Arte & Agenda

Um papo cronicamente viável na Feira

Cronistas Humberto Werneck e Luís Henrique Pellanda abordaram o gênero na noite desta segunda-feira, na 60ª Feira do Livro

Pellanda, Tito, Werneck e a arte da crônica
Pellanda, Tito, Werneck e a arte da crônica Foto : Luiz Gonzaga Lopes / Especial / CP
A mesa A Arte da Crônica - A Literatura do Cotidiano realizada no início da noite desta segunda-feira foi uma prazerosa conversa. O papo cronicamente viável foi feito pelos cronistas Humberto Werneck e Luís Henrique Pellanda, mediados por Tito Montenegro, editor da Arquipélago, na Sala Oeste do Santander Cultural. Mais vivido, com 69 anos, Werneck marcou a sua definição de crônica. "Prefiro pensar na crônica como uma contramão, saudável contramão na revista, no jornal. Acho que a crônica não é um gênero jornalístico, pois é subjetivo e pessoal, pois a crônica genuína dá a impressão que foi escrita direto para o leitor, enquanto o jornalismo é objetivo e impessoal".
Pellanda seguiu na mesma seara e desconstruiu mais ainda o mito do escritor. "Falam que a crônica é uma derivação sentimental do jornalismo. O cronista sente que está produzindo algo anti-olímpico. O cronista puxa uma cadeira para o leitor sentar, você cria uma estranha relação de intimidade com ele", apontou.

Para exemplificar o poder sedutor do cronista, Werneck destacou que o cronista está numa empreitada de sedução com o leitor, tal qual Sheherazade, a mulher que se manteve viva por mil e uma noites, por sua forma de contar histórias, de seduzir. "Eu hoje publico as minhas crônicas dominicais no Caderno de Cultura do Estadão, mas eu preferia o de Cidades, pois é um lugar onde passa mais gente", disse. Para dar continuidade a relação com o leitor, Werneck contou uma pequena situação cotidiana, quando uma pessoa estava lendo o jornal a seu lado no metrô em São Paulo. "Fiquei numa tensão. Ela chegou onde estava a crônica, se fizesse um muchocho e passasse para o horóscopo seria ruim, mas ela leu, deu vontade de me ajoelhar aos pés dela", recordou.

Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Drummond, Nelson Rodrigues foram citados e invocados em alguns momentos da charla crônica. Sobre o humor na crônica, os dois emitiram opiniões de bate-pronto. Pellanda frisou: "o humor é como uma isca na crônica, que a gente põe na massa para que o texto não desande". Werneck arrematou: "O humor para mim é uma coisa constitutiva da crônica. Cresci no meio de pessoas engraçadas. Não vejo o humor como um ingrediente, mas como uma qualidade na crônica, principalmente a qualidade de rir de si mesmo, que é uma das mais importantes". Pellanda ressaltou também que fala de si, mas não se expõe. "O que me interessa é mostrar este eu dentro da cidade. Quando me perguntam sobre a técnica de crônica, a primeira que eu digo é que leia o outro, a maneira de ver o outro e o mundo". Werneck foi mais adiante: "Se eu pudesse voltar atrás no jornalismo, sem esta miragem da objetividade, o que interessa é uma pessoa contando uma história".

O papo seguiu e houve mais algumas perguntas do mediador Tito Montenegro e de pessoas da plateia como o cronista Rubem Penz e outros interessados pelo gênero. Depois de 1h30min de conversa, a mesa foi encerrada e por volta das 20h, eles rumaram para a Praça de Autógrafos para autografar a “Sonhos Rebobinados” (Humberto Werneck) e “Asa de Sereia” (Luís Henrique Pellanda). Uma noite para ser descrita em uma crônica futura.

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