Arte & Agenda

Um dia quente, um bom lugar para ler e retirar um livro

A Biblioteca Pública do Estado amplia o seu número de leitores com acervo, ambiente e projetos atrativos

Aumento da demanda de empréstimos de livros na Biblioteca Pública do RS.
Carlos Aires, pesquisador na biblioteca
Aumento da demanda de empréstimos de livros na Biblioteca Pública do RS. Carlos Aires, pesquisador na biblioteca Foto : Ricardo Giusti

O leitor Carlos Aires, de 74 anos, responde sem hesitar quando questionado sobre o que o leva à sala da Biblioteca Pública do Estado (BPE): “Conhecimento”. Frequentador da BPE há mais de 20 anos, Carlos busca mais do que livros e um ambiente silencioso. Ele vai à Biblioteca para pesquisar e ler, mas também para conhecer pessoas novas. Segundo ele, a sociabilidade é o diferencial dessa para as tantas outras.

Já João Santos lê concentrado “A Metamorfose”, de Franz Kafka, no espaço que há um ano e meio o abriga fisicamente nos momentos em que se abstrai para o universo dos livros. Desde que conheceu o local em uma visitação, o leitor comparece diariamente para apreciar os clássicos da literatura. Entre os motivos que o levam à Biblioteca, João afirma que, para além da localização central, são as próprias obras literárias do acervo a atraírem-no.

Carlos e João são algumas das mais de 100 pessoas que passam por lá diariamente. Com cerca de 5300 empréstimos em 2025, a Biblioteca Pública do Estado findou o ano com 80% a mais em relação ao antecedente. Inaugurado em 7 de setembro de 1922 e tombado como patrimônio artístico e histórico do estado em 1986, o número 1190 da rua Riachuelo carrega histórias não somente em sua estrutura centenária, mas nas incontáveis páginas dos aproximadamente 250 mil exemplares que abriga em seu interior. A Coleção de Obras Raras tem como destaques “Pharsalia”, de Lucanus, de 1519, e as edições de “La Divina Comedia”, de Dante Alighieri, editada em 1921, por Conrado Ricci, e de “Os Lusíadas”, de Camões, entre outras. A Biblioteca existe desde 14 de abril de 1871, criada pela Lei nº 724.

As paredes amarelas do prédio dão espaço a um acervo repleto de documentos importantes e coleções raras, mas não apenas. Atividades culturais frequentemente movimentam o ambiente em uma programação pensada para trazer as pessoas ao espaço público e incentivar a leitura. Projetos como o Clube de Leitura, a Gibiteca e as Oficinas de Verão estão entre os fatores que contribuem para o expansivo montante de sócios. Ao conhecer o espaço por meio dessas interações, o público é apresentado às oportunidades que a Biblioteca oferece e tende a frequentá-la, assim como ocorreu com João.

APROXIMAÇÃO DO LEITOR

Mesmo com o crescente contato da sociedade com a BPE, ainda é um desafio conquistar a aproximação do leitor. Ana Maria de Souza, diretora da instituição, comenta que atualmente é necessário ser “malabarista” para conciliar as diversas frentes a serem utilizadas para cativá-los. “Ninguém mais procura a Biblioteca Pública porque precisa para fazer o trabalho de faculdade, fazer o trabalho da escola. As pessoas procuram a Biblioteca Pública porque escolhem ir à Biblioteca Pública” diz a bibliotecária que desde março de 2023 está à frente do cargo. “Então, o ambiente tem que ser agradável, o acervo tem que estar falando muito com as necessidades desse público, as atividades também de incentivo à leitura têm que estar dialogando muito com a necessidade desse público atual.”

A programação cultural do espaço é articulada com demais formas da expressão artística. A música, as artes plásticas e o teatro são alguns dos recursos comumente utilizados pela entidade para despertar nas pessoas o apreço pela leitura. E a estratégia tem funcionado. Ana Maria observa que muitas das obras relacionadas a essas atividades posteriormente se destacam em quantia de empréstimos, como é o exemplo de “A Terra dos Mil Povos”, de Kaká Werá, que despontou entre os 10 livros mais retirados depois de ser objeto do Clube de Leitura da Biblioteca.

O PÚBLICO AO PÚBLICO

Entre as principais preocupações da gestão de Ana Maria, está a necessidade de fazer com que o leitor se sinta incluído ao frequentar a Biblioteca. Para tanto, seu planejamento busca levar em consideração a diversidade do público. Desde o próprio acervo até as ações organizadas, a BPE tem como objetivo alcançar pessoas de todas as idades e culturas, do popular ao erudito, do jovem à terceira idade, para que qualquer um se sinta à vontade para participar dos eventos e frequentar o espaço. Além disso, o acervo conta com exemplares em braile e em áudio, tornando a leitura mais acessível.

“A biblioteca é pública, e, por ser pública, ela tem que estar aberta para todas as pessoas, não importa a classe social, não importa a idade, não importa a raça” conclui a diretora. Como forma de tentar trazer essas pessoas ao espaço público que lhes pertence, a BPE aposta na comunicação. Em contato com ONGs e entidades específicas, a Biblioteca divulga suas ações por meio de uma comunicação direcionada, pensada para chegar até o público alvo da atividade. A divulgação ocorre também pelos canais convencionais, como as redes sociais e o site.

  • Supervisão de Luiz Gonzaga Lopes

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