O leitor Carlos Aires, de 74 anos, responde sem hesitar quando questionado sobre o que o leva à sala da Biblioteca Pública do Estado (BPE): “Conhecimento”. Frequentador da BPE há mais de 20 anos, Carlos busca mais do que livros e um ambiente silencioso. Ele vai à Biblioteca para pesquisar e ler, mas também para conhecer pessoas novas. Segundo ele, a sociabilidade é o diferencial dessa para as tantas outras.
Já João Santos lê concentrado “A Metamorfose”, de Franz Kafka, no espaço que há um ano e meio o abriga fisicamente nos momentos em que se abstrai para o universo dos livros. Desde que conheceu o local em uma visitação, o leitor comparece diariamente para apreciar os clássicos da literatura. Entre os motivos que o levam à Biblioteca, João afirma que, para além da localização central, são as próprias obras literárias do acervo a atraírem-no.
Carlos e João são algumas das mais de 100 pessoas que passam por lá diariamente. Com cerca de 5300 empréstimos em 2025, a Biblioteca Pública do Estado findou o ano com 80% a mais em relação ao antecedente. Inaugurado em 7 de setembro de 1922 e tombado como patrimônio artístico e histórico do estado em 1986, o número 1190 da rua Riachuelo carrega histórias não somente em sua estrutura centenária, mas nas incontáveis páginas dos aproximadamente 250 mil exemplares que abriga em seu interior. A Coleção de Obras Raras tem como destaques “Pharsalia”, de Lucanus, de 1519, e as edições de “La Divina Comedia”, de Dante Alighieri, editada em 1921, por Conrado Ricci, e de “Os Lusíadas”, de Camões, entre outras. A Biblioteca existe desde 14 de abril de 1871, criada pela Lei nº 724.
As paredes amarelas do prédio dão espaço a um acervo repleto de documentos importantes e coleções raras, mas não apenas. Atividades culturais frequentemente movimentam o ambiente em uma programação pensada para trazer as pessoas ao espaço público e incentivar a leitura. Projetos como o Clube de Leitura, a Gibiteca e as Oficinas de Verão estão entre os fatores que contribuem para o expansivo montante de sócios. Ao conhecer o espaço por meio dessas interações, o público é apresentado às oportunidades que a Biblioteca oferece e tende a frequentá-la, assim como ocorreu com João.
APROXIMAÇÃO DO LEITOR
Mesmo com o crescente contato da sociedade com a BPE, ainda é um desafio conquistar a aproximação do leitor. Ana Maria de Souza, diretora da instituição, comenta que atualmente é necessário ser “malabarista” para conciliar as diversas frentes a serem utilizadas para cativá-los. “Ninguém mais procura a Biblioteca Pública porque precisa para fazer o trabalho de faculdade, fazer o trabalho da escola. As pessoas procuram a Biblioteca Pública porque escolhem ir à Biblioteca Pública” diz a bibliotecária que desde março de 2023 está à frente do cargo. “Então, o ambiente tem que ser agradável, o acervo tem que estar falando muito com as necessidades desse público, as atividades também de incentivo à leitura têm que estar dialogando muito com a necessidade desse público atual.”
A programação cultural do espaço é articulada com demais formas da expressão artística. A música, as artes plásticas e o teatro são alguns dos recursos comumente utilizados pela entidade para despertar nas pessoas o apreço pela leitura. E a estratégia tem funcionado. Ana Maria observa que muitas das obras relacionadas a essas atividades posteriormente se destacam em quantia de empréstimos, como é o exemplo de “A Terra dos Mil Povos”, de Kaká Werá, que despontou entre os 10 livros mais retirados depois de ser objeto do Clube de Leitura da Biblioteca.
O PÚBLICO AO PÚBLICO
Entre as principais preocupações da gestão de Ana Maria, está a necessidade de fazer com que o leitor se sinta incluído ao frequentar a Biblioteca. Para tanto, seu planejamento busca levar em consideração a diversidade do público. Desde o próprio acervo até as ações organizadas, a BPE tem como objetivo alcançar pessoas de todas as idades e culturas, do popular ao erudito, do jovem à terceira idade, para que qualquer um se sinta à vontade para participar dos eventos e frequentar o espaço. Além disso, o acervo conta com exemplares em braile e em áudio, tornando a leitura mais acessível.
“A biblioteca é pública, e, por ser pública, ela tem que estar aberta para todas as pessoas, não importa a classe social, não importa a idade, não importa a raça” conclui a diretora. Como forma de tentar trazer essas pessoas ao espaço público que lhes pertence, a BPE aposta na comunicação. Em contato com ONGs e entidades específicas, a Biblioteca divulga suas ações por meio de uma comunicação direcionada, pensada para chegar até o público alvo da atividade. A divulgação ocorre também pelos canais convencionais, como as redes sociais e o site.
- Supervisão de Luiz Gonzaga Lopes