"Governos de esquerda, como o do Brasil e o do Chile na época da 'concertação', e como o governo uruguaio são governos de esquerda que respeitam a democracia e que, inclusive, no campo econômico, promovem políticas liberais e acho que isso é um grande progresso. Temos, também, governos de direita democráticos no Chile, na Colômbia, no Peru", citou.
"O que não é um progresso é que ainda tenhamos Cuba, tenhamos a Venezuela e minha impressão é que esta corrente autoritária e antidemocrática está de saída. Cada vez há menos apoio, menos respaldo popular, como se viu nas eleições venezuelanas", acrescentou. Em suas declarações à imprensa, o escritor peruano, de 74 anos, disse que se manterá fiel à defesa da liberdade e da democracia em suas obras futuras.
"Vou continuar escrevendo sobre as coisas que mais me estimulam. Vou continuar defendendo as ideias que tenho: a defesa da liberdade, da democracia, da opção liberal e as críticas a todas as formas de autoritarismo", disse.
Vargas Llosa também fez uma defesa vibrante do papel que os livros cumprem e a necessidade de promover a leitura entre os jovens. Para ele, a boa literatura é "um extraordinário prazer", mas também "cria cidadãos menos facilmente manipuláveis" pelo poder, disse.
"É preciso estimular a leitura nas novas gerações, sobretudo convencer os jovens de que a literatura não é só conhecimento, que a literatura não é só uma forma de adquirir determinados conceitos e ideias, mas um prazer extraordinário", acrescentou. Segundo o romancista, "o gozo que a boa literatura produz é incomparável", mas acrescentou: "a literatura é fundamental se nós quisermos ter um futuro de liberdade"."Nada desperta tanto o espírito crítico em uma sociedade como a boa literatura. Esta é a razão pela qual todos os regimes ditatoriais de qualquer índole, o primeiro que fazem é estabelecer censuras", acrescentou.
"Tentam controlar o que é a vida literária porque veem na vida literária sempre a semente de um perigo para o poder. E é verdade: a boa literatura, ao despertar o espírito crítico, cria cidadãos que podem ser mais dificilmente manipulados do que uma sociedade sem literatura e sem bons livros", afirmou "Promover a literatura não é só promover uma forma de gozo, uma forma de luxo, mas é promover também a liberdade, a democracia, o pluralismo, a coexistência na diversidade", insistiu Vargas Llosa.
"Espero que sobreviva (à tecnologia); depende de nós. É preciso promover a literatura nos programas educativos", acrescentou. No entanto, o escritor considerou "inevitável" o retrocesso dos livros em sua forma tradicional.
"Não sei se isto me faz feliz, minha ideia do livro é o livro de papel, mas isto está mudando e vai continuar mudando", continuou. "Minha esperança é que as novas tecnologias não impliquem em uma banalização do conteúdo do livro. Acho que existe o risco de que a tecnologia empobreça a literatura. Que ela continue sendo o que tem sido, está em nossas mãos", emendou.
Sobre o prêmio, Vargas Llosa disse que tentará "sobreviver ao Nobel", à fama que implica e à perda de serenidade em sua vida cotidiana. Quando sua esposa, Patricia, se aproximou, na madrugada, com o telefone na mão, o escritor disse que não pensou no prêmio Nobel, mas numa "má notícia" e depois, em "uma brincadeira". "Eram cinco e meia da manhã, eu estava lendo porque eu acordo e trabalho desde muito cedo. Estava preparando a minha aula da próxima segunda-feira porque estou como professor em Princeton por um semestre", contou o escritor.
"Estava lendo um livro maravilhoso, que recomendo efusivamente a quem não tiver lido: é 'O Reino deste Mundo' de Alejo Carpentier. É um livro de poucas páginas, mas maravilhosamente bem escrito", acrescentou. "De repente, vi que a minha mulher se aproximava com o telefone na mão. A primeira reação foi de angústia porque essas notícias costumam ser ruins, as que chegam ao amanhecer", acrescentou.
"Depois que o senhor me disse, 'sou o secretário-geral da Academia Sueca, lhe concedemos o prêmio Nobel', me lembrei de uma brincadeira de mau gosto que fizeram com (o escritor italiano) Alberto Moravia. Alguém ligou para ele, disse que era da Academia Sueca e que lhe haviam dado o prêmio. Moravia começou a comemorar e foi uma brincadeira", relatou.
"Disse à minha mulher: 'Patricia, e se isto for uma brincadeira? Melhor não ligarmos para meus filhos ainda, até que se confirme". Quinze minutos depois, a notícia corria o mundo. "Felizmente se confirmou", disse Vargas Llosa, "mas, na verdade, foi uma surpresa".
Vargas Llosa agradeceu pelo prêmio à Espanha, ao Peru, à Academia sueca e aqueles que o apoiaram no início de sua vida literária, em especial os editores espanhóis Carlos Barral e Carmen Barcells. "O prêmio não só premia um escritor, também premia o que cerca o escritor, neste caso a língua na qual escrevo, a maravilhosa língua espanhola, falada por, pelo menos, 500 milhões de pessoas no mundo", emendou. "Estou surpeso, ainda não acredito", disse, exultante.