Nada poderia ser mais apropriado para definir o show de Zaz nesta terça-feira, dia 3 de março de 2026, no Auditório Araújo Vianna do que a tradução do título do disco mais recente da chanteur française de 45 anos, “Sains et Saufs”, isto é, “Sãos e salvos”. As 3,45 mil pessoas que lotaram o espaço estiveram sãos e salvos da barbárie deste mundo do século XXI, com guerras e lideranças destemperadas, com canções que falam de amor, de existencialismo, de identidade, de sorrisos, de perdas e cotidiano. Durante 1h45min, Zaz anestesiou todas as dores possíveis com sua música que mistura o pop, a chanson Française e o jazz, dançando, pulando, se jogando ao chão, mostrando uma intensidade e uma vibração contagiantes.
A apresentação começou com canções do disco mais recente, o quinto, “Sains et Saufs”, lançado nas plataformas em setembro do ano passado. Com “Je Pardonne”, “Mon Sourire”, “On Peut Comme Ça”. Ainda com músicas novas, mas cantando metade em espanhol e metade em francês, a embalada “Que Vendrá” e logo depois os compassos se aceleram com “La Flamme” e a chama de Zaz está acesa, assim como a do público que parece conhecer bem as canções mais atuais. Antes de algumas músicas, Zaz recita em francês trechos de canções e o telão mostra traduzido numa gentileza de se comunicar cada vez mais com o público brasileiro que ela disse adorar por sua criatividade, espontaneidade e ligação forte com a música. No bis, ela nos presentearia com “Samba em Prelúdio”, cantada em português. Na comunicação direta com o público, ela disse que estava com saudades, que fazia tempo que não via o público brasileiro, saudou Porto Alegre e disse que estar com o público valoriza o seu trabalho e que a sua voz com as vozes da plateia ganha uma outra vibração.
O show seguiu vibrante com uma canção da fase inicial da carreira, “Les Passants”, com aquele chorus sempre profundo e significativo: Passe, passe, passera/ La dernière restera/ Passe, passe, passera/ La dernière restera” (Passa, passa, passará/ O último restará/ Passa, passa, passará/ O último restará”. Quem não lembra da canção infantil: “Passa, passa, passará, quem depois ficará, a porteira está aberta para quem quiser passar...”. E aí as canções foram mais conhecidas neste bloco, com a imponente “Comme Ci, Comme Ça” e a ode a Paris ,de Maurice Chevalier na versão de Zaz: “Paris sera toujours Paris”, com destaque para a banda em quarteto, com as levadas jazzísticas e muitos pequenos solos com David Hadjaj (teclados), Guillaume Juhel (guitarras), Jonathan Grandcamp (bateria) e Swaeli Mbappe (baixo/contrabaixo).
Alternando canções do disco novo com clássicos dos discos anteriores, Zaz foi criando uma noite de boa música, de magia e de algum improviso com a pegada jazzística de sua banda. Entre as canções que vieram desta metade do show em diante estiveram “Au Pays des Merveilles”, “Eblouie par la Nuit”, esta com a visceralidade e o soufrir das grandes canções francesas, além da faixa-título do disco novo, “Sains et Saufs”, “Si Jamais J´oublie” e a prazerosa “On Ira”, na qual Zaz ensaiou e afinou o coro da plateia no “Oh, oh, oh, oooohhh”.
Ao se despedir do palco em uma primeira vez, com a galera já sabendo que o bis seria especial, pois “Je Veux” ainda não havia sido cantada, mas poucos sabiam que seria tão acalentadora esta volta para o bis. Com uma luz só nela, de um canhão seguidor, ela senta na beira do palco e começa as primeiras estrofes da balada romântica “Que Des Liens”, talvez a música mais doce do álbum recente. O bis foi o “crème de la crème” da noite, pois ela ainda entoou a sua versão contemporânea com direito a percussão vocal de “La Vie en Rose”, reverenciando Édith Piaf e Louiguy à sua maneira. O momento mais mágico da noite foi quando ela entoou em português “Samba em Prelúdio” homenageando toda a música brasileira nesta canção de Vinicius de Morais e Baden Powell: “Eu sem você, sou só desamor...” E com a plateia enternecida e enlouquecida, Zaz trouxe a sua arrasa-quarteirão “Je Veux”, com o seu trompete vocal e com direito à descida do palco para cumprimentar os fãs que já se acotovelavam mansamente no gradil. Um show para não mais esquecer, como foram as apresentações da irrequieta e virtuosa francesinha em 2015 e 2017.
SETLIST
- Je Pardonne
- Mon sourire
- On peut comme ça
- Qué vendrá
- La flamme
- Les passants
- Comme ci, comme ça
- Paris sera toujours Paris (Maurice Chevalier cover)
- J'imagine que tu sais
- Au pays des merveilles
- Mon coeur tu es fou
- Éblouie par la nuit
- Un enfant pour toujours
- Sains et saufs
- La fée
- Si jamais j'oublie
- On ira
BIS:
- Que des liens
- La vie en rose (Piaf/Louiguy cover)
- Samba em Prelúdio (Vinicius/Baden Powell cover)
- Je Veux