O festival iniciou a semana refletindo sobre a finitude da vida com o drama “A Despedida”, de Marcelo Galvão, que arrancou elogios a Nelson Xavier e Juliana Paes, fortes concorrentes nas respectivas categorias de atuação. Dois dramas de guerra revisitaram passagens históricas pouco lembradas em livros de história: “Senhores da Guerra”, de Tabajara Ruas, trouxe um drama de dois irmãos durante o conflito de 1923 no RS; e “Estrada 47”, de Vicente Ferraz, resgatou a participação da FEB na Itália, na 2ª Guerra. Do ponto de vista formal e técnico, “Estrada 47” angariava a preferência de vários críticos ao prêmio principal e também de fotografia, que exigiu trabalho especial para as cenas na neve. Em “Estrada 47”, um ator cativou o público: Francisco Gaspar como Piauí talvez seja o retrato mais pungente da insanidade da guerra, pela figura de um nordestino transtornado em meio à neve, obrigado a lutar por conflito que pouco lhe dizia respeito. Se não ganhar prêmio, Gaspar conquistou parte do público.
O mineiro “O Segredo dos Diamantes”, de Helvécio Ratton, é simpático, que pode ter carreira no circuito comercial, mas não agrega inovações para festivais. As surpresas criativas vieram com os musicais “A Luneta do Tempo”, de Alceu Valença, e “Sinfonia da Necrópole”, de Juliana Rojas. Com trilhas sonoras em destaque, apresentaram surpresas até para quem tem o olhar acostumado com a sétima arte. Juliana apostou em comédia transgressora ao ambientar sua história em ambiente sepulcral. O filme de Valença exibiu explosão de cores e nova abordagem de um regionalismo nordestino, presente em diálogos criados a partir do cordel. Estão entre os candidatos a prêmios de som e trilha.
A passagem de Valença pelo evento certamente marcará a história do festival. Alegre e animado, ele esbanjou carisma. Na coletiva, revelou que gostaria de falar cinco horas sobre o filme e lamentou por ter apenas uma hora. Ao falar da trilha do longa, cantou uma canção de Cauby Peixoto, deixando a sensação de que a entrevista virara um show. Os latinos abordaram temáticas diversas, que vão da solidão, da referência ao próprio cinema ao terrorismo. E confirmam o Festival de Gramado como um ponto de integração no continente.