Entre os escritores mais recentes que tiveram um romance declarado obsceno e sem mérito literário pelo comitê estão os americanos Chuck Palahniuk, autor de "Fight Club", e William Burroughs, um integrante da Beat Generation.
Burroughs é um escritor americano de prosa experimental e ligada a experiências com as drogas e as viagens. Ele é identificado geralmente pela literatura underground, além de ser considerado padrinho e guru da geração punk dos anos posteriores. Burroughs era membro rebelde de uma família ligada à indústria de máquinas calculadoras.
Já Chuck Palahniuk é autor de um livro sobre um homem solitário que conhece um tipo carismático e anarquista com quem funda um estranho clube clandestino. O romance "Fight Club", Clube da Luta, publicado em 1996, converteu-se logo em “Cult” e foi adaptado para o cinema, em 1999, por David Fincher (Clube da Luta; Seven - Os Sete Crimes Capitais e o Curioso Caso de Benjamin Button).
Veto a revista de caricaturas
Mês passado, o comitê, ligado à assessoria do primeiro-ministro turco, obrigou uma nova revista de caricaturas, Harakiri, a fechar as portas, com o pagamento de multa por obscenidade.
A instituição justificou a decisão alegando que a revista "encorajava as relações fora do casamento", assim como "a preguiça e o aventureirismo", relatou a imprensa. "Uma revista de caricaturas não encoraja senão uma coisa: a leitura", replicou o cartunista K. Perker, fundador do semanário, e hoje morador de Nova Iorque, onde publica suas criações no New York Times e no Wall Street Journal.
Embalagem em plástico preto
O comitê também pode ordenar a venda de periódicos "obscenos" desde que estejam embalados em plástico preto. "São tentativas para dissuadir os editores. É um ataque a nossa liberdade de expressão", comenta o editor Irfan Sanci em relação à censura a William Burroughs.
O comitê concluiu que o romance de Burroughs "não tem valor literário (...) devido a uma falta de integridade de conteúdo", "não tendo utilidade para o mundo intelectual". "Esta comissão não é qualificada para tomar decisões relacionadas à literatura", julga Sanci, que recebeu, em 2010, o Prêmio Liberdade, da Associação Internacional de Editores.
"Claro que existem publicações que podem afetar negativamente a infância. O comitê deve vigiar isso, mas (...) não há nenhum pedagogo ou escritor de livros para crianças na instituição", estima o presidente da União dos Editores da Turquia, Metin Celal Zeynioglu.
Origem do comitê
A maior parte desses membros vêm de diferentes ministérios, compreendendo Saúde, Justiça, Cultura e Educação, ao lado de um imã nomeado pela Direção de Assuntos religiosos, de um universitário e um jornalista. O presidente, Ruhi zbilgiç, um técnico em economia agrária, recusou-se a falar sobre o assunto.
Para Irfan Sanci, a ação do comitê não está ligada à ascensão ao poder, em 2002, do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), saído do movimento islamita. "O comitê foi criado em 1927. É ligado à filosofia fundadora da República, comenta o editor, que foi censurado pela publicação de dez livros, em 20 anos.
"Fui perseguido por um livro da escritora francesa Jeanne Cordelier antes da chegada do AKP", diz ele. O romance, "La Dérobade", A escapada, é um depoimento sobre a prostituição, e chegou a ser vendido por uns tempos envolto em plástico preto, na década de 1990. Para Zeynioglu, no entanto, a natureza das publicações censuradas evolui de acordo com o clima político.
"No passado, as pessoas eram perseguidas porque faziam propaganda religiosa. Mais tarde, processos foram abertos por insulto aos valores religiosos", observou.