito nada antes. Então, o primeiro passo foi ganhar confiança na língua. Logo depois, comecei a estudar e treinar acting com Harold Guskin, que foi coach de atores como Glenn Close e James Gandolfini. Foi um período muito desafiador. Difícil mesmo. Tive muitos momentos de dúvida, me questionei bastante e precisei reconstruir minha confiança. Aos poucos vieram os testes, depois a mudança definitiva para Los Angeles, o networking, entender como a indústria funciona aqui. E tudo isso enquanto construía uma família. Sem família por perto, foi ainda mais intenso. Tive um filho aqui em 2018 e, por muitos anos, a prioridade foi equilibrar maternidade, trabalho e adaptação. Eu costumo dizer que recomecei oficialmente há uns três anos, quando as crianças ficaram mais independentes. Foi quando consegui voltar com mais força para a carreira artística. Hoje voltei ao teatro, atuo em inglês, espanhol e português, faço parte do SAG e finalmente sinto que entendo não só o idioma, mas também a cultura e a dinâmica do mercado daqui. A maior lição que aprendi é que tudo demora para dar frutos. Existe um tempo invisível de construção que quase ninguém vê. E para quem imigra, esse tempo costuma ser ainda maior. Mas ele chega.
Como os brasileiros são vistos, atualmente, em Hollywood? Está mais fácil ou difícil conseguir oportunidades depois que produções nacionais ganharam prêmios pelo mundo?
Acho que houve uma mudança importante nos últimos anos. O audiovisual brasileiro ganhou mais visibilidade internacional e isso ajuda muito. Quando produções brasileiras começam a circular em festivais, ganhar prêmios e chamar a atenção fora do país, abrem portas não só para os filmes, mas também para os artistas. Ao mesmo tempo, ainda existe um desafio grande: muitas vezes o mercado coloca todos os latinos no mesmo lugar. O brasileiro acaba sendo visto como “latino”, mas nossa identidade é muito específica - temos outro idioma, outra musicalidade, outra história e uma diversidade cultural enorme. Hoje sinto que existe mais curiosidade e interesse pelo Brasil do que quando cheguei. Também vejo mais espaço para histórias brasileiras e personagens complexos, que vão além dos estereótipos. Isso é muito positivo. Mas eu não diria que ficou “fácil”. Hollywood continua sendo um mercado extremamente competitivo. Não basta o talento; é preciso construir relações, entender a indústria, dominar o idioma, fazer networking e ter persistência.
Quais dificuldades e as vantagens que os brasileiros têm na hora de conseguir uma oportunidade em Hollywood?
A maior dificuldade, na minha opinião, é que o brasileiro chega aqui precisando provar muitas coisas ao mesmo tempo. Não é só mostrar talento. Você precisa dominar o idioma, entender a cultura, aprender como a indústria funciona, construir networking e, muitas vezes, recomeçar a carreira do zero. Também existe a questão da representação. Até hoje os personagens latinos são escritos de forma limitada e o brasileiro acabava ficando “entre lugares”: não éramos exatamente vistos como americanos, mas também nem sempre nos encaixávamos no perfil latino tradicional que Hollywood imaginava. Além disso, existe o lado prático da imigração: vistos, burocracias, custos altos, falta de rede de apoio e, no meu caso, construir tudo isso com filhos e sem família por perto. Isso torna o processo mais lento e emocionalmente mais desafiador. Mas eu acho que o brasileiro tem vantagens muito fortes. O artista brasileiro costuma ser extremamente versátil. No Brasil, muitos de nós fazemos teatro, TV, cinema, dublagem, publicidade, damos aula, produzimos, escrevemos. Aprendemos a ocupar muitos espaços ao mesmo tempo. Isso acaba sendo uma grande vantagem aqui. Também vejo uma capacidade enorme de adaptação e criatividade. O brasileiro normalmente chega acostumado a criar soluções, improvisar e fazer muito com poucos recursos. E existe algo que Hollywood valoriza cada vez mais: autenticidade. O brasileiro tem uma identidade cultural muito rica, uma mistura enorme de referências, sotaques, ritmos e histórias. Hoje atuo em português, inglês e espanhol, faço parte do SAG e voltei ao teatro aqui nos Estados Unidos. Olhando para trás, percebo que aquilo que eu via como obstáculo — ser brasileira, imigrante e ter uma trajetória diferente — acabou virando parte da minha força.
Tens no currículo trabalhos em produções como “Tudo é Justo”, ao lado de Kim Kardashian, e “I Love LA”. Como foi poder fazer esses projetos? Algum bastidor?
