Arte & Agenda

“Uma ode à poesia” de Mario Quintana em filmagem

Reportagem do Correio do Povo conversou com os atores Fernando Eiras e Klara Castanho, e com os diretores do longa “Minha Sombra Luminosa”

Foto : Fabiano do Amaral

Por Carolina Santos e Manu Couto

No dia 5 de maio de 1994, morria Mario Quintana, figura chave para a história da literatura e do jornalismo gaúcho. Da crônica ao poema, Mario explorava a arte de emaranhar palavras com aforismos, brincadeiras, pequenos jogos de palavras e diálogos imaginários, versinhos e fragmentos.

“Estamos celebrando nessa semana os 32 anos que Mario partiu, que Mario se transfigurou por uma outra esfera – porque uma criatura que inventou tantas vidas, tantas possibilidades de perspectiva, não morre jamais”, conta o ator Fernando Eiras. Ele viverá o personagem de Mario Quintana em “Minha Sombra Luminosa”, filme que narra a história do encontro do escritor com a fotógrafa Liane Neves.

O legado de Mario Quintana no Correio do Povo

O poeta trabalhou por anos no Correio do Povo, onde foi redator e responsável pela seção “Do Caderno H” – onde foi publicado o poema que encerra com os famosos versos “Todos esses que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão... / Eu passarinho!”. “O Correio do Povo foi muito importante para a poesia do Mario Quintana. Foi ali que ele desenvolveu um olhar cotidiano sobre as coisas preciosas e raras da vida”, destacou Eiras.

Aos 80 anos, o já renomado escritor conhece a jovem Liane Neves, que enfrentou o desafio de fotografar um autor que, embora icônico, era avesso à própria imagem. Contudo, quando descobre que o poeta está prestes a perder seu quarto no Hotel Majestic (que hoje se transformou em um centro cultural em homenagem a ele), a fotógrafa entra na missão de ajudá-lo, construindo uma amizade inesquecível.

Porto Alegre como cenário e inspiração

Filmagens de Minha Sombra Luminosa, ator Fernando Eiras interpreta o poeta Mario Quintana. | Foto: Fabiano do Amaral

Em processo de produção, as ruas do Centro Histórico de Porto Alegre se transformam em um grande set de filmagens com as gravações. Quintana era uma pessoa que vivia pelas ruas do Centro: frequentava a Praça da Alfândega, a Rua dos Andradas (na época, Rua da Praia) e o Cais do Porto, além de trabalhar no Correio do Povo e morar durante muitos anos no Majestic. No Clube do Comércio de Porto Alegre, também será recriado o antigo Hotel Royal, a última residência do poeta. “Fomos escolhendo as coisas conforme essas caminhadas dele”, descreve o diretor de produção Marco Bajotto.

O longa é dirigido por Tomás Fleck, que assina o roteiro e a direção. “Durante o processo de escrita, eu via os atores, eu via o tom, eu via o ritmo e tentando respeitar esse desejo que eu queria alcançar, me coloquei na direção”, relembra ele.

O filme aposta na reconstrução visual da Capital gaúcha dos anos 1980 para retratar os lugares que os textos de Quintana evocam. “Tentar contar e se inspirar muito nos poemas dele para ter dramaturgia e uma história para contar a partir disso”, comenta Fleck. A equipe realizou uma extensa pesquisa para encontrar os espaços que ainda estavam preservados desde 1986, compondo o cenário da época junto a um trabalho de figurino e direção de arte.

O poder da poesia e a homenagem no cinema

“Esse filme é uma ode à poesia. É um filme sobre o poder artístico da criação na vida humana, através da vida humana”, descreve Eiras. A produção tem lançamento previsto para o segundo semestre de 2027 e segue filmando nas ruas de Porto Alegre até dia 2 de junho. Mesmo 32 anos após sua morte, Mario Quintana segue vivo na memória do povo gaúcho. “Tanto que estamos aqui. Você pode ver a quantidade de gente trabalhando, inventando por causa dele. Estamos comemorando aqui, celebrando a vida dele, realizando esse filme”.

Klara Castanho e a responsabilidade de interpretar Liane Neves

Klara Castanho interpreta a fotógrafa Liane Neves, e Fernando Eiras vive o poeta Mario Quintana. | Foto: Fabiano do Amaral

A atriz Klara Castanho, conhecida por sua atuação em produções como “Bom dia, Verônica”, “De Volta aos 15” e “Confissões de Uma Garota Excluída”, interpreta Liane Neves no longa-metragem. A fotógrafa, que atualmente tem 67 anos, registrou, aos 23 anos, a intimidade de Mario Quintana em seus últimos anos de vida.

Ela revelou que o processo de construção da personagem começou a partir de uma longa conversa com Liane Neves. Segundo a artista, interpretar uma pessoa real que acompanhará o resultado final aumenta o senso de responsabilidade. “Conheci a Liane e tivemos uma conversa muito longa. Perguntei tudo o que podia agregar positivamente para o filme. Existe uma responsabilidade muito grande em interpretar alguém que vai assistir ao projeto”, contou.

Apesar de apontar que existem mudanças para traduzir a realidade em ficção, Klara ressaltou como se sente ao retratar Liane. “Toda vez que eu entro em cena, eu penso: "Meu Deus, tomara que a Liane consiga minimamente se identificar com o que eu tô fazendo aqui". Mas ela tá muito empolgada com o projeto também, então isso já facilita todo o nosso caminho”.

Klara também falou sobre a experiência de descobrir Porto Alegre a partir do universo de Mario Quintana. “Estamos experienciando uma Porto Alegre muito única, vivendo não só pelas lentes das câmeras, mas pelo olhar do Mario Quintana. A cidade me acolheu muito”, afirmou.

*Colaboração de Lúcia Haggstrom

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