Eu costumo dizer que Hollywood é como um castelo, quase uma aristocracia moderna, com muitos portões fechados. Você não entra de uma vez, vai abrindo portas e subindo degrau por degrau. Ou arrebentando as portas (risos). E uma coisa que percebi é que, mesmo quando você entra em um papel coadjuvante, se você é um ator experiente e traz camadas para a atuação, diretores e assistentes percebem essa diferença. Muitas vezes isso se transforma em mais confiança, mais cenas, mais tempo de tela e mais oportunidades para mostrar o trabalho. Isso aconteceu comigo em I Love LA. Eles procuravam uma atriz com perfil cômico e capacidade de improvisação, sem falas. Inicialmente eu teria apenas um close rápido, mas a cena foi crescendo e acabei ficando durante toda a sequência, improvisando com Rachel Sennott e Leighton Meester. Foi um momento muito simbólico para mim, porque mostrou que às vezes a oportunidade chega pequena, mas a experiência e a escuta em cena podem transformar aquele espaço. Acho que essa é uma das grandes lições de trabalhar aqui: talento é importante, mas consistência, preparação e permanência também são. Porque entrar já é difícil; continuar abrindo esses portões talvez seja a parte mais desafiadora.
E ter trabalhado em grandiosas produções americanas tem te ajudado a abrir portas?
Sim, ajuda. Hollywood funciona muito por confiança e histórico. Quando você começa a entrar em produções maiores, isso passa a fazer parte do seu currículo, do seu material e da forma como a indústria olha para você. Uma das primeiras mudanças que senti foi o aumento no número de testes. Aos poucos você começa a ser chamada para projetos maiores, para personagens com mais camadas e para salas que antes talvez nem chegassem até você. Também ajuda a construir relações. Aqui tudo é muito baseado em longo prazo. Você conhece diretores de elenco, assistentes, produtores, outros atores… e vai criando uma rede. É quase um trabalho de anos. Esses projetos também me ajudaram a dar passos importantes na carreira, como conseguir representação mais forte, com agente e manager mais alinhados ao momento que estou vivendo hoje. Mas acho importante dizer que não é algo automático. Hollywood ainda me parece um castelo com muitos portões. Um trabalho abre uma porta, o próximo abre outra, e assim você vai construindo espaço. O que mudou para mim foi que hoje já não estou mais tentando entrar pela primeira vez. Agora sinto que estou construindo relações e continuidade. E isso tem muito valor porque, depois de tantos anos de recomeço, maternidade, adaptação e reconstrução da carreira, finalmente começo a colher alguns frutos.
Estás encarnando Carmen Miranda nos palcos de LA. Por que levar aos americanos a história dessa artista brasileira? Como tem sido a repercussão?
O objetivo maior é montar o espetáculo Carmen Miranda: The Queen of Samba, dirigido por Kleber Montanheiro. Essa residência artística semanal em Los Angeles no casa Ipanema, no histórico Biltmore Hotel (onde Carmen foi a sua primeira cerimônia do Oscar em 1941), está sendo uma etapa muito importante do processo. Me permite experimentar a personagem diante do público, entender o ritmo, testar cenas, músicas e aprofundar a construção. Também existe algo muito simbólico nisso: a própria Carmen Miranda teve uma trajetória ligada a apresentações ao vivo, cassinos e espaços de entretenimento nos Estados Unidos. Então, de certa forma, essa experiência de fazer uma residência artística e estar semanalmente em cena me aproxima dela como intérprete. Levar a história da Carmen para o público americano é importante porque muita gente aqui conhece apenas a imagem icônica - o turbante, as frutas, a personagem criada por Hollywood - mas nem sempre conhece a mulher por trás do mito. A Carmen foi uma artista extremamente inteligente, ambiciosa, moderna e talvez uma das primeiras brasileiras a construir uma carreira internacional em grande escala. Ela abriu portas muito antes de existir a discussão sobre representatividade que temos hoje. A repercussão tem sido muito bonita porque o público se surpreende. E para mim existe também um aspecto pessoal: como artista brasileira vivendo nos Estados Unidos, interpretar Carmen é quase dialogar com alguém que atravessou muitos dos mesmos temas - identidade, imigração, pertencimento, adaptação cultural e o preço de ocupar espaço em outro país.
Recentemente, também em Los Angeles, fizeste um monólogo como Marylin Monroe num evento apenas com artistas brasileiros. Como foi viver esse ícone que faria 100 anos este ano?
Foi uma experiência muito emocionante porque a Marilyn Monroe é uma figura que todo mundo acha que conhece, mas que ainda guarda muitas camadas. Neste ano em que ela completaria 100 anos, eu me interessei pela dicotomia mito x mulher: pela artista, pela vulnerabilidade, pela inteligência e pela forma como ela foi construída e consumida pela indústria. Tudo isso gerou "Marilyn Times". Também existe uma coincidência muito simbólica para mim nesse momento, porque a Marilyn e a Carmen Miranda faleceram no mesmo dia: 5 de agosto. Duas mulheres gigantes, duas estrelas internacionais, duas artistas que atravessaram fronteiras e que, de maneiras diferentes, pagaram um preço muito alto pela própria imagem pública. Como estou mergulhada no universo da Carmen neste projeto em Los Angeles, viver Marilyn acabou criando um diálogo inesperado entre as duas. Ambas foram transformadas em símbolos muito fortes — quase personagens maiores do que elas mesmas. E foi bonito fazer isso num evento com artistas brasileiros, o festival "Made in Brasil", porque trouxe um olhar diferente para a Marilyn. Não era apenas reproduzir um ícone americano, mas tentar reencontrar a mulher por trás da lenda, sob direção de Chica Barbosa e baseada na peça de Sérgio Róveri.
E por falar desse evento de artistas brasileiros, como a comunidade artística se ajuda em Los Angeles?
Acho que a comunidade pode sempre ser mais forte e mais conectada. Los Angeles não ajuda muito nesse sentido porque é uma cidade enorme, tudo é longe e a questão do transporte dificulta bastante os encontros. Às vezes as pessoas estão trabalhando juntas, mas morando a uma hora e meia de distância umas das outras. Mesmo assim, existe um esforço muito bonito de criar espaços de encontro e fortalecer a presença brasileira. Temos o apoio do Consulado brasileiro e também iniciativas importantes lideradas por artistas e produtores culturais. No projeto da Carmen, por exemplo, minha parceira é a Brazilian Nites, idealizada por Patricia Leão, que há muitos anos promove a cultura brasileira na cidade. Também existe o trabalho da Los Angeles Brazilian Film Festival, liderado por Meire Fernandes, teve o Made in Brasil, idealizado por Leopold Nunan, o Bravo Festival criado por Talize Sayegh, entre outros movimentos. Eu também vejo isso dentro da iniciativa educacional que co-fundei, a Brazilian Play and Learn, junto com a atriz Mariana Leite. Nosso objetivo sempre foi manter a língua e a cultura brasileiras vivas entre as crianças que crescem aqui. Então acho que ainda existe espaço para crescer mais como comunidade, mas vejo algo muito bonito acontecendo: brasileiros deixando de trabalhar isoladamente e começando a construir uma rede.
Há planos para fazer projetos no Brasil, seja na TV ou no streaming?
Sempre! Sempre! Eu tenho muita vontade de continuar trabalhando no Brasil e manter essa ponte entre os dois países. Como o Wagner Moura já comentou algumas vezes, atuar na nossa própria língua tem algo muito especial. É mais tranquilo, mais fluido, existe uma liberdade diferente. Atuar em uma segunda língua é maravilhoso, mas exige muita energia. Você está interpretando, pensando na construção da personagem, escutando o outro ator, improvisando e, ao mesmo tempo, existe uma camada técnica enorme acontecendo. Principalmente quando envolve improvisação, você trabalha quase em duas velocidades ao mesmo tempo (risos). Então sim, tenho muito interesse em projetos no Brasil - TV, streaming, cinema, teatro. Acho importante continuar circulando entre os mercados. Agora também estou entrando em uma nova fase profissional, com o agenciamento do Fabio Rios, e estou muito animada com o que pode surgir. Nesse momento, sinceramente, estou pronta e esperando os convites (risos). Depois de tantos anos construindo carreira aqui, seria muito bonito poder trazer essa experiência de volta para produções brasileiras também
Quais teus sonhos profissionais?
Eu sonho muito com a realização dos projetos que estou construindo agora. Tenho sonhos muito concretos, ligados ao presente, às histórias que quero contar, aos espetáculos que estão nascendo neste momento. Mas também sonho com aquilo que eu ainda não conheço. Com as surpresas que a vida pode trazer. Sou artista e, apesar de todos os desafios, essa é a forma como eu me comunico com o mundo. É através da arte que eu organizo ideias, emoções, perguntas e encontros. Então, mais do que chegar em algum lugar específico, eu gosto de caminhar o caminho. Talvez eu me identifique muito com uma ideia do Bhagavad Gita: nós temos direito à ação, não ao resultado da ação. Então eu tento fazer o trabalho, caminhar o caminho e confiar no que ele vai trazer